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sexta-feira, 9 de maio de 2008

Melquisedeque


"Porque este Melquisedeque, rei de Salem, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão quando este regressava da vitória contra os reis, e o abençoou, a quem também Abraão separou o dízimo de tudo; sendo primeiramente, por interpretação do seu nome, 'Rei de Justiça', e depois também 'Rei de Salem', que é 'Rei de Paz'; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre." - Hebreus, 7:1-3


Quem é este, que abençoa até mesmo ao grande Abraão? A quem o próprio Abraão chega a lhe oferecer o dízimo? Que é chamado "Rei de Salem" e "Rei de Paz"? Quem é este, do qual se diz que não teve pai nem mãe e nem começo nem fim? Quem é este, de quem se diz até que é semelhante ao próprio Filho de Deus??

Melquisedeque, ou (em outras transliterações possíveis) Melquisedec, Melchisedec, Melchisedek, Melchisedeque, Melkisedec, etc, etc... É um dos mais misteriosos personagens que aparecem no Antigo Testamento da Bíblia. Menções a ele são encontradas em três passagens do texto bíblico: 1) Em Gênesis 14:18, quando recebe o dízimo de Abraão e o abençoa. 2) No Salmo 110, quando a Voz de Deus profetiza o Messias como "Sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedec". 3) Por diversas vezes na Carta aos Hebreus, quando Paulo escreve um tratado onde afirma que Jesus, em sendo Rei e Sacerdote Filho da tribo de Judá (que tem a primazia do reinado), não segue o sacerdócio de Levi, exclusivo da tribo de Levi, concluindo que Jesus é Sacerdote segundo a Ordem de Melquisedec, anterior ao sacerdócio levítico.

Devido à natureza profundamente misteriosa deste personagem da Bíblia, algumas correntes místicas e até alguns religiosos ortodoxos de tendência mística atribuem a Melquisedeque variadas funções espirituais relacionadas ao destino do nosso planeta.

As alusões a Melquisedeque, "Rei de Paz", "Rei de Salém" e "Sacerdote do Deus Altíssimo", segundo a tradição cristã, seriam figurações ou representações do próprio Cristo, pois é com ele que surge pela primeira vez a celebração com o pão e o vinho, numa espécie de prenúncio do Sacerdócio de Jesus. Alguns arriscam interpretar Melquisedeque como manifestação de "Corpo Espiritual" do Divino, o qual é chamado "o Verbo", o "Espírito Santo" ou "Anjo do Senhor". Se trataria, portanto, de uma manifestação do próprio Deus em Seu corpo imaterial, pois Ele teria muitos aspectos: Ânima, Espírito Eterno, Verbo, Corpo (Jesus)...

O livro de Hebreus declara que Jesus também é Sumo Sacerdote (Hebreus 2:17; 3:1; 4:14). O profeta Zacarias predisse que Jesus seria um sacerdote em seu Trono, isto é, assim como Melquisedeque, Jesus seria tanto Sacerdote quanto Rei ao mesmo tempo (Zacarias 6:12-13). Jesus nasceu judeu, descendente de Davi e, assim, da linhagem da tribo de Judá. Contudo, Deus escolheu os descendentes de Levi para serem sacerdotes. Assim Jesus, vivendo sob a Lei de Moisés, poderia ser rei porque era da tribo real (Judá) e ainda mais da de Davi (2 Samuel 7:12-16; Atos 2:29-31). Mas Jesus não poderia ser um sacerdote segundo a Lei de Moisés porque não era da tribo certa. O escritor de Hebreus afirma que Jesus era sumo sacerdote segundo uma ordem diferente, não segundo a ordem de Arão (ou da tribo de Levi), mas segundo a ordem de Melquisedeque (5:6,10; 6:20). Ele explica:

"Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o sacerdócio levítico (pois nele baseado o povo recebeu a lei), que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão? ...Porque aquele de quem são ditas estas coisas pertence a outra tribo, da qual ninguém prestou serviço ao altar; pois é evidente que nosso Senhor procedeu de Judá, tribo à qual Moisés nunca atribuiu sacerdotes" (Hebreus 7:11,13-14).

Mas porque Melquisedeque? Quem foi Melquisedeque? O escritor de Hebreus nota que ele foi tanto sacerdote como rei de Salém (outro nome de Jerusalém - Gênesis 14:18-20; Hebreus 7:1). Ele também observa que as escrituras do Velho Testamento dão a Melquisedeque a aparência de ser eterno. Assim, existem algumas semelhanças entre Melquisedeque e Jesus. Melquisedeque parece continuar para sempre como sacerdote, porque as Escrituras nunca registram sua morte. Jesus, sendo divino, vive e serve para sempre como Sacerdote (Hebreus 7:23-25). Melquisedeque era tanto rei quanto sacerdote ao mesmo tempo (o que seria impossível sob a Lei de Moisés). Jesus é tanto rei como sacerdote ao mesmo tempo, em cumprimento à profecia de Zacarias.

Historicamente, o que se sabe é que Melquisedeque foi rei de Salem antigo - nome dado à cidade de Jerusalém ou região onde os descendentes de Sem (um dos filhos de Noé) habitavam logo depois do dilúvio. O fato de nas Escrituras Melquesedeque aparecer abençoando Abraão demonstra que na época era ele o principal representante de Deus na Terra, o portador da devida autoridade para abençoar, inclusive a um grande líder como Abraão ... Como um dos nomes dado ao povo de Israel era "semitas", é provavel que este Melquisedeque fosse o próprio Sem ...

A importância da figura de Melquisedeque ainda é tão grande, que no dia da ordenação dos padres católicos, no ritual sacerdotal consta uma parte na qual o bispo ordenante diz: "Tu és 'Sacerdoce in Aeternum Secundum Ordinem Melchisedec.'” - “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”.

Convém lembrar também que Melquisedeque, sendo rei e sacerdote, reúne em si mesmo as duas formas do poder: o temporal e o espiritual. Segundo o esoterista René Guénon e sua escola, Melquisedeque representaria a Tradição Primordial da qual derivam todas as tradições espirituais manifestadas na História, e apresenta algumas formas equivalentes em diferentes tradições. Segundo essa linha de raciocínio, Melquisedeque, na Índia, corresponderia ao "Chakravartin" (Rei Universal) das tradições indiana e budista; seria também o soberano do reino oculto de "Shamballah" ou Agartha. Na tradição budista Terra Pura, a mais mística, ele corresponderia ao Buda Lokesvara-Raja (Senhor Rei Universal), Mestre Iluminado do Buda Amitabha ou Amida. - O culto à Lokesvara existiu entre os Khmers do Camboja, que construiram gigantescas estátuas de pedra em sua honra na sua antiga capital Angkor. Outra figura relacionada com Melquisedeque é o "Prestes John" das lendas medievais, um misterioso rei-sacerdote cristão que reinaria no Oriente, geralmente identificado com o Imperador da Abissínia ou Etiópia... Melquisedeque é um ser ainda mais enigmático que Apolônio de Tiana (filósofo grego neo-pitagórico sobre quem pretendo falar em momento oportuno).

Na obra gnóstica alexandrina “Pistis Sophia” (tema de uma próxima postagem neste blog), Melquisedeque é citado como “Grande Recebedor da Luz Eterna”. Ele recebe a Luz inteligível, por um Raio emanado diretamente do Princípio para refletir no mundo, seu domínio. Por isso também é chamado "Filho do Sol".

A Ordem de Melquisedeque é também conhecida pelo nome de "Ordem do Sacerdócio Real", ou "Ordem da Justiça Divina", pois Melquisedeque representa a Superior Justiça Divina na Terra, o Reino da Eterna Paz. Ordens esotéricas vêem em Melquisedeque um Ser que sempre esteve presente neste planeta em todos os ciclos de civilização, sendo, portanto a manifestação perene do próprio Poder Superior na Terra.

Alguns místicos orientais, ainda, afirmam que Melquisedeque é quem exerce a função de "Governo Oculto" da Terra no “Santo Shambhala”. Como afirma Michel Coquet:

“Melquisedeque é Sanat-Kumara – o que ocupa o mais elevado lugar sagrado de nosso planeta, onde se encontra a Tradição Primordial, o lugar onde o desígnio de Deus é conhecido...”

Diz René Guénon, baseado em suas pesquisas e no que disse Saint Yves d'Alveydre num livro intitulado "Missão da Índia", publicado pela primeira vez em 1910 na França:

“O nome Melquisedeque, ou mais exatamente ‘Melki-Tsedeq’, não é outra coisa que não o nome sob o qual a própria função de ‘Rei’ se encontra expressamente designada na tradição Judaico Cristã.”

A tradição indiana, citada por René Guénon, em sua obra "O Rei do Mundo", diz:

“Ele é Manu - esse homem vivo, Melki-Tsedeq, é Manu; que continua, com efeito, perpetuamente, isto é, por toda a duração do seu ciclo (Manvantara), ou do mundo que ele rege especialmente. É por isso que ele não tem genealogia, porque a sua origem é não humana, visto que ele próprio é o protótipo do homem. E realmente ele foi feito à semelhança do Filho de Deus, visto que, pela Lei que formula, é para esse mundo a expressão e a própria imagem do Verbo Divino”.

Ainda segundo as tradições da Mongólia, da Índia, do Tibet e de outros povos orientais, Melquisedeque ou Melk-Tjedec (Dharma-Râja) vive em uma cidade conhecida como "Agartha", segundo muitos situada no Himalaia. O reino sagrado de Agartha seria dirigido por Melquisedeque, mas há fontes que o colocam num nível ainda mais elevado. - Assim, uma pessoa só poderia chegar até onde reina Melquisedeque sendo conduzida, já que é impossível ao homem encontrar por si mesmo o seu acesso; não se trataria de um local físico na Terra e sim um plano sutil no nível terrestre.

Em muitas ocasiões o nome de Melquisedeque esteve ligado a um outro grande enigma, o do também legendário "Prestes John" ou "Prestes João", tido como "dirigente da humanidade" (outro tema para um planejado próximo post). Durante a Idade Média muito se falava de um grande reino dirigido por um ser de grande sabedoria chamado Prestes John. O período em que mais se falou desse reino foi à época de São Luís, nas viagens de Carpin e de Rubruquis. Segundo contam inúmeras histórias, teriam havido quatro personagens que usaram esse título: no Tibet, na Mongólia, na Índia e na Etiópia; que seriam quatro representações de um mesmo poder. Diz um mito que, quando de suas conquistas territoriais, Gengis-Khan tentou atacar o Reino de Prestes John, ele foi repelido por um raio que quase aniquilou por completo seu exército.


A visão judaica - por Chai Mendel - judeu praticante e estudioso da Torá

"Melquisedeque" é a tradução aportuguesada de "Malki Tsedek", que significa "Rei Justo". Esse titulo nosso personagem tinha por causa da sua sabedoria que era grande, ao mesmo tempo esse personagem é tratado como se fosse um sacerdote!

Até o dia que o patriarca Avraham (Abraão) foi visitar esse homem e conhecer sua sabedoria, mas por quê? Porque Avraham ouviu dizer que nosso personagem Rei Justo tinha conhecimento de uma tradição que falava de um único D-us. E Avraham queria saber se a Força (EL) que manifestou-se a ele era o mesmo que Malki Tsedek acreditava.

Foi Malki Tsedek quem falou do Mabul (Dilúvio), falou de um homem chamado Noah (Noé) e de toda a tradição que esse homem sabia. E Malki Tsedek falava de um rapaz cujo pai chamava de Shem (na Torá isso significa Boa Reputação). O Personagem de Boa Reputação ficou famoso depois que teve filhos e netos e bisnetos... Mas as soas foram esquecendo da a mensagem do pai de Shem (Noah), e o mundo voltou àidolatria. Então Shem decidiu montar uma escola para preservar todo aquele conhecimento. Essa escola se tornou um pequeno reino de justiça num mundo repleto de violência. Seu lider era chamado de Rei pois quando ele dava sua palavra ele não voltava atrás.... E o monte onde ficava a escola de Shem se chamava Montanha da Paz (Har Shalem) inicialmente. O Nome Shem foi esquecido e o apelido Rei Justo ficou.....

E ai você tem a verdade, Malki Tsedek era Shem, filho de Noah. Por isso Abraham passou a morar perto dele, por isso Isaque vez o mesmo com sua esposa e filhos e por isso Jacó estudou com ele... E por isso todos os descendentes de Jacó, mesmo na escravidão no Egito, mantiveram o conhecimento de Shem. Pois no passado Noah foi relapso em mostrar para a humanidade os erros que levaram ao Mabul, e Shem estava decidido a não cometer mais o mesmo erro. Ele finalmente encontrou pessoas que queriam saber da sua mensagem e preservá-la, por isso ele não iria abrir mão de ensinar aquela gente que descendia de um antigo amigo dele chamado Avraham, e que teve uma experiencia com as Forças que se manifestaram ao seu pai no passado.

Muitas passagens das Escrituras Hebraicas indicam que Shem era Malki Tsedek. Mas seria necessário vc conhecer o mínimo de hebraico para percebê-las; e antes disso seria interessante você conhecer a real mensagem das escrituras hebraicas para não criar dúvidas.

***

A título de curiosidade, procurei expor, nessa postagem, as principais, dentre as mais diversas teorias a respeito da dificílima figura de Melquisedeque. É importante compreender que, apesar e além de todas as teorias e especulações mirabolantes, tudo que temos de concreto a respeito do misterioso personagem são as esparsas e curtas menções bíblicas sobre ele. - Escritos feitos, portanto, há no mínimo 4.000 anos. - Obviamente, qualquer tentativa de estabelecer significações exatas ao seu respeito seriam, no mínimo, muito difíceis e arriscadas. O que estimula ainda mais a imaginação e a curiosidade dos pesquisadores (e 'aventureiros' de plantão) é justamente o fato de o texto bíblico não especificar praticamente nada, não trazer nenhum detalhe da vida e da obra de um personagem assim tão poderoso e importante, a ponto de ser dito que sua vida não teve nem começo e nem teria fim e que seria semelhante ao Filho de Deus. Um Ser tão importante que o próprio Jesus Cristo, Filho do Altíssimo e figura central dos Evangelhos e em todo o contexto bíblico, seria chamado Sumo Sacerdote da sua Ordem...


> Dedicado, com carinho, ao meu amigo "Gugu".


Fontes e bibliografia:
Profº Allen Dvorak
EstudosdaBíblia.Net
Profº José Laércio do Egito;
Profº João Paulo Nunes do Egito;
“Luzes da Grande Fraternidade Branca” Michel Coquet (Madras).


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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Os Profetas - conclusão

Da semente esmagada brota a nova Vida


Como estavam junto aos rios da Babilônia, alguns dos exilados inevitavelmente achavam que não podiam praticar sua religião fora da Terra Prometida. Os deuses pagãos sempre tinham sido territoriais, e para alguns parecia impossível entoar cânticos a Javé num país estrangeiro. Um novo profeta, porém, pregava a calma. Nada sabemos dele, e isso pode ser significativo, porque seus oráculos e salmos não dão sinal de uma luta pessoal, como as travadas pelos sus antecessores. Como suas obras foram depois acrescentadas aos oráculos de Isaías, ele é em geral chamado de o “Segundo Isaías”. No exílio, alguns dos judeus teriam se passado para a adoração dos antigos deuses da Babilônia, mas outros foram levados a uma nova consciência religiosa.

O Templo de Javé estava em ruínas; haviam sido destruídos os velhos santuários em Beth-El e Hebron. Na Babilônia, os judeus não podiam tomar parte em liturgias que haviam sido fudamentais para sua vida religiosa na pátria-mãe. Agora só tinham Javé. O Segundo Isaías deu mais esse passo e declarou que Javé não era só o maior dos deuses. Ele era o Único Deus.

O Primeiro Isaías fizera da História um aviso divino; após a catástrofe, em seu Livro de Consolação, o Segundo Isaías traz nova esperança para o futuro. Se Javé já resgatara Israel uma vez, então podia fazê-lo de novo. Ele planejava as questões da História; a seus olhos, todos os gentios (estrangeiros) não passavam de uma gota d’água num balde. O segundo Isaías imaginava as velhas divindades da Babilônia sendo amontoadas numa carroça e afastando-se aos trancos na direção do poente. Acabara o tempo deles: “Porventura não sou eu Javé?” perguntam repetidas vezes seus escritos, “e não há outro Deus senão eu”.

“E que antes de mim nenhum deus se formou,
e depois de mim nenhum haverá.
Eu, eu sou Javé,
e fora de mim não há Salvador.”
- Isaías, 43:10-12

Este Segundo Isaías não perdeu tempo denuciando os deuses dos goym, que, desde a catástrofe, podiam estar sendo vistos como vitoriosos. Calmamente assumiu que Javé – não Marduk nem Baal – realizara os grandes feitos míticos que haviam criado o mundo. Pela primeira vez, os israelitas interessavam-se a sério pelo papel de Javé na criação, talvez por causa do renovado contato com os mitos cosmológicos da Babilônia. Não tentavam, por certo, uma versão científica das origens físicas do Universo, mas buscavam encontrar conforto no duro mundo do presente. Se o seu Deus derrotara os monstros do caos nos tempos primordiais, seria simples redimir os israelitas exilados. Vendo a semelhança entre o mito do Êxodo e as narrativas pagãs da vitória sobre o caos aquático no começo dos tempos, o Segundo Isaías exortou seu povo a esperar com confiança uma nova demonstração da força divina. Aqui, por exemplo, ele se refere à vitória de Baal sobre Lotan, o monstro marinho da mitologia da criação cananéia, que também se chamava Rahab, o Crocodilo (tannïn) e o Abismo (tehõn):

"Despertai, despertai! Vesti-vos de força.
Braço de Javé,
despertai, como antes,
em tempos de gerações há muito passadas.
Não dividistes Rahab em dois,
e varaste o Dragão (tannïn)?
Não secaste o mar,
as águas do grande Abismo (tehõn)
para fazer do leito do mar uma estrada
por onde os redimidos passassem?”
- Isaías, 51:9-10

Javé absorvera afinal seus “rivais” na imaginação religiosa de Israel. No exílio, a atração do paganismo finalmente perdera sua força, e nascera a religião do judaísmo. Numa época em que se poderia, razoavelmente, esperar que o culto de Javé perecesse, ele se tornou o meio que possibilitava às pessoas encontrar esperança em circunstâncias impossíveis. Javé, portanto, tornara-se o Único Deus.

Não houve tentativa de justificar filosoficamente essas mudanças. Como sempre, a nova teologia vencera não porque pudesse ser racionalmente demonstrada, mas porque era eficaz na prevenção ao desespero e inspirava esperança. Deslocados e afastados como estavam, os judeus não mais achavam estranha e perturbadora a descontinuidade do culto de Javé. Esta, na realidade, devia falar profundamente à condição deles. Contudo, o que permanece intrigante é que continuva não havendo nada de "aconchegante" na imagem de Deus do Segundo Isaías. Ela continuava, como sempre esteve, fora do alcance da mente humana:

"Porque Meus Pensamentos não são os vossos pensamentos,
mem os vossos caminhos são os Meus Caminhos.
Porque, assim como os Céus são mais altos que a Terra,
assim os Meus Caminhos mais altos que os vossos caminhos,
e os Meus Pensamentos mais altos que os Vossos Pensamentos."
- Isaías, 55:8-9

A realidade de Deus está além do alcance das palavras e conceitos. Tampouco iria Javé fazer sempre o que seu povo esperava. Num trecho inexplicável, de particular pungência hoje, o profeta aspira por um tempo em que Egito e Assíria também se tornassem o povo de Javé, juntamente com Israel. Javé diria:

“Bendito seja o povo do Egito e Assíria, a obra das Minhas Mãos, e Israel a Minha herança.” - Isaías, 19:24,25

A idéia de "O Senhor dos Exércitos" de Israel tornara-se o Símbolo de uma Realidade Transcendente que fazia as tacanhas interpretações da eleição do Israel como único povo de Deus parecerem mesquinhas e inadequadas. Mas as concepções de Deus do povo judeu permaneceram, como sempre foram, interpretações fiéis do que eles compreendiam da Verdade última, independentes do que gostariam de acreditar. Por mais que aquilo que entendessem da Vontade de Deus contrariasse suas expectativas e anseios (Jonas chegou a tentar fugir, literalmente), os profetas judaicos nunca renegaram a sua missão. De todas as religiões da antiguidade, a doutrina de Israel era a única que não aludia a algum "deus-joguete" em mãos humanas, passível de ser manipulado mediante sacrifícios e rituais. Este Deus não era moldável, mas moldava seus devotos: exigia justiça, serviço em prol dos sofredores e Amor incondicional. Se hoje esses princípios nos parecem comuns, é porque geralmente não conhecemos e tendemos a não levar em consideração o contexto histórico em que surgiram: uma Era de dureza e crueldade absolutas, em que apenas a força garantia conquistas, e as relações humanas eram puramente interesseiras. Os elevados ideais trazidos pelos profetas (os mesmos ideais que as sociedades modernas perseguem até hoje), surgiram na infância da humanidade, quando "religião" era sinônimo de sangue derramado, orgias sexuais e a adoração dos animais e dos elementos.

Os demais povos da região do "Centro da Terra" da Antiguidade nunca deixaram de se impressionar com as gritantes diferenças entre as concepções religiosas dos israelitas e as suas próprias. Quanto a nós, provavelmente nunca entenderemos a origem dos ideais que levaram os descendentes de Abraão a mudar, para sempre, o "Espírito da Terra".


Fontes e bibliografia:
Profº Shigeyuki Nakanose;
Profª Enilda de Paula Pedro;
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.



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Os Profetas #5

Visões - possíveis significações e mistérios

Ainda não havia nada muito parecido com o que os hindus chamavam de "Atman" (do sânscrito 'sopro de vida', o princípio divino imediato) no culto de Javé. Deus era vivenciado como uma Realidade externa, que transcendia completamente a matéria. Mas era preciso que essa idéia de Deus fosse humanizada de algum modo, para que parecesse menos distante. A situação política deteriorava-se: os babilônios invadiram Judá e levaram o rei e a primeira leva de israelitas para o exílio; por fim, a própria Jerusalém foi sitiada. À medida em que pioravam as condições, Jeremias continuava a tradição de atribuir emoções humanas a Javé; ele descreve Deus a “lamentar” seu próprio desabrigo, aflição e desolação; descreve Javé sentindo-se tão desorientado, ofendido e abandonado quanto seu povo. Em seus escritos, Deus estava tão paralisado quanto o próprio Jeremias.

A raiva que Jeremias sentia tomar conta de seu coração, ele atribui a Javé. Quando os profetas pensavam no homem, logo pensavam também em Deus, cuja presença, acreditavam, dependia de certa forma do homem para se manifestar no mundo.

Enquanto o inimigo estava às portas, Jeremias esbravejou com seu povo em nome de Deus, embora, diante de Deus, implorasse por eles. Assim que Jerusalém foi conquistada pelos babilônios em 587 aC, os oráculos de Javé se tornaram mais consoladores: prometia salvar seu povo, agora que tinham aprendido a lição, e trazê-lo de volta pra casa. As autoridades babilônias permitiam a Jeremias ficar em Judá, e para manifestar sua confiança no futuro ele comprou algumas propriedades: “Porque assim diz Javé Sabaoth (o ‘Senhor dos Exércitos’): ‘Ainda se comprarão casas, e campos, e vinhas nesta terra’” (Jeremias, 32:15).

Mas algumas pessoas em Israel culpavam Deus pela catástrofe. Durante uma visita ao Egito, Jeremias encontrou um grupo de judeus que fugira para a área do Delta e não queria saber de Javé. As mulheres deles alegavam que tudo estava ótimo enquanto haviam realizado os ritos tradicionais em honra de Ishtar, Rainha do Céu, mas assim que os tinham interrompido, estimulados por tipos como Jeremias, vieram a tragédia, a derrota e a miséria. Mas essa situação pareceu aprofundar a intuição de Jeremias. Após a queda de Jerusalém e a destruição do Templo, ele passou a compreender que tais aspectos externos da religião não passavam de símbolos de um estado interno, subjetivo. No futuro, a Aliança com Israel seria bastante diferente:

“Porei a minha Lei no seu interior, e a escreverei em seu coração” (Jeremias, 31:33).

Curioso perceber que essa divisão entre duas linhas distintas do pensamento religioso permanece até os nossos dias: entre cristãos, persistem as disputas entre um grupo crescente que acredita que se aproximar de Deus só vale a pena se Ele os abençoar com todas as graças e bênçãos materiais possíveis (ontem era a colheita e a saúde dos rebanhos – hoje é uma promoção no emprego ou o sucesso nos negócios) e um outro grande grupo que entende essa Busca mais como entrega espiritual e aprendizado do que uma procura por um retorno material imediato. A meu ver, o que mais faltou até hoje na história do cristianismo, foi a noção do "Caminho do Meio" dos orientais. - Enquanto praticamente todos os maiores santos católicos escolheram uma vida de puro sofrimento em prol dos pobres e desfavorecidos, optando por um Caminho da Cruz estreitíssimo que só seria possível de ser seguido por poucos, a maioria dos "novos cristãos" (pentecostais e neo-pentecostais) persegue bençãos materiais abundantes e sucesso profissional, numa espécie de “barganha com Deus”, deixando de lado o sentido profundo e sublime da religião: o Amor ao próximo. A importância do Caminho do Meio continua distante e incompreendida, embora já tivesse sido vislumbrada há séculos por um dos maiores santos e pensadores cristãos da História, Agostinho de Hipona, que compreendeu que a melhor regra de disciplina é conservar a justa medida, longe dos extremos.


Tentativas de ilustrar as visões de Ezequiel - Rodas e criaturas híbridas

Os judeus que foram para o exílio não tiveram de assimilar-se, como ocorrera com as dez tribos setentrionais em 722 aC. Viviam em duas comunidades: uma na própria Babilônia e a outra nas margens de um canal que partia do Eufrates chamado Chebar, numa área que chamaram de “Tel Aviv” (‘Monte da Primavera’). Entre a primeira leva de exilados deportados em 597 aC havia um sacerdote chamado Ezequiel. Durante cerca de cinco anos ele permaneceu sozinho em casa sem falar com ninguém. Depois teve uma dilacerante visão do Divino, que literalmente o derrubou. É importante descrever sua primeira visão com um mínimo de detalhes, porque – séculos depois – se tornaria muito importante para os misticismo universal:

Ezequiel viu uma nuvem de fogo, cruzada por raios. Um vento forte soprava do norte. No meio dessa tempestuosa escuridão, ele pareceu ver – ele tem o cuidado de enfatizar a natureza provisória das imagens – uma grande Carruagem puxada por quatro fortes bestas. Pareciam os karibu (seres híbridos meio fera meio homem) esculpidos nos portões do palácio em Babilônia, mas Ezequiel torna quase impossível visualizá-las: cada uma tinha quatro cabeças – com o rosto de um homem, um leão, um touro e uma águia. Cada uma das rodas rolava numa direção diferente das outras. A imagística parece simplesmente servir para enfatizar o estranho impacto das visões que ele tentava articular. O bater das asas das criaturas era ensurdecedor, “soava como água correndo, como a voz de Shaddai, uma voz como uma tempestade, como o barulho de um acampamento”. Na Carruagem havia algo que “parecia ser um trono”, e sentado com grande pompa viu um ”ser que parecia um homem”: brilhava como bronze, e de seus membros se irradiavam raios. Era também “algo que parecia a ‘Glória’ (‘Kavod’) de Javé”. Ezequiel prostrou-se imediatamente no chão e ouviu uma voz que lhe falava...

A voz chamou-o de “filho do homem”, como que para acentuar a distância que naquele momento havia entre a humanidade e o Reino Divino. Também aqui a visão de Javé seria seguida por um plano prático de ação, Ezequiel devia disseminar a Palavra de Deus entre os filhos rebeldes de Israel. O tom não humano da Mensagem Divina era transmitido por uma imagem fortíssima: uma mão estendida para o profeta, agarrando um rolo, coberto de lamentos e gemidos. Ezequiel recebeu a ordem de comer o rolo, para ingerir a Palavra e fazê-la parte de si. Como de hábito, o Misterium era Fascinans, além de Terrible: o rolo revelou ser doce como mel. Por fim, disse Ezequiel: “O Espírito me levantou, e me levou; e eu me fui mui triste, pelo ardor do meu espírito. Porém, a Mão de Javé era forte sobre mim” (Ezequiel, 3:14-15). Chegou a Tel Aviv e ali quedou-se ”como estonteado” por toda uma semana.


Nos tempos modernos não faltaram interpretações ufológicas para as visões de Ezequiel

A estranha carreira de Ezequiel acentua como o Mundo Divino se tornara alheio e estranho para a humanidade. Ele próprio foi obrigado a tornar-se um sinal dessa estranheza. Com freqüência, lhe era ordenado que praticasse "mímicas" estranhas, que o separavam dos seres humanos normais. Essas mímicas ou interpretações parecem também se destinar a demonstrar os apuros de Israel durante essa crise, e, num nível mais profundo, mostravam que o próprio Israel estava se tornando um estranho num mundo pagão.

A visão pagã, por outro lado, celebrava a continuidade que se acreditavam existir entre os deuses e o mundo físico. Ezequiel não encontrou nada de consolador nessas velhas religiões, que ele chamava de impuras. Numa de suas visões, foi levado a uma torre dourada do Templo de Jerusalém. Para seu horror, viu que, mesmo encontrando-se à beira da destruição, o povo de Judá ainda adorava deuses pagãos no Templo de Javé. O próprio Templo se tornara um lugar como que de pesadelo: as palavras nas suas salas estavam pintadas com serpentes enroscadas e animais repulsivos; os sacerdotes realizavam ritos ”imundos” sob uma luz sórdida, como se dedicados ao sexo escuso. Em outra câmara, mulheres choravam pelo ‘deus sofredor’ Tammuz. Outros adoravam o sol, de costas para o santuário. “Viste, porventura, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um em sua câmara pintada?” (Ezequiel, 8:12). Por fim, o profeta viu a estranha Carruagem que lhe surgira na primeira visão voar para longe, levando consigo a Glória de Javé.

Contudo, Javé não era uma divindade totalmente distante. Nos derradeiros dias antes da destruição de Jerusalém, Ezequiel descreve-o fulminando o povo de Israel, numa tentativa de chamar sua atenção a reconhecê-lo. Israel só podia culpar-se a si mesmo pela catástrofe iminente. Javé encorajava israelitas como Ezequiel a ver que os golpes da História não eram aleatórios nem arbitrários, mas tinham lógica e justiça mais profundas, que os homens não podiam compreender.


Fontes e bibliografia:
Profº Dirceu Fernando Belotto;
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.



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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Os Profetas #4

Abaixo a idolatria!

O o maior problema da idolatria obviamente está no fato de as pessoas confundirem uma imagem, seja pintura ou escultura, construída com amoroso cuidado, com a Realidade inefável a que ela se refere. Mais tarde, na história da idéia de Deus, cristãos e muçulmanos trabalharam essa noção primitiva da Realidade Absoluta e chegaram a uma concepção mais próxima das visões hindu e budista. Alguns, porém, nunca conseguiram dar esse passo completamente, achando que sua concepção de Deus seria idêntica ao Mistério Último.

Os perigos de uma religiosidade idólatra tornaram-se claros por volta de 622 aC, no reinado do rei Josias de Judá. Ele estava ansioso para reverter as políticas sincretistas dos seus antecessores, os reis Manassés (687-42 aC) e Amon (642-40 aC), que haviam estimulado o povo a adorar os deuses de Canaã juntamente com Javé. Na verdade, Manassés pôs uma estátua de Asherah no Templo, onde havia um florescente culto da fertilidade. Muitos israelitas eram devotos de Asherah, e alguns achavam que ela era “esposa” de Javé. Mas Josias estava determinado a promover o culto puro a Javé, e assim decidiu fazer extensos reparos no Templo.

Nessa mesma época, o sumo-sacerdote Ilquias descobriu um antigo manuscrito: uma versão do último sermão de Moisés aos filhos de Israel. Ele o deu ao secretário de Josias, Shapan, que o leu em voz alta na presença do rei. Ao ouvi-lo, o velho rei rasgou as vestes, horrorizado: não admirava que Javé estivesse tão furioso com seus ancestrais! Eles haviam deixado de obedecer, completamente, às instruções dadas a Moisés:

Em seu último sermão, Moisés é ordenado a dar uma nova centralidade à Aliança. Javé marcara seu povo, distinguindo-o de todas as outras nações, não devido a algum mérito, mas por seu grande Amor. Em troca, exigia completa lealdade e uma feroz rejeição a todos os outros deuses. É quase certo que o “Livro da Lei” descoberto por Ilquias era o núcleo do texto que hoje conhecemos como Deuteronômio. O núcleo do Deuteronômio inclui a declaração que mais tarde se tornaria a profissão de fé judaica:

“Ouve (shemá) Israel! Javé nosso Elohim é o único (ehad) Elohim! Amarás pois Javé com todo teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu poder. E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração.” - Deuteronômio, 6:4-6

Quando recitam hoje o “Shemá”, os judeus dão-lhe uma interpretação monoteísta: nosso D'us é único. Mas o deuteronomista não atingira ainda essa perspectiva. “Javé ehad” não queria dizer, necessariamente, que só havia um Deus, mas que a um só era permitido adorar. Os outros deuses continuavam sendo um ameaça: seus cultos eram sedutores e podiam afastar de Javé os israelitas, que era um Deus “ciumento”. Se obedecessem as Leis de Javé, ele os abençoaria e lhes traria prosperidade, mas se o desertassem, as conseqüências seriam devastadoras.

“E desarraigados sereis da terra à qual tu passas a possuir. E Javé vos espalhará entre todos os povos, desde uma extremidade da Terra até a outra extremidade(...) E tua vida estará como em suspenso diante de ti (...) Pela manhã dirás: Ah, quem me dera ver a noite! E à tarde dirás: Ah, quem me dera ver a manhã! Pelo pasmo de teu coração e pelo que verás com os teus olhos.” - Deuteronômio, 28:64-68

Quando ouviram essas palavras no fim do século VII aC, o rei Josias e seus últimos súditos estavam para enfrentar uma nova ameaça política. Tinham conseguido manter os assírios a distância e assim evitar o destino das dez tribos do Norte, que haviam sofrido os castigos descritos por Moisés. Mas, em 600 aC, o rei Nabucodonosor, da Babilônia, esmagaria os assírios e começaria a erguer seu próprio império.

Nessa atmosfera de extrema insegurança. As políticas do deuteronomista parecem ter causado grande impacto. Longe de obedecer às ordens divinas, os dois últimos reis de Israel haviam deliberadamente cortejado a tragédia. Josias iniciou de imediato uma reforma, agindo com zelo exemplar. Todas as imagens, ídolos e símbolos de fertilidade foram retirados do Templo e queimados. Josias também derrubou a grande efígie de Asherah e destruiu os aposentos de prostitutas sagradas do Templo, que ali teciam suas vestes para ela. Todos os antigos santuários no país, que haviam sido enclaves do paganismo, foram destruídos. Daí em diante, os sacerdotes só tinham permissão de fazer sacrifícios a Javé no purificado Templo de Jerusalém. O cronista, que registrou as reformas de Josias quase trezentos anos depois, dá uma eloqüente descrição desse zelo:

“E derrubaram perante ele (Josias) os altares de Baalim; e cortou as imagens do Sol, que estavam acima deles; e os bosques e as imagens de escultura e de fundição quebrou e reduziu a pó, e os espargiu sobre as sepulturas dos que lhes tinham sido sacrificados. E os ossos dos sacerdotes queimou sobre seus altares; e purificou a Judá e a Jerusalém. O mesmo fez nas cidades de Manassés e de Efraim e de Simeão, e ainda até Naftali; em seus altares ao redor, assolados. E tendo derrubado os altares e os bosques e as imagens de escultura, até reduzi-los a pó, e tendo cortado todas as imagens do sol em toda a terra de Israel, então voltou para Jerusalém.” - II Crônicas, 34:5-7

Jeremias lamentando a destruição de Jerusalém

Os reformadores reescreveram a história de Israel. Os livros históricos de Josias, Samuel e Reis foram revisados segundo a nova ideologia, e depois os editores do Pentateuco acrescentaram trechos que davam uma interpretação deuteronomista do mito do Êxodo às demais narrativas, mais antigas.

Devemos observar que nem todos os israelitas endossavam o deuteronomismo nos anos que levaram à destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, em 587 aC, e à deportação dos judeus para a Babilônia. Em 604 aC, ano da ascensão de Nabucodonosor, o profeta Jeremias reviveu a perspectiva iconoclasta de Isaías, que virou a doutrina triunfalista e a crença de que os judeus eram o "povo eleito" de cabeça pra baixo: segundo ele, Deus usava a Babilônia como seu instrumento para punir Israel, e agora era a vez de Israel ser “posto em espanto”. Iriam para o exílio por setenta anos. Quando o rei Joaquim ouviu esse oráculo, arrancou o rolo da mão do escriba, rasgou-o em pedaços e o jogou no fogo. Temendo por sua vida, Jeremias foi obrigado a esconder-se.

A carreira de Jeremias mostra os imensos sofrimentos e esforço, implicados nessa concepção mais desafiadora de Deus. Ele detesta ser profeta, e estava profundamente angustiado por ter de condenar o povo que amava. Não era um agitador por natureza, mas um homem de coração manso. Quando lhe veio o Chamado, clamou em protesto: “Ah, Senhor, vede: eu não sei falar; sou uma criança!”. E o Senhor “estendeu a mão” e tocou os lábios dele, colocando-lhe na boca Suas Palavras. A mensagem que ele tinha de articular era ambígua e contraditória: Para arrancares, e para derrubares, e para destruíres, e para arruinares. E também para edificares e para plantares” (Jeremias, 1:6-10). Estes extremos, inconciliáveis entre si, provocavam agonia e tensão em Jeremias. Ele sentia Deus como uma dor que lhe convulsionava os membros, partia o coração e o fazia cambalear como um bêbado. A experiência profética do mysterium terrible et fascinans (‘Mistério Terrível e Fascinante’) era ao mesmo tempo violência e sedução:

“Seduziste-me, oh Senhor, e seduzido fiquei;
mais forte foste que eu, e prevaleceste (...)
Então disse eu: Não me lembrarei dele,
E não falarei mais no seu Nome;
Mas foi no meu coração como fogo ardente,
Encerrado nos meus ossos;
E fiquei fatigado de sofrer,
E não pude”
- Jeremias, 20:7-9

Jeremias sentia-se puxado por Deus para duas direções diferentes, ao mesmo tempo: por um lado, ele sentia uma profunda atração para Javé, o que tinha toda a doce entrega de uma sedução, mas em outros momentos sentia-se devastado por uma força que o carregava contra a sua vontade.

Desde Amós, o profeta era um homem entregue a si mesmo. Ao contrário de outras áreas do mundo civilizado na época, o Oriente Médio não adotou uma ideologia religiosa de ampla união. O Deus dos profetas obrigava os israelitas a desligar-se da consciência repleta de mitos do Oriente Médio e seguir numa direção bastante diferente da tendência geral. Na agonia de Jeremias, podemos ver que imensa sensação de deslocamento estava envolvida nisso.

Até o deuteronomista, cuja imagem de Deus era menos ameaçadora, via um encontro com Javé como arrasador e abrasivo: na sua descrição, Moisés explica aos israelitas, apavorados pela perspectiva de contato direto com Javé, que Deus lhes enviará um profeta em cada geração, para suportar a força do impacto divino.


Fontes e bibliografia:
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.


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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os profetas #2

O sentido da Religião

Enquanto a idéia de Deus de Moisés era triunfal, a de Isaías estava repleta de mágoa. A profecia, como chegou até nós, começa com um lamento ofensivo ao povo da Aliança: "O boi e o asno conhecem seus donos, mas Israel não conhece nada...”. Javé se mostrava absolutamente revoltado com os sacrifícios de animais no Templo, enojado pela gordura dos bezerros, sangue dos touros e cabras e a fumaça que subia dos holocaustos. Não suportava as cerimônias de ano novo e as peregrinações deles. Isso teria chocado a platéia de Isaías: no Oriente Médio, essas celebrações cultuais faziam parte da essência da religião. Os deuses pagãos dependiam das cerimônias para renovar suas energias; o prestígio deles dependia em parte da magnificência de seus templos. Mas agora, Javé assumia de uma vez a sua condição de Deus UNO, revelando que, na verdade, essas coisas eram absolutamente sem sentido. Como outros sábios e filósofos no mundo civilizado (o Oikumene), Isaías sentia que a observância exterior não bastava. Os israelitas deveriam descobrir o significado interior de sua religião. Javé queria mais compaixão do que sacrifício:

“Até quando multiplicais a oração
não ouço,

porque vossas mãos estão cheias de sangue.
Lavai-vos, purificai-vos,

tirai a maldade de vossos atos de diante dos Meus Olhos:
cessai de fazer o mal;

Aprendei a fazer o bem;
procurai a justiça,
ajudai o opresso,
fazei justiça ao órfão,
tratai da causa das viúvas.”


Os profetas haviam descoberto o predominante dever da compaixão, que se tornaria a marca distintiva de todas as grandes religiões formadas na Era Axial. Todas as novas ideologias que, nesse período, se desenvolviam no mundo civilizado insistiam em que o "teste de autenticidade" da religião era que a experiência religiosa se integrasse a vida diária. Não bastava mais limitar a observância do Templo ao mundo extratemporal do mito. Após a iluminação, o homem ou mulher deve voltar ao cotidiano e praticar a misericórdia para com todos os seres vivos.

O ideal social dos profetas estava implícito no culto de Javé desde o Sinai: a história do Êxodo acentuava que Deus estava do lado dos fracos e oprimidos. A diferença era que agora os próprios israelitas eram castigados como opressores. O que mais impressiona na história de Isaías, é que na época da sua visão profética, dois profetas já pregavam a mesma mensagem(!) no caótico Reino do Norte! Como explicar? Se você pretende estudar religião, desista da arte de "entender" e aplique-se um pouco mais a do "aceitar"...

A Mensagem renovadora de Deus se revelava a todos, a um só tempo: ricos e pobres, nobres e plebeus. O primeiro destes profetas, atuando no Reino do Norte, Amós, não era aristocrata como Isaías, mas um pastor que vivia originalmente em Tekoa, no Reino do Sul. Por volta de 752 aC, assim como Isaías, Amós também foi arrasado por um súbito Chamado que o levou ao Reino Setentrional de Israel. Ele irrompeu no antigo santuário de Beth-El e despedaçou o cerimonial ali com uma profecia de condenação. Amazias, então o sacerdote de Beth-El, tentou mandá-lo embora. Podemos ouvir a voz do sistema da época, em sua pomposa repulsa ao insólito pastor - naturalmente, ele imaginava que Amós pertencia a uma das corporações de adivinhos que vagavam em grupos e liam a sorte por dinheiro. “Vai embora, adivinho!”, disse com desdém. “Volta à terra de Judá; ganha lá o teu pão, faz lá as tuas profecias. Não queremos mais profecias em Beth-El. Este é o santuário real, o templo nacional.” Imperturbável, Amós ergueu-se em toda a sua altura e respondeu que não era nenhum pseudo-profeta errante, mas tinha um mandato direto de Javé: “Eu não era profeta, nem filho de profeta, mais boieiro, e colhia figos bravos. Porém Javé me tomou de detrás do gado, e me disse: ‘Vai-te, e profetiza ao meu povo Israel’. Portanto, não queria o povo de Beth-El ouvir a mensagem de Javé?

O profeta Amós - Gustave Doré

Fazia parte da essência da profecia o ser solitário. Uma figura como Amós era sozinha. Rompera com os hábitos e deveres do seu passado. Não era coisa que escolhera, mas que lhe acontecera. Parecia que fora arrancado dos padrões normais de consciência e que não podia mais operar os controles habituais. Amós não fora, como o Buda, absorvido na aniquilação de si mesmo do Nirvana; ao contrário, Javé tomara o lugar do seu ego e arrebatara-o para outro mundo.

Amós foi o primeiro dos profetas a enfatizar a importância da justiça social e da misericórdia. Como o Buda, tinha aguda consciência da agonia da humanidade sofredora. Na voz de Amós, Javé falava em favor dos oprimidos, dando voz ao sofrimento mudo e impotente dos pobres. Logo no primeiro verso da profecia que nos chegou, Javé, de seu Templo em Jerusalém, clama contra a miséria em todos os países do Oriente próximo, incluindo Judá e Israel. O povo de Israel era tão ruim quanto os “goyim” (‘gentios’): ignoravam a crueldade e a opressão para com os pobres, mas Javé não o faria. Ele observava cada caso de trapaça, exploração e espantosa falta de misericódia. “Jurou Javé pela glória de Jacó: Eu não me esquecerei de todas as suas obras, para sempre”.

Tinham eles de fato a temeridade de esperar o Dia do Senhor, quando Javé exaltaria Israel? Então teriam um choque: “Ai daqueles que esperam pelo ‘Dia do Senhor’! Para que, pois, vos será este Dia de Javé? Trevas será, e não de Luz”. Achavam que eram o Povo Eleito? Tinham entendido totalmente errado a natureza da Aliança, que significava responsabilidade e não privilégio: “Ouvi esta palavra que o Senhor fala contra vós, filhos de Israel” - exclamou Amós - “contra toda a geração que fez subir da terra do Egito, dizendo:

De todas as gerações da Terra vos conheci só;
portanto, todas as vossas iniqüidades visitarei sobre vós.”

A Aliança significava que todo o povo de Israel era eleito de Deus, e tinha portanto de ser tratado com decência. Deus não intervinha na História para glorificar Israel, mas para assegurar justiça social. Esse era o seu empenho na História e, se necessário fosse, usaria o exército assírio para impor a justiça em sua própria terra.

Fica mais fácil compreender porque a maioria dos israelitas tinha reusado o convite do profeta a entrar em diálogo com Javé. Preferiam uma religião de observância apenas cultual e menos exigente, no Templo de Jerusalém ou nos velhos cultos da fertilidade de Canaã. Infelizmente, não só entre israelitas, mas em todo o mundo religioso, continua sendo assim: a Religião da misericórdia é seguida apenas por uma minoria. A maioria contenta-se com uma decorosa e conveniente adoração na sinagoga, igreja, templo ou mesquita.


Fontes e bibliografia:
Profº Airton José da Silva;
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong.



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Os Profetas

Renascimento consciencial

Entre 800 e 200 aC, desde a Europa meridional até o Vale do Indo e à China, surgiram as maiores escolas filosófico-religiosas e os mais importantes textos sagrados do nosso mundo: os Upanishades, as Sutras budistas, as Tábuas da Lei e o Antigo Testamento, os Analectos de Confúcio, os textos de Dao De Jing e a obra de Platão. E também foi a era dos chamados Grandes Profetas, que trouxeram para o mundo antigo, e para a História como um todo, os fundamentos da idéia definitiva de Deus. Karl Jaspers, filósofo alemão, denominou esse momento de renascimento da humanidade como a "Era Axial", termo que foi amplamente aceito e adotado pelos eruditos.

Meditação de Isaías - Gustave Doré

Em 742 aC um membro da família real de Judá teve uma visão no Templo que Salomão construíra em Jerusalém. Era uma época de ansiedade para o povo de Israel. O rei Uzias de Judá morrera naquele ano, e fora sucedido por seu filho Acaz, que desejava estimular seu povo a adorar deuses pagãos juntamente com o Deus UNO, Javé. O reino de Israel, ao norte, achava-se em estado de quase anarquia; após a morte do rei Jeroboão II, cinco reis haviam-se sentado no trono entre 746 e 736 aC, enquanto o rei Tigleth Pilesar III, da Assíria, lançava olhares cobiçosos sobre as terras deles, ansioso por acrescentá-las ao seu território em expansão. Em 722, seu sucessor, o rei Sargão II, ia conquistar o reino do norte e deportar a população. As dez tribos setentrionais de Israel foram obrigadas a assimilar-se e desaparecer da História, enquanto o pequeno Reino de Judá receava pela própria sobrevivência.

Quando orava no Templo, pouco depois da morte de Uzias, Isaías provavelmente sentia muitas apreensões; ao mesmo tempo, talvez tivesse uma desconfortável consciência da impropriedade do pródigo cerimonial do Templo. Isaías pode ter sido um membro da classe governante, mas tinha opiniões democráticas, e era sensível à situação dos pobres, que vinham sendo, cada vez mais, marginalizados e oprimidos pelas classes mais abastadas da sua sociedade. As injustiças sociais imperavam no estado israelita, enquanto a riqueza se concentrava nas mãos de uma pequena elite e a maioria pobre sofria humilhações e privações de suas necessidades básicas. Com o incenso enchendo o santuário diante do Santo dos Santos (o aposento destinado a conter a Arca da Aliança com as Tábuas da Lei de Deus) e o lugar recendendo a sangue de animais sacrificados, ele talvez temesse que a religião de Israel houvesse perdido sua integridade e sentido interior.

Foi quando lhe pareceu ter visto o próprio Javé sentado em seu trono no Céu, acima do Templo, a réplica terrena da corte celestial. O séquito de Javé preencheu o santuário, e Ele era assistido por dois serafins, que cobriam seus rostos com as asas para não verem o dEle. Gritavam um para o outro, antífonamente: "Santo! Santo! Santo é Javé Sabaoth! Sua Glória inunda toda a Terra!". Ao som de suas vozes, todo o Templo estremecia nos alicerces e enchia-se de fumo, envolvendo Javé numa nuvem impenetrável, semelhante à nuvem e fumo que o haviam ocultado de Moisés no monte Sinai...

Quando usamos a palavra "santo", hoje, em geral nos referimos a um estado de excelência moral. O hebraico “kaddosh”, porém, nada tem a ver com moralidade enquanto tal, mas significa a condição de “outro”, separado do mundo das coisas ordinárias – uma separação total e absoluta. A aparição de Javé no monte Sinai enfatizava a imensa separação que existe entre o homem e o Mundo Divino. Agora os serafins gritavam: “Outro! Outro! Javé é outro!”. Isaías experimentou essa sensação do numinoso, que periodicamente baixava sobre homens e mulheres e os enchia de fascinação e terror. No clássico “A Idéia do Sagrado”, Rudolph Otto descreveu essa terrível experiência da realidade transcendente como o ”Mysterium terrible et fascinans” (‘Mistério terrível e fascinante’) - terrível porque se dá com um profundo choque que de repente nos isola da condição da normalidade em que vivemos e à qual que estamos acostumados, e fascinante porque, paradoxalmente, exerce uma atração irresistível. Nada, nada mesmo há de racional nessa experiência arrasadora, que Otto compara à da música: as emoções que engendra não podem ser adequadamente expressas em palavras ou conceitos.

Na verdade, não há como se “afirmar” que exista o senso do inteiramente Outro, porque não se dá em nosso quadro normal de realidade. A nova idéia de Deus da Era Axial era ainda a do “Senhor dos Exércitos” (sabaoth), mas não mais a do deus da guerra. Tampouco se parecia com uma divindade tribal, passionalmente em favor de um povo: sua Glória não mais se limitava à Terra Prometida, mas enchia toda a Terra. Isaías não era como Buda experimentando uma iluminação que trazia tranqüilidade e felicidade. Não se tornara o perfeito mestre de homens. Ao contrário, ele estava tomado de terror, gritando alto:

"Ai de mim! Estou morrendo, porquanto sou de lábios impuros e habito no meio de um povo impuro de lábios. Porque os meus olhos viram o Rei, Javé Sabaoth”

Dominado pela santidade transcendente de Javé, ele só conseguia ter consciência da sua incompetência e impureza ritual. Ao contrário do Buda ou de um yogue, ele não se preparara para aquela experiência com uma série de exercícios espirituais. Tudo caíra sobre ele de repente, e estava completamente abalado pelo impacto devastador. Mas nesse momento, um dos serafins voou para ele com uma brasa viva e purificou os seus lábios, para que pudessem dizer a Palavra de Deus. Muitos dos profetas não queriam ou não podiam falar em nome de Deus. Quando, no episódio da sarça ardente, Deus chamou Moisés, o protótipo de todos os profetas, e ordenou-lhe que fosse seu mensageiro diante do faraó e dos filhos de Israel, Moisés protestara que “não sabia falar bem”. Esse motivo constante nas histórias das vocações proféticas simboliza a dificuldade do homem falar a Palavra de Deus. Os profetas não estavam ávidos por proclamar a mensagem divina, ao contrário. Jonas, por exemplo, tentou fugir, até ser engolido por um peixe. Eles relutavam em empreender uma missão de muita tensão e angústia. A transformação do Deus de Israel num símbolo de poder transcendente não ia ser um processo calmo, sereno, mas acompanhado de dor e luta.

Deveríamos sempre ter o cuidado de não interpretar de modo muito literal a história da visão de Isaías, o que infelizmente acaba acontecendo muitas vezes. Ela parece mais uma tentativa de descrever o indescritível, e Isaías tenta dar a sua platéia uma idéia aproximada do que lhe aconteceu. Os salmos muitas vezes descrevem Javé entronizado em seu Templo como Rei, exatamente como Baal, Marduk e o filisteu Dagon (os deuses dos povos vizinhos) presidiam como se fossem monarcas em seus templos. Por trás da imaginação mitológica, porém, começava a surgir em Israel uma concepção bastante distinta da Realidade Última: a experiência com o seu Deus é um encontro com uma Pessoa. Apesar de sua terrível condição de Outro, Javé fala a Isaías, e este pode responder.

Javé pergunta: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” e, como Moisés antes dele, Isaías responde de imediato: “Eis-me aqui!” (‘hineni!’) “Envia-me a mim!”. O objetivo dessa visão não era iluminar o profeta, mas dar-lhe uma tarefa prática. Basicamente, o profeta é alguém que está em presença de Deus, mas essa experiência de transcendência resulta não em transmissão de conhecimento – como no budismo – e sim em ação concreta. Enquanto os monges budistas e os yogues se caracterizam por uma vida de profunda e constante introspecção e discursos teóricos, os profetas são todos homens de ação, ativistas incomparáveis que dedicaram integralmente suas vidas ao cumprimento de um propósito concreto. Seus princípios se refletem tanto ou mais em seus atos que em suas palavras. O profeta não se caracteriza tanto pela iluminação mística - embora ela se insinue ao longo do texto bíblico - a ênfase da história está no desapego, na anulação do ego e na entrega à Vontade de Deus. Aí se fundamenta um princípio essencial da Cabalá: “O homem foge da Vontade de Deus para buscar a felicidade, por não saber que a verdadeira e plena felicidade do homem está em cumprir a Vontade de Deus. Esta é a razão pela qual o homem foi criado. A Vontade do Eterno é a perfeita realização do homem. Estas duas coisas não são duas, mas são uma só e a mesma coisa. Esta é uma verdade fugidia, mas aquele que meditar nela dia e noite, e conseguir compreender o seu significado, alcançará a libertação dos desejos”.

Com o típico paradoxo semita, Javé avisou a Isaías que o povo não ia aceitá-la. Ele não devia ficar consternado quando eles rejeitassem as palavras de Deus: ”Vai e diz a esse povo: ‘Ouvi, de fato, e não entendeis, e vede, em verdade, mas não percebeis’”. Setecentos anos depois, Jesus iria dizer essas mesmas palavras quando as pessoas se recusassem a ouvir sua mensagem igualmente dura. A humanidade não suporta muita realidade. Os israelitas da época de Isaías estavam à beira da guerra e da extinção, e Javé não tinha uma mensagem alegre para eles: suas cidades seriam devastadas, o campo arrasado e as casas esvaziadas de seus habitantes. Isaías viveria para ver o cumprimento das profecias na destruição do Reino do Norte em 722 aC e a deportação das dez tribos. Em 701, Senaquerib invadiria Judá com um vasto exército assírio, sitiaria 46 de suas cidades e fortalezas, empalaria em varas os oficiais defensores, deportaria cerca de 2 mil pessoas e aprisionaria o rei judeu em Jerusalém “como um pássaro numa gaiola”. Isaías teve a difícil tarefa de advertir seu povo dessas catástrofes iminentes:

“Haverá um grande vazio no campo, e, embora reste um décimo do povo, ele será desfolhado como um terebinto, do qual, uma vez derrubado, só resta a cepa.”

Estas profecias se cumpriram. E a arrepiante originalidade na mensagem de Isaías estava em Deus usar a Assíria como seu instrumento. Não seriam Sargão e Senaquerib que mandariam os israelitas para o exílio e devastariam o país. É a Vontade de Deus se cumprindo. Esse era um tema constante dos profetas da Era Axial. Antes, o Deus de Israel tinha-se distinguido das divindades pagãs por revelar-se em acontecimentos concretos, trazendo a vitória ao povo de Israel, e não apenas na mitologia e liturgia. Agora, insistiam os novos profetas, a catástrofe política, além da vitória, revelava o Deus que se tornava Senhor da História. Comandava não só Israel como todas as nações. Por sua vez, a Assíria viria a sofrer por seus reis não terem compreendido que eram instrumentos na mão dAquele que é maior do que eles.

Mas existia também o aviso profético sobre a destruição final da Assíria, e com este uma esperança para o futuro (outra profecia que viria a se cumpir). Entretanto, nenhum israelita teria querido saber que seu povo trouxera a destruição sobre a própria cabeça com sua política que se tornara míope e sua conduta de vida cruel, injusta, corrupta e exploradora. Em vez de oferecer ao povo uma panacéia, profetas como Isaías tentavam fazer com que seus compatriotas encarassem de frente os fatos reais da História e os aceitassem como um diálogo com Deus.


Fontes e bibliografia:
Profº Marcos Santarrita
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong;
"The idea of the holy...", 1923 - Rudolf Otto (Oxford);
"Wanderings, history of the jews", 1978 (Nova York).


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