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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Cinco obstáculos - para a meditação e para a vida

Este post é baseado num artigo de Ajaan Brahmavamso (Buddhist Society of Western Australia Newsletter)

Os principais empecilhos para o sucesso na meditação e para se atingir o Insight libertador assumem a forma de um ou mais dos Cinco Obstáculos denominados "Nivarana". Todo o conjunto de práticas que, segundo a tradição budista, conduz à Iluminação, pode muito bem ser expresso como o esforço para superar esses Cinco Obstáculos: primeiro suprimindo-os temporariamente com o objetivo de experimentar o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente (Jhana) e o Insight. Depois superando-os permanentemente através do completo desenvolvimento do Nobre Caminho Óctuplo.

Esses Cinco Obstáculos primordiais são:

Desejo Sensual: Kamacchanda
Má Vontade: Vyapada
Torpor e Preguiça:
Thina-Middha
Inquietação e Ansiedade:
Uddhcca-Kukkucca
Dúvida: Vicikiccha


1) O desejo sensual em questão se refere àquele tipo particular de anseio que busca felicidade através dos cinco sentidos físicos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Ele exclui qualquer aspiração pela felicidade através do sexto sentido mental/espiritual.

Na sua forma mais extrema, o desejo sensual é uma obsessão por encontrar o prazer em coisas como a intimidade sexual, boa comida ou música refinada. Mas também inclui o desejo de substituir experiências irritantes ou mesmo dolorosas nos cinco sentidos por experiências prazerosas, isto é, o desejo pelo que a tradição budista chama de conforto sensual.

O Buda comparou o desejo sensual com o ato de tomar um empréstimo. O sentido dessa comparação está no fato de que qualquer prazer experimentado através desses cinco sentidos fatalmente terá que ser restituído pelo desagrado da separação, da perda ou do vazio faminto, que sempre surge depois que o prazer foi consumido. Tal qual um empréstimo, há também a questão dos juros, e como o Buda disse, o prazer é pequeno quando comparado com a restituição em forma de sofrimento.

Durante a meditação, o desejo sensual é transcendido, quando nos soltamos da preocupação com este corpo e as suas cinco atividades sensuais. Alguns imaginam que os cinco sentidos estão ali para servir e proteger o corpo, mas a verdade é que, numa condição de vida materialista, o corpo é que está servindo aos cinco sentidos, que brincam com ele, sempre no mundo em busca de novos pequenos prazeres. O Buda certa vez disse: “Os cinco sentidos são o mundo”; e para deixar o mundo, para desfrutar da bem-aventurança extra-mundana de Jhana, que é o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente, é necessário abrir mão durante um certo tempo de toda preocupação com o corpo e os seus cinco sentidos.

Quando o desejo sensual é transcendido, a mente do meditador não tem interesse na promessa de prazer ou mesmo de conforto oferecidos por este corpo. O corpo "desaparece" e todos os cinco sentidos são como que desligados. A mente se torna calma e livre para olhar para o interior. A diferença entre a atividade dos cinco sentidos e a sua transcendência é igual à diferença entre olhar por uma janela e olhar num espelho. A mente, que está livre da atividade dos cinco sentidos, pode verdadeiramente olhar para o seu interior e enxergar a sua real natureza. E só assim pode surgir a sabedoria em relação ao que somos, de onde viemos e porquê. Isso não quer dizer que nos tornaremos semideuses ou seres superpoderosos transitando acima de todas as dificuldades, nem que seremos capazes de converter chumbo em ouro com um toque da mão. Mas estaremos mais próximos da felicidade, da nossa realização e do verdadeiro poder de resolver nossos problemas.

2) A má vontade em questão se refere ao desejo de revidar, machucar ou destruir. Ela inclui a raiva de alguém ou mesmo de uma situação problemática, e é capaz de gerar uma energia tão intensa que é, ao mesmo tempo, sedutora e viciante. No momento em que se manifesta, ela sempre parece justificável, pois tamanho é o seu poder, que facilmente corrompe nossa habilidade de julgar de modo equilibrado. Isto também inclui a má vontade para consigo mesmo, também conhecida como complexo de culpa, que nega qualquer possibilidade de felicidade. - O sentimento de culpa é bom quando serve para nos alertar sobre nossos erros e modos de conduta prejudiciais a nós mesmos ou aos nossos próximos. Depois de reconhecido e reparado o erro, é preciso jogar a culpa fora, ou então teremos problemas. - Quando entramos em meditação para tentar compreender alguma dificuldade que estejamos enfrentando, a má vontade aparece como antipatia em relação a este objeto da nossa meditação, rejeitando-o, de modo que a própria atenção é forçada a vagar em outras direções.

O Buda comparava a má vontade com o estar doente. Tal qual a enfermidade que nega a liberdade e a felicidade da boa saúde, a má vontade também nega a liberdade e a felicidade da paz.

A má vontade é superada com a adoção do Amor-Bondade, que a tradição budista chama de "Metta". Se a má vontade for dirigida a outra pessoa, Metta ensina a ver algo mais nessa pessoa, para além de tudo aquilo que nos fere, compreender porque aquela pessoa nos fere, (quase sempre porque ela estava se sentindo também ferida, provavelmente seu ego estivera se sentindo ameaçado por nós), e nos encoraja a colocar de lado a nossa própria dor e olhar com compaixão para os outros. Mas se isso estiver acima da nossa capacidade, Metta para nós mesmos nos levará a desistir da má vontade em relação àquela pessoa, para evitar que ela nos fira ainda mais através da memória daqueles atos. Do mesmo modo, se a má vontade estiver dirigida contra nós mesmos, Metta vê mais do que os nossos próprios defeitos, pode entendê-los e encontrar a coragem para perdoá-los, não deixando de aprender com as lições dadas por eles e depois... Deixá-los ir. Se a má vontade estiver relacionada com o objeto de meditação, (com freqüência, a razão que impede o meditador de ficar em paz), Metta abraça o objeto da meditação com cuidado e deleite. Por exemplo, como uma mãe sente Metta natural pelo seu filho, isto é, o ama incondicionalmente, assim também um meditador pode observar a sua respiração, digamos, com a mesma qualidade de atenção cuidadosa. E deste modo, será tão improvável que ele perca a respiração, devido ao esquecimento, assim como é improvável que uma mãe esqueça o seu bebê no supermercado; e tão improvável que ele deixe cair a respiração, em troca de algum pensamento distraído, assim como é improvável que uma mãe deixe cair o seu bebê por distração! A remoção da má vontade possibilita relacionamentos duradouros com outras pessoas e consigo mesmo, e na meditação, um relacionamento duradouro e agradável com o objeto da meditação, capaz de amadurecer até a completa imersão na absorção.

3) Preguiça e torpor referem-se à letargia corporal e à sonolência mental que nos arrastam à inércia incapacitante e à depressão profunda. O Buda os comparava estas energias com o estar aprisionado numa cela escura e confinada, incapaz de movimentar-se com liberdade para o sol brilhante do exterior. Na meditação, esse estado gera uma capacidade de atenção fraca e intermitente, que pode até mesmo conduzir ao sono sem que sequer nos demos conta disso!

A preguiça e o torpor são superados através do despertar da nossa energia ou Ki (ou Chi). A energia está sempre disponível, mas poucos sabem como "ligar o interruptor", por assim dizer. Estabelecer um objetivo que não seja egoísta nem fantasioso demais, mas razoável e benéfico para todos, é um modo sábio e efetivo de gerar energia, e também de desenvolver o interesse deliberado pela tarefa a ser cumprida. A criança tem um grande interesse natural pelas coisas e por conseqüência muita energia, pois o seu mundo está cheio de novidades. Portanto, se pudermos aprender a olhar para a nossa vida ou para a nossa meditação com uma ‘mente de principiante’, como a mente de uma criança, poderemos sempre ver novos ângulos e novas possibilidades que nos manterão ativos e energéticos, distantes da preguiça e do torpor. Da mesma maneira, é possível desenvolver o deleite com qualquer coisa que se faça, treinando a própria percepção para ver o belo nas coisas comuns e assim gerar o interesse que evita o estado de preguiça e torpor que a tradição budista chama de "meia-morte".

A mente possui duas funções principais: ‘fazer’ e ‘conhecer’. O objetivo da meditação é acalmar o ‘fazer’ até a completa tranqüilidade enquanto mantém o ‘conhecer’. A preguiça e o torpor ocorrem quando alguém descuidadamente acalma tanto o ‘fazer’ como o ‘conhecer’, sendo incapaz de distinguir entre os dois.

Preguiça e torpor são um problema comum que se insinua de maneira imperceptível e que lentamente nos sufoca. Um meditador hábil mantém uma vigilância aguçada aos primeiros sinais de preguiça e torpor, e assim é capaz de identificar a sua aproximação e escapar antes que seja tarde demais. É como chegar a uma bifurcação numa estrada, a pessoa pode tomar o caminho que a conduzirá para longe da preguiça e do torpor. A preguiça/torpor é um estado corporal e mental desagradável, rígido demais para saltar para a bem-aventurança de Jhana (o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente) e completamente cego para poder
identificar qualquer insight. Em resumo, é uma total perda de tempo precioso.

4) A Inquietação se refere à mente que metafóricamente se parece com um macaco, sempre saltando de galho em galho, incapaz de permanecer por algum tempo com qualquer coisa. Ela é causada pelo estado mental que busca defeito em tudo, que não é capaz de se satisfazer com as coisas do jeito que elas são e assim tem que seguir procurando, na promessa de algo melhor, que parece permanecer sempre um pouco mais além.

O Buda comparou a inquietação com a escravidão, continuamente correndo para atender às ordens de um patrão tirânico que, exigindo sempre a perfeição, nunca permite descanso ao escravo.

A inquietação é superada com o desenvolvimento do contentamento, que é o oposto da crítica. A pessoa passa a conhecer a alegria simples do contentar-se com pouco, ao invés de sempre querer mais. Ela se sente grata por este momento, ao invés de identificar os seus defeitos. Por exemplo, na meditação a inquietação freqüentemente é a impaciência pressionando para seguir rapidamente para o estágio seguinte. Paradoxalmente, no entanto, o progresso mais rápido é alcançado por aqueles que estão satisfeitos com o estágio em que se encontram. É o aprofundamento desse contentamento que amadurece o estágio seguinte. Portanto, cuidado com esse ‘desejo de progredir’ exarcebado. Ao invés disso, aprenda como relaxar nesse contentamento apreciativo. Dessa forma, o ‘fazer’ desaparece e a meditação floresce.

A ansiedade (ou remorso) em questão se refere a um tipo específico de inquietação que é o resultado de ações ruins. A única maneira de superar a ansiedade, a inquietação de uma consciência pesada, é purificar a própria virtude e tornar-se compassivo, sábio e gentil. Na prática é impossível que alguém imoral ou vicioso faça progresso significativo
na meditação.

5) A dúvida se refere aos questionamentos íntimos perturbadores no momento em que se deveria estar silenciosamente passando para um estágio de maior profundidade. A dúvida pode questionar a própria habilidade: “Sou capaz de fazer isso?”, ou questionar o método: “Este é o modo correto?”, ou mesmo questionar o significado: “O que é isso?” Que fique claro que, neste caso, tais questões são obstáculos para a meditação porque são perguntas feitas no momento errado e assim se tornam uma intrusão, obscurecendo a clareza mental.

O Buda comparou a dúvida com o estar perdido no deserto, sem ter qualquer ponto de referência.

Esse tipo de dúvida é superada obtendo-se instruções claras a respeito do "percurso", sabendo-se exatamente aonde queremos chegar e levando-se um bom mapa; de modo que se possa reconhecer os pontos de referência sutis no território desconhecido da meditação profunda e assim saber por onde seguir. Isso é muito importante: ao contrário do que muitos leigos imaginam, apesar de a meditação profunda exigir o abandono completo do ego, a essência sutil e a intenção amorosa do praticante devem permanecer presentes todo o tempo, ainda que não de maneira ativa ou funcional. Antes de o meditador dissolver-se na prática de Jhana, deve sempre direcionar-se de modo ativo/positivo à meta da iluminação, para que não se ponha a mercê de energias psíquicas incovenientes.

A dúvida da própria habilidade é superada através do desenvolvimento da auto-confiança com o apoio de um bom instrutor. Um instrutor em meditação é como um treinador que convence o time de que eles são capazes de vencer. O Buda afirmou que todos podem alcançar Jhana e a Iluminação, se seguirem as instruções com cuidado e paciência. A única incerteza é quando! A experiência também supera a dúvida acerca da própria habilidade, bem como acerca do caminho correto. Quando realizamos por nós mesmos os sublimes estágios do caminho, descobrimos que somos de fato capazes de atingir o estágio mais elevado e que este é o caminho que nos levará lá.

O fim da dúvida na meditação é descrito como uma mente que tem confiança perfeita e assim não interfere no processo com diálogos internos. É como ter um bom motorista, ficamos sentados em silêncio durante a viagem pela confiança que depositamos nele, desde que se conheça bem a que "motorista" entregamos o nosso "automóvel" mental.

"Gafanhoto, quando você puder ver o símbolo Yin Yang nesta imagem, você estará pronto..."

Qualquer problema que surjir na meditação será um desses Cinco Obstáculos, ou uma combinação deles. Portanto, se alguém experimentar qualquer dificuldade, basta usar as explicações dadas acima como lista de controle para identificar o problema principal. Então, sabendo qual o remédio apropriado, aplique-o com cuidado para superar o obstáculo e alcançar uma meditação mais profunda.

Quando os Cinco Obstáculos forem totalmente superados, não haverá barreira entre o meditador e a bem-aventurança de Jhana. Conseqüentemente, o teste definitivo para saber se os Cinco Obstáculos foram realmente superados é a habilidade para entrar em Jhana, o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente.


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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Lições do Tao - 2


Segunda lição - Arrependimento - escritos que Liao Fan Yuan (1550 - 1624) deixou para seu filho

No período da primavera e do outono da história chinesa, durante a dinastia Chou (800-400 aC.), existiam muitos oficiais que tinham a habilidade de prever o futuro de um homem apenas observando suas palavras e seu comportamento. Acontece que o futuro de alguém, seja ele bom ou ruim, inicia-se primeiro em seu coração/mente, e em seguida manifesta-se em seu comportamento. Aquele que parece amável e sincero e seu comportamento é bom, muito tem grandes possibilidades de sucesso. Entretanto, aquele que transparece crueldade e comporta-se sem considerarão pelos outros. normalmente propicia o aparecimento de sofrimentos. Desta forma, não há mistério nesses acontecimentos. O coração e a mente do ser humano são conectados com o Céu. Quando se está para ter dificuldades, pode-se ver que isso se deveu a um comportamento perverso. Se desejarmos ter felicidades e harmonia, a primeira atitude que devemos tomar é a de arrependimento, mesmo antes de realizarmos boas obras.

Há três modos de arrependimento: O primeiro modo é ter consciência ou vergonha. Quando lembramos de nossos ancestrais, os sábios de tempos remotos, notamos que eles foram também pessoas comuns e seus ensinamentos permaneceram válidos por centenas de anos. Somos apenas interessados em prazeres sensuais, fama e riqueza, além de não possuirmos disciplina em nosso comportamento. Cometemos ações desonrosas pelas costas dos outros pensando que ninguém mais pode vê-Ias. Gradualmente nos tornamos animais trajados em roupas humanas. Este é o comportamento mais vergonhoso.

Mencius disse que o senso de consciência ou de vergonha é a chave para se tornar um santo. Aquele que nada sabe sobre isto é então como um animal irracional. Assim, o primeiro passo no arrependimento é começar a ter consciência, pois é isso que distingue os humanos dos animais.

O segundo modo é possuir respeito. Isto diz respeito a Seres Celestiais e de outros planos; não devemos enganá-los. Mesmo se cometermos pequenos erros, eles saberão. E se cometermos grandes erros sofreremos as punições proporcionais. Até quando estamos num quarto escuro nossos pensamentos são conhecidos pelo Céu. Podemos tentar nos esconder, mas nossos pensamentos não são ocultos e através deles poderemos ser encontrados. Enquanto ainda nos restar um último suspiro podemos nos arrepender, por mais sérios que tenham sido nossos erros prévios. Há muitas pessoas que tiveram uma vida inteira de pecados, mas no momento da morte, de repente, tornam-se cientes de seus erros, arrependem-se e deixam este mundo em paz. Há um ditado que diz: “Tão logo você abandone o facão de açougueiro, já poderá tornar-se um Buda”, isto é. independentemente dos erros cometidos, grandes ou pequenos, o principal é ser capaz de mudar e se arrepender.

O terceiro modo é possuir coragem e determinação. Normalmente, as pessoas não conseguem modificar seus destinos porque não possuem coragem e determinação para deter o comportamento errôneo ou para transformar algo errado. Devemos considerar um pequeno erro como uma pequena farpa cravada em nossa pele: devemos removê-la rapidamente. E se for um grande erro, deve ser considerado como uma picada de cobra venenosa, devendo ser o dedo amputado sem a menor hesitação. Aquele que conseguir seguir os três modos, alcançará o arrependimento tão facilmente quanto o gelo derrete na primavera.

E há três níveis para se alcançar o arrependimento: O primeiro é a mudança do próprio comportamento; o segundo é a compreensão através de uma mudança mental; o terceiro é a mudança do coração/espírito.

Cada nível é praticado diferentemente, com diferentes graus de sucesso. Um exemplo da realização do primeiro nível: alguém que matou no dia prévio promete não matar no dia atual; ou, ao se tornar muito nervoso num dia, promete ser calmo no dia seguinte. Esses são exemplos de mudança de comportamento. Entretanto, aqueles que se mantêm unicamente neste nível obrigam-se a seguir um método muito opressivo, sendo muito difícil alcançar verdadeiramente um completo grau de arrependimento.

Um outro caminho mais apropriado de se arrepender é através da compreensão no nível mental. Por exemplo: se quisermos modificar o hábito de matar devemos pensar sobre como todos os seres vivos valorizam suas vidas. Devemos nos perguntar: como poderemos estar em paz ao matarmos esses seres para nos alimentar? E, além disso, pensar na dor dos animais ao serem feridos com água ou óleo fervente penetrando em sua carne e ossos. O segredo da saúde é balancear nossa energia vital interior e não ser dependente de alimentos substanciosos das montanhas ou dos oceanos, pois após a refeição não há diferenças entre os seus nutrientes e os de simples vegetais. Por que deixar seu estômago tornar-se um cemitério de animais e anular suas caridades? Ao considerarmos que todos os seres com sangue e carne têm vida e sentimento, então o fato de nós não permitirmos que eles sejam livres como crianças brincando junto a nós é realmente vergonhoso. Como podemos feri-los e fazer com que nos odeiem? Se pensássemos sobre tudo isso seriamos incapazes de matá-los para nos saciar.

Para modificar o mau temperamento, o mesmo é válido. Se pensássemos como as pessoas são diferentes, como todas possuem pontos fortes e fracos, seríamos mais tolerantes com o próximo. E quando as outras não realizarem as ações corretas ou se elas agirem contra os Princípios Universais, elas é que estarão erradas. Então por que se zangar? Além do mais, se as coisas não andarem como gostaríamos que elas andassem, na grande maioria das vezes é porque ainda não acumulamos méritos suficientes para isso. Assim, se tivermos isto em mente, mesmo ao sermos caluniados, isso será como o fogo queimando no espaço vazio: logo se extinguirá sozinho. Ao escutarmos xingamentos e tentarmos nos defender, isso será tão trabalhoso quanto um bicho-da-seda construindo seu casulo. De qualquer forma, revidar e ter raiva são ações que mais nos ferem do que nos dão paz.

Há outros erros que podemos modificar de acordo com as mesmas medidas citadas. Se entendermos as razões por trás da necessidade de mudança nós não cometeríamos os mesmos erros novamente. Geralmente, apesar de realizarmos centenas de erros, quando os analisamos percebemos que todos eles provêm do coração/mente. Se a mente não gerar pensamentos que são enraizados no egoísmo, então não cometeremos erros que surgem da ganância. E se nosso coração tende à bondade, então naturalmente não teremos pensamentos perversos. Este é o caminho de arrependimento mais básico: o que ocorre no coração. Todas as falhas vêm da mente, dos pensamentos, e assim, se quisermos remover radicalmente a causa destas falhas, temos que agir como se cavássemos em direção à raiz para cortar a árvore venenosa. Para mudarmos nossa mente, devemos estar atentos em cada pensamento. Logo que um mau pensamento é gerado devemos capturá-lo e eliminá-lo. Este é o melhor método. Todavia, se ainda não formos capazes de realizar este nível, então devemos fazê-lo no nível anterior: o da compreensão. E se ainda não pudermos agir neste nível (o da compreensão), então devemos fazê-lo no nível do comportamento (da ação). Porém, o caminho mais eficaz consiste em combinar a vigilância dos pensamentos com a compreensão. Se estiver realmente determinado a melhorar, você pode suplicar aos Seres Iluminados por ajuda nesta mudança, para sinceramente se arrepender dia após dia. Assim, após um certo tempo começaremos a obter resultados, sentiremos paz e a sabedoria surgirá.

Também é possível sentirmos algumas das seguintes mudanças:

# Mesmo se estivermos em um meio conturbado, não nos aborreceremos mais;

# Ao virmos um inimigo, em vez de ficarmos zangados, ficaremos sinceramente felizes;

# Quando sonharmos que estamos deixando para trás coisas hostis, ou que anjos vêm para nos saudar, ou que estamos voando no céu, isto são apenas indicações de que resolvemos alguns dos nossos erros do passado, e que já realizamos algum progresso. Contudo, isso ainda não é o motivo para ficarmos satisfeitos e complacentes com nós mesmos.

Pessoas comuns como nós cometem tantos erros quanto os espinhos existentes em um porco-espinho. Quando a nossa mente ainda é muito rude, então mesmo falhando, não enxergamos claramente essas falhas e ainda permanecemos tranqüilos. As pessoas que acumularam muitos deméritos normalmente apresentam certos sintomas:

# suas mentes são obscurecidas e negligentes;

# preocupam-se quando não há razão alguma para se preocupar;

# se sentem incomodadas quando encontram pessoas sábias e santas;

# ficam infelizes quando escutam a verdade;

# algumas vezes quando recebem algo, ao invés de se sentirem gratas, elas ficam insatisfeitas e nervosas;

# em seus sonhos elas sempre têm muitos pesadelos e reclamam o tempo todo.

Essas são as características das pessoas que acumularam deméritos, e quando elas se manifestam, deveremos pensar com urgência em percorrer os caminhos do arrependimento.


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Lições do Tao

A tradição taoísta está repleta de belas histórias, míticas ou não, com fundo moral profundo, que podem nos servir de inspiração ou ajudar nos momentos difíceis da vida.

Uma das ramificações do Tao que chegou ao Brasil é o “Ten Tao”, um movimento chinês que derivou da tradição taoísta original e que procura, segundo seus representantes, integrar a sabedoria das cinco principais religiões do mundo: Budismo, Taoísmo, Confucionismo, Cristianismo e Islamismo. Em seus estudos, os textos do Tao podem vir seguidos por um versículo da Bíblia e/ou uma regra de Confúcio, por exemplo. Afirmam que possuem mais de 5.000 anos de desenvolvimento, já que as bases filosóficas e espirituais que eles procuram seguir são muito antigas; - mas o início da escola Ten Tao está provavelmente no começo do século XX, quando houve muita influência ocidental na China.

Uma coletânea de ensinamentos Tao que são compartilhados conosco pela escola Ten Tao consiste das “Quatro Lições de Liao Fan”. Trata-se de uma série de quatro manuscritos que um importante administrador chinês escreveu para deixar como lição ao seu filho, e que posteriormente foram divulgadas e veiculadas na China por centenas de anos, devido ao grande valor espiritual, moral e ético do seu conteúdo. Assim que tomei contato com essas interessantíssimas lições, resolvi que as dividiria com os leitores do Arte das artes.

Liao Fan Yuan nasceu durante a dinastia Ming, aproximadamente em 1550, na província de Jiang-Su, no condado chamado Wu-Jiang. Ele viveu até a idade de 74 anos, tendo chegado ao cargo de prefeito, além de ter publicado vários artigos. As lições que seguem, como mencionado, foram originalmente destinadas ao seu filho, mas depois de algum tempo a família achou que a melhor coisa a se fazer seria compartilhar as mensagens com toda a população, já que sem dúvida poderiam vir a ser muito úteis para todos. As quatro lições são: "O Princípio do Destino"; “O Método do Arrependimento”; “Os Modos de Acumular Méritos” e “Os Benefícios da Humildade”. A partir de hoje, passo a publicar aqui o conteúdo desses textos, um por dia. O primeiro desses textos é longo, mas não é cansativo, e eu garanto que a leitura vale a pena.


Primeira lição - "O Princípio do Destino" - por Liao Fan Yuan

Perdi meu pai quando ainda era jovem. Minha mãe pensou que aprender medicina seria uma boa maneira de me sustentar e também de ajudar aos outros. Além disso, tendo habilidade nas mãos não teria nunca mais que me preocupar com a minha sobrevivência. Poderia até me tornar famoso por minhas habilidades médicas, satisfazendo a vontade de meu pai. Desta forma, dei ouvidos à minha mãe e desisti do sonho de me tornar um oficial do governo.

Um dia, durante minhas viagens, conheci um senhor de aparência distinta no Templo “Nuvem Clemente”. Ele tinha uma longa barba e aparentava ser um sábio. Eu lhe fiz uma reverência e ele me disse: “Você deveria estar estudando, pois o seu destino é ser um oficial do governo. No próximo ano você deverá entrar na graduação de Erudição. Por que você não está estudando?”. Eu lhe disse a razão e perguntei seu nome. O ancião respondeu: “Meu nome é K’ung da província de Yunnan. Eu tenho um sagrado texto sobre astrologia. Herdei o conhecimento de Shao-Tzu (estudioso da dinastia Sung que desenvolveu um método de predizer o futuro) e foi me dito que deveria passá-lo para você”. Assim, levei Sr. K’ung para minha casa e contei para minha mãe a respeito dele. Ela disse para tratá-lo muito bem e nós testamos sua capacidade de fazer previsões. O ancião sempre estava correto quer isso fosse um grande evento ou um simples acontecimento do cotidiano. Desta forma, fiquei convencido sobre o que foi dito sobre o meu destino e iniciei os estudos de preparação para o exame do próximo ano. Consultei primo Shen e ele me recomendou o professor Y Hai-ku, que já ensinava um amigo dele. Assim, tomei-me aluno do Sr. Y.

Sr. K’ung fez algumas previsões sobre minhas colocações: “Nas provas municipais você será o décimo quarto; no nível regional você será o septuagésimo primeiro e na província será o nono.” No ano seguinte, nos três lugares, quando os resultados dos exames chegaram foram exatamente como a previsão de Mr. K’ung. Pedi para que ele previsse minha vida inteira. De acordo com ele, eu passaria de teste em teste, ano após ano, até me tornar um funcionário público e depois receberia uma promoção. E por último, seria escolhido para o magistrado na província de Sichuan. Após servir nesta posição por três anos e meio, iria me aposentar e retornar ao lar para viver até os 53 anos. Morreria no dia 14 de agosto no horário ch’ou. Infelizmente, não teria filhos. Recebi a informação cautelosamente e não lhe dei importância.

Dali em diante, os resultados de cada exame concordavam exatamente com as previsões. Sr. K’ung também previu que eu ganharia um salário de noventa e um tan e cinco tou (unidades de peso) de arroz enquanto permanecesse no cargo. Quando eu já havia recebido no total setenta e um tou de arroz e meu superior Sr. Tu indicou-me para uma promoção, eu suspeitei de que a previsão do Sr. K’ung estava incorreta. Entretanto, ela revelou-se verdadeira porque a recomendação tinha sido rejeitada pelo chefe de Sr. Tu, Sr. Yang. Somente após muitos anos de trabalho fui finalmente promovido, e quando calculei a quantidade de arroz que tinha recebido no cargo vi que tinha sido exatamente noventa e um tan e cinco tou.

A partir disso, acreditei que prosperidade, promoções, vida ou morte, tudo é predestinado. Tornei-me completamente indiferente sobre qualquer desejo. Naquele ano, após a minha promoção, fui enviado à capital, Yen, por um ano. Interessei-me pela meditação e perdi o interesse nos estudos, já que tudo é predestinado e assim meus esforços seriam inúteis.

Ao final do ano, entrei para o colégio imperial no sul da capital. Quando retornei, fui visitar Yun Ku-Hui, mestre C'han (Zen) da montanha Ch’i-Hsia. Permanecemos sentados, face a face, por três dias e três noites sem dormir. Mestre Yun me disse: “A razão pela qual pessoas comuns não podem tornar-se sábios e santos é porque elas têm muitos pensamentos inquietantes e muitos desejos. Há sempre uma razão”. Eu respondi: “Sr. K’ung predisse minha vida, minha promoção, minha morte etc... Tudo já está predestinado e não há necessidade de pensar sobre isso, nem de desejar nada”. Yun me disse: “A pessoa medíocre é controlada pelo ch’i do ying e yang, e por isso ela está sob o controle do destino. Entretanto, o destino não pode controlar uma pessoa que realiza boas obras. Por outro lado, se a pessoa realiza grandes maldades o destino também não pode controlá-la. Nos últimos 20 anos você tem sido dirigido pelas previsões do Sr. K’ung, sem ser capaz de modificar nem um centímetro do seu destino, sendo, assim, um medíocre. Mas eu penso que você poderia ter sido um sábio, um iluminado”. Neste momento, Yun começou a rir.

Eu então perguntei a ele: “É verdade que alguém pode mudar seu destino, que pode escapar dele?” Yun disse: “Nós criamos nosso próprio destino. Nossa forma é criada por nossa mente, por nossos pensamentos. Sorte e azar são também determinados pelas nossas próprias ações. Isso é o que está escrito nos antigos livros de sabedoria. Nos sutras do Budismo está escrito que se você rezar por riqueza e fama, por um filho ou filha, ou por longevidade, você os terá. Isso não é mentira porque o discurso falso é um dos grandes pecados do ensinamento budista, então, certamente, estando este ensinamento num sutra ele é verdadeiro”. Respondi: “Mencius (sábio chinês que viveu de 372 a 289 aC) mencionou que só deveríamos pedir por aquilo que está dentro de nossas possibilidades, em outras palavras, virtude, bondade e honra são qualidades que temos que procurar obter. Entretanto, quando nos referimos à prosperidade, fama e status, como podemos procurá-las ou pedi-Ias?” Yun disse: “Mencius estava correto. Você é que não entendeu a verdadeira essência. O sexto patriarca do Zen, Hui-neng, tinha dito que todos os campos do mérito não estão além de 'um pequeno quadrado de uma polegada'. Aquele que procura dentro de si, no seu próprio coração, pode então estar conectado com tudo. O exterior é meramente um reflexo do interior. Aquele que procura dentro de seu próprio coração a prática dos caminhos virtuosos, receberá naturalmente. o respeito dos outros e trará posição de destaque e prosperidade para si Aquele que não sabe como olhar para dentro de si e verificar seus próprios pensamentos, mas somente procurar no exterior, então, mesmo que ele trame e planeje, não atingirá seu objetivo”.

Sr. Yun continuou a perguntar: “O que disse Sr. K’ung sobre seu destino?" - E eu lhe respondi com todos os detalhes. Novamente ele perguntou: “O que você pensa que deveria receber? Uma nomeação imperial? Você acha que você merece ter um filho?” Pensei um longo tempo sobre esta questão e então lhe disse: “Enquanto todos aqueles que receberam uma nomeação imperial pareciam ter sorte, eu não tive sorte, e também não acumulei méritos para construí-ia. Sou muito impaciente, intolerante,_ indisciplinado e falo sem qualquer restrição. Tenho também um ego muito forte e sou arrogante. Isso tudo não é virtuoso, então como posso eu receber uma nomeação imperial? Há um antigo ditado que diz: 'A vida nasce da sujeira da­Terra, e a água limpa muitas vezes não tem peixe'. Eu tenho uma obsessão por limpeza, esta é a primeira razão pela qual não tenho filhos. A segunda razão pela qual não mereço ter um filho é porque o amor é a base para toda vida, e a intransigência é a causa da não-vida, eu sou muito irritado e sem bondade. Estou completamente ciente sobre minha reputação e não posso me permitir estar em segundo plano para ajudar os necessitados, pois, eu não tenho compaixão por eles. Estas são as razões do porque não devo ter um filho.”

Yun então disse: “De acordo com você, então, há muitas coisas na vida que você não merece, não somente fama e um filho. No mundo, o porquê de existirem pessoas que são ricas ou que passam fome até morrerem é que elas criaram seus próprios destinos e o Céu simplesmente recompensa aquilo que elas próprias semearam.. O mesmo ocorre com a criação de uma criança. Alguém que tenha méritos suficientes para dez gerações terá descendentes por dez gerações para protegerem seus méritos; e por último, aqueles que não têm nenhum descendente são pessoas que não construíram méritos suficientes. Se entendermos a razão para criarmos o destino, então mudar as razões pelas quais não se recebe uma nomeação imperial ou por não ter filhos, mudando da avareza para a doação, da intolerância, para a compreensão, da arrogância para humildade, do descaso para diligência, da crueldade para compaixão, da hipocrisia à sinceridade, então acumularemos tantos méritos quanto conseguirmos. Estar bem consigo mesmo, deixando o passado no passado e iniciando um novo dia, pode-se começar uma nova vida. Uma vez entendendo os princípios de como criar nosso próprio destino, então poderemos criar qualquer coisa que desejarmos. Isso é o que significa uma segunda vida. Se o corpo físico é governado pela Lei, então nossa mente pode também se comunicar com o Céu. Como estava escrito no livro T’ai-chia, pode-se escapar da previsão do céu (astrologia), mas não se pode sobreviver às próprias más ações. Sr. K’ung tinha calculado que você não receberia a nomeação imperial e também que não teria nenhum filho. Essa é a previsão da astrologia, mas se você começar a andar em novos caminhos então você estará apto a modificar seu destino. O I-Ching foi escrito para auxiliar as pessoas a evitar o perigo e atrair boa sorte. Se tudo estivesse predestinado, então não haveria necessidade de se evitar o perigo ou de se melhorar a própria sorte. Em todo o primeiro capítulo do livro está escrito que as famílias que realizarem boas obras desfrutarão de boa sorte”.

A partir desse momento, conscientizei-me e compreendi o princípio do destino, e então comecei a me arrepender de todos os meus erros do passado. Escrevi que desejava ser aprovado nos exames imperiais para receber uma nomeação oficial. Assim, prometi fazer 3.000 boas ações para demonstrar minha gratidão. Sr. Yun também me ensinou como lembrar dos meus méritos, assim como dos meus erros, pois às vezes os méritos acabam sendo neutralizados pelos erros. Ele me ensinou a cantar um certo mantra para fortalecer o que eu pedia. Ele ainda acrescentou que quando rezamos por algo que se refere à mudança de nosso destino é importante fazê-lo num momento de tranqüilidade da mente, então nosso desejo é mais facilmente realizado.

A teoria de Mencius sobre a determinação do destino de alguém estabeleceu que uma longa vida ou uma vida breve não são diferentes. Superficialmente as duas parecem diferentes, mas sem utilizar a mente discriminatória, elas são iguais. Vendo mais adiante, aquele que vive indiferente aos bons ou aos maus resultados têm então, o domínio do seu destino de riqueza ou pobreza. Ou aquele que vive com adequada indiferença a respeito do status que se obtêm na vida, obtem o domínio do destino, mesmo possuindo alto ou baixo status. Isto é, quem vive indiferentemente quanto aos altos ou baixos da vida, com serenidade, adquire o controle de suas emoções e ações, modificando assim, indiretamente, o seu destino. Para modificar o destino para melhor devemos prímeiro corrigir todos os nossos maus hábitos e pensamentos. Quando um pensamento nocivo é formado, devemos extingui-lo pela raiz. Ser capaz de controlar os próprios pensamentos é a completa realização.

Meu nome do meio significava “Mar de Aprendizagem”, mas daquele dia em diante, passei a me chamar "Liao-Fan", isto é, “Transcendendo o Mundano”. Isso significou minha constatação de que nós criamos nosso próprio destino. Eu não quis mais cair na armadilha dos pensamentos mundanos. Modifiquei completamente meu modo de viver, passei a viver cautelosamente e com seriedade. No passado costumava ser indisciplinado e minha mente estava fora de controle, mas comecei a prestar atenção no que pensava e no que dizia, mesmo quando estava sozinho num quarto escuro. Mesmo quando os outros me maldiziam, eu os tolerava e não ficava zangado. No ano seguinte a esses acontecimentos, entrei para a etapa preliminar da avaliação imperial. Sr. K’ung havia predito que eu ficaria em terceiro lugar, mas fiquei em primeiro. As previsões de Sr. K’ung começaram a perder sua eficácia, e assim, fui aprovado naquele outono nas provas, o que não estava nas previsões iniciais...

Mas quando olhei para mim mesmo, senti que não estava ainda totalmente confortável no meu modo de viver. Por exemplo: quando praticava caridades, não estava completamente certo disso; quando ajudava as pessoas ainda tinha algumas dúvidas; quando eu realizava boas obras não me comportava apropriadamente; quando me via sóbrio me permitia ficar bêbado. Os méritos e os deméritos às vezes se cancelavam. Do dia em que fiz a promessa passaram-se 10 anos até que consegui completar os 3000 méritos.

Após isso, retornei para minha antiga casa e fui ao templo prestar minhas reverências e oferecer meus méritos. Fiz então meu segundo desejo e este era o de ter um herdeiro. Fiz outra promessa de realizar mais 3000 méritos. E no ano do Hsin-Su tive um filho, T’ien-Ch’i. Quando realizava uma caridade eu a escrevia num livro. Minha esposa, que não sabia ler, desenhava um círculo com a pena de um ganso no calendário quando ela realizava um mérito. Por exemplo, demos alimentos aos necessitados e ajudamos pessoas que precisavam. Às vezes ela acumulava mais de dez círculos num mesmo dia. Assim, passados dois anos acumulamos os 3000 méritos e novamente retornamos ao templo para prestar nossas reverências e quitar nosso voto. Fiz um terceiro pedido: passar no próximo estágio da avaliação imperial, a etapa chi-shih. Prometi desta vez 10.000 méritos! Após três anos, em 1586, passei por esta etapa e me tornei o prefeito de Pao-Ti.

Mantive sempre o livro de registros de méritos e deméritos próximo à minha mesa de escritório. Disse para meus subordinados também se manterem no caminho das caridades e no final do dia fazíamos um relatório para os céus. Minha esposa notou que eu então não estava acumulando muitas caridades e estava preocupada. Ela disse que quando estávamos em nossa casa havia muito mais oportunidades para realizá-las, mas quando nos mudamos para a residência oficial, elas rarearam. Como iríamos cumprir nossa promessa?

Uma noite, em meus sonhos, vi um santo que veio até mim e disse: “Se você reduzir o imposto nos campos de arroz, essa única obra valerá por 10000 méritos”. Nessa época, o imposto sobre os campos de arroz era muito alto, por cada acre o proprietário tinha que pagar uma quantia exorbitante, e decidi reduzi-la para aproximadamente a metade, mas ainda tinha dúvidas quanto a essa medida. Como uma única ação poderia valer por 10.000? Justamente nessa época, havia um monge viajando na região, vindo das montanhas, e eu lhe descrevi meu sonho. Ele me disse que se alguém realiza sinceramente uma boa ação, então ela poderia valer por 10000 e que quando reduzi as taxas para toda a região, ao menos 10000 pessoas se beneficiariam com isso. Certamente aquela caridade valia por 10.000. Quando escutei essas palavras, resolvi expressar minha gratidão. Doei meu salário do mês para o monge poder retornar para as montanhas e também como auxílio na alimentação de outros 10.000 monges.

Sr. K’ung havia calculado que eu morreria com 53 anos. Não pedi para que houvesse mudança desse fato, mas meus 53 anos vieram e eu sobrevivi. Agora tenho 69. Passei a acreditar que quando alguém diz que a sorte é determinada pelo céu, esse alguém deve ser um mero mortal medíocre. Se alguém diz que a sorte é o resultado do que criamos ou é o reflexo do que temos no coração, então deve ser considerado um sábio.

Em resumo, apesar de não sabermos qual é o nosso destino, nos tempos de prosperidade devemos ser humildes e econômicos e quando os acontecimentos ocorrem como planejamos, devemos, ainda assim, manter-nos cautelosos e serenos. Quando estamos saudáveis e repletos de riquezas devemos nos comportar com simplicidade, sem esbanjar. Mesmo se tivermos o amor, o respeito e o apoio alheios não devemos nos envaidecer. Ao nascermos numa família afortunada não devemos nos louvar ou nos exibir para os outros. Quando temos muito conhecimento devemos tratar os outros com respeito e pedir auxílio quando necessitarmos. Devemos sempre tentar ajudar o próximo e sermos muito rigorosos com nós mesmos. Devemos, sem hesitação, nos policiar todos os dias e realizar mudanças em tudo que ainda não está perfeito.


Fonte:
"Santuário Ten Tien do Brasil"



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terça-feira, 6 de maio de 2008

O Tao - parte 2

A filosofia taoísta é riquíssima em conhecimentos ancestrais e na mais pura sabedoria oriental. Dicas preciosas para o buscador de qualquer tradição podem ser encontradas ali. Na minha opinião, aos ocidentais é importante que saibam separar joio e trigo, o que é tradição folclórica, que não deve necessariamente ser interpretada ao pé da letra, como o culto aos vários deuses e as artes divinatórias por exemplo, e o que é funcional para nossas vidas, o conhecimento espiritual realmente válido e útil.

O conjunto das artes humanas abrangidas pelo taoísmo engloba a medicina chinesa e a acupuntura, o Feng Shui, as artes marciais e um elaborado conjunto de princípios espirituais, entre outros.

O taoísmo não é, necessariamente, uma religião. Não é Zen, embora tenha havido um contato entre essas duas vertentes filosóficas. Não é limitado aos chineses. E não é um modismo da "Nova Era".

Existem no taoísmo determinados princípios que são constantes em todas as artes taoístas. Compreender esses princípios é fundamental no estudo da sua filosofia. Assim como ocorre com o judaísmo, o hinduísmo e o budismo, tradições extremamente complexas e muito antigas, seria necessário um blog inteiro só para se fazer uma abordagem realmente aprofundada sobre o taoísmo. Como isso não é viável, deixarei aqui um breve resumo tópico desses princípios mais elementares. Seriam eles: o Tao, o Te, o Wu-Wei, o Chi, o Yin/Yang, o Wu Hsing e o Pa Kua.


O Tao (Dao)

Como dito no post anterior, o ideograma correspondente ao Tao pode ser entendido, a grosso modo, como "Caminho", tanto no sentido literal de estrada ou rua como no sentido filosófico de caminhada ou senda espiritual.

O Tao, propriamente dito, enquanto expressão da Verdade, não pode ser compreendido pela razão ou pela racionalidade. Esse conceito transcende nosso intelecto, tendo sido por isso chamado simplesmente de "Tao" pelo filósofo Lao-Tsé. Esse personagem muito importante no Taoísmo compreendeu o que era o Tao e se esforçou por mostrá-lo da melhor maneira possível aos seus contemporâneos. Para isso tinha que cunhar um termo que pudesse usar para ilustrar o inexplicável, e esse termo foi "Tao".

Como ele não pode ser explicado, "Tao" é um designação genérica para um grande conjunto de conhecimento transcendental. Como Lao-Tsé explica no primeiro capítulo da sua obra “Tao-Te-Ching”:

“O Tao que pode ser expresso não é o Tao verdadeiro”

O retorno ao Tao e a sua compreensão intuitiva e definitiva, é o objetivo número um do taoísmo e todas as suas artes e escritos convergem para esse fim. Seria o equivalente taoísta à Iluminação budista.


Te (Te)

Literalmente, podemos traduzir Te como "virtude". Muitos autores buscam nessa expressão um conteúdo moral, com regras de conduta. Mas o significado real não é bem esse. O Te expressa a virtude natural que o ser humano atinge ao se tornar uno com o Caminho. É uma conduta que flui naturalmente, sem preceitos reguladores criados pelo homem.

Quando estamos perfeitamente mergulhados no Caminho, na sabedoria transcendente, ser virtuoso é viver de maneira simples, seguindo o curso natural da vida. O verdadeiro Te, a verdadeira Virtude, deve nascer no coração, de forma espontânea, fruto da compreensão do Universo proporcionado pela Comunhão com o Caminho.


Wu-Wei (Wuwei)

Esse é outro princípio difícil de definir. Um conceito muito complicado e talvez o que provoque maior polêmica entre os seguidores das outras tradições. À rigor, Wu-Wei significa "não-ação". Isso é tomado por muitos estudiosos ocidentais como ociosidade, uma espécie de apologia à preguiça e à inação. Inclusive figuram em vários livros de filosofia a premissa de que os taoístas eram indolentes que esperavam as coisas acontecerem.

A idéia do Wu-Wei é uma ação dentro da não-ação, ou seja, é preciso ficar atento para o curso dos acontecimentos de modo a usufruir da sua correnteza com o mínimo esforço. Seríamos todos como tripulantes em barcos frágeis, descendo uma corredeira que é a própria vida. Temos que ficar atentos aos obstáculos e lugares bons para ancoragem. Mas não podemos remar contra a correnteza, sob pena de destruirmos nossos barcos. Esse é o princípio do Wu-Wei: obter o máximo de benefícios da vida com o menor dos esforços.

Esse princípio criou uma situação interessante nas artes taoístas, onde todas buscam realizar o menor esforço possível. As artes plásticas ilustram bem essa idéia com as figuras dos Imortais, sábios que lograram atingir o Tao e manifestar o Te. Todas essas ilustrações trazem pessoas sorridentes e alegres, gordas e felizes, cantando, dançando ou se entretendo. Isso está em forte contraste com as efígies de praticamente todas as outras filosofias, quase sempre compenetradas e sérias.

Viver segundo o Wu-Wei significa também viver o agora e prestar atenção nas oportunidades que surgem a todo instante. Esse princípio é fortemente ilustrado pelas artes marciais de cunho taoísta, especializados em torções e chaves eficientes e no uso correto do Chi, energia universal que circula em nossos corpos. O Tai Chi Chuan e o Aikidô são exemplos claros da aplicação desses princípios, tendo o máximo de efetividade com o mínimo esforço. Uma parte desse princípio provavelmente foi incorporado pelo Zen Budismo através da preocupação com a transitoriedade das coisas e do princípio de "viver intensamente o presente". Cada momento é único e deve ser saboreado e vivenciado como se não existisse nada mais. Isso faz parte do agir sem agir do Wu-Wei.


Chi (Qi)

Conhecido desde o princípio dos tempos, o Chi desde os primórdios fascinou o homem. Todos os povos e culturas da Terra sempre souberam haver uma espécie de "Força" invisível atuando na Natureza. Acabaram por prestar reverência ao raio, ao fogo, à água, aos animais e a tudo o que não podiam dominar ou compreender exatamente. Essa crença, longe de ser a idolatria como muitos imaginam, estava fundamentada numa profunda reverência ao grande Mistério por trás da existência. Mistério que se manifesta na própria Energia Fundamental que nos mantém vivos.

Conceito dificílimo de explicar, o Chi seria, falando de maneira muito simplificada, a energia primordial que mantêm os átomos unidos, as partículas invisíveis fundamentais que constituem os nossos corpos e todo o mundo físico em constante harmonia e atividade. Sem ele, não haveria vida.

Bruce Lee, ainda muito jovem, praticando o Chi Kung (aprendeu bem...)

A tradução literal mais aceita para Chi é "sopro". A imagem apresentada pelo seu ideograma é a de grãos de arroz cozinhando ou fermentando em um pote ou chaleira que emite uma espécie de vapor que entra em alguma coisa. Esse "vapor" penetra todas as coisas, portanto, tudo é formado por Chi e se manifesta através dele. Com base nesse pensamento, os taoístas chineses elaboraram técnicas avançadas como o Chi Kung ou Ki Gong, técnica que pode aumentar a captação do Chi e manipulá-lo de diversas maneiras, podendo ser utilizado nas mais variadas artes como a Acupuntura, Feng Shui e as Artes Marciais. Você já assistiu a uma exibição de kung fu onde um praticante entorta grossas lanças de ferro no pescoço um em alguma outra parte sensível do corpo sem sofrer nenhum arranhão? Esta é uma demonstração de Chi Kung, e segundo os taoístas, uma demonstração da capacidade do praticante de controlar seu próprio Chi.


Yin/Yang (Yin Yang)

Essa dualidade de forças é bastante conhecida, ou parece ser. Existem incontáveis trabalhos na internete ou nas livrarias rotulando quase todas as coisas do universo em Yin ou Yang. Mas nem tudo funciona assim. Os conceitos de Yin e Yang são relativos, isto é, dependem de seu referencial. Algo pode ser Yin em relação a X e Yang em relação a Y. Como a água, por exemplo: ela é Yin ou Yang? Em relação ao gelo é Yang mas em relação ao vapor, é Yin.

O que temos que ter sempre em mente é que elas são complementares e não-excludentes, ou seja, onde existe uma necessariamente existe a outra. Yang simboliza forças expansivas, luminosas, quentes, e o Yin simboliza as forças contrativas, obscuras, frias.


Wu Hsing (Wu Xing)

Wu Hsing quer dizer "Os Cinco Movimentos", e constituem uma das bases da filosofia taoísta. Este conceito é mais conhecido popularmente como "Cinco Elementos", embora essa denominação esteja incorreta. Os primeiros ocidentais que tomaram conhecimento deste conceito o compararam com os quatro elementos primordiais dos alquimistas europeus, que julgavam todas as coisas formadas por uma combinação de terra, ar, água e madeira. Na verdade, o Wu Hsing trata de interações energéticas e suas mutações, simbolizando as mudanças sofridas pelo Chi em diversos momentos.

Para o Tao, quase tudo que existe no Universo pode ser classificado dentro de um tipo de movimento, pois o Chi não permanece nunca parado, por isso chamam-se movimentos e não elementos. Os Cinco Movimentos são madeira, metal, fogo, água e terra. Cada um deles expõe uma maneira do Chi se manifestar. Cada elemento pode interagir com os demais segundo duas maneiras principais: o Ciclo de Criação e o Ciclo de Controle. O Ciclo de Criação consiste, por exemplo, na madeira gerando fogo, quando é queimado, ou na água gerando madeira, porque sem ela as raízes não poderia sobreviver a a árvore (madeira) morreria. Um exemplo de manifestação do Ciclo de Controle seria a água controlando o fogo, já que ela o apaga, ou o metal controlando a madeira, porque pode cortá-la.


Pa Kua (Ba Guá)


“Pa” em chinês significa "oito" e “Kua” é um tipo de desenho, que no caso do I Ching, que é parte do conjunto de artes do taoísmo, pode ser "Trigrama" ou "Hexagrama". Esse desenho, que existe em duas versões principais (Céu Anterior e Céu Posterior) representa "circuitos" energéticos definidos segundo a interação das energias Yin e Yang e admite diversas interpretações. Um estudo mais aprofundado exigiria uma abordagem do I Ching, a ser realizada pelo Arte das artes num futuro próximo.

Hoje é moda falar em "Feng Shui", e muitas vezes se vê em revistas ou livros a utilização de um octógono nos "cantinhos" da casa a serem melhorados, chamando-o de Ba-Guá. A verdade é que o Ba-Guá é o conjunto dos oito trigramas dispostos em uma forma determinada. Se não tiver os trigramas, não é Ba-Guá. - Trata-se simplesmente de um desenho geométrico de oito lados, um "octógono".

***

"A bondade sublime é como a água. A água, na sua bondade, beneficia os dez mil seres sem preferência. Permanece nos lugares desprezados pelos outros, por isso assemelha-se ao Caminho. Vivam com bondade na terra; pensem com bondade, como um lago. Convivam com bondade, como irmãos. Falem com a bondade de quem tem palavra. Governem com a bondade de quem tem ordem. Realizem com a bondade de quem é capaz. Ajam com bondade todo o tempo. Não disputem, assim não haverá rivalidade" - Tao Te Ching, capítulo 8


Fontes e referência:
Profº Gilberto Antônio Silva
Taoísmo.Org
Longevidade.Net
Grupo Artes Taoístas
Sociedade Taoísta do Brasil



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O Tao

O Tao ou Dao é, ao mesmo tempo, o caminho, o caminhante e o ato de caminhar. Filosoficamente, pode ser interpretado como o Absoluto. É uma tradição espiritual milenar de origem chinesa, desenvolvida e praticada por inúmeros mestres ao longo dos tempos. Possui duas vertentes principais de pensamento religioso. - Uma destas concentra-se na meditação metódica sem rituais, subsistindo de maneira geral como uma ordem filosófica. A outra vertente, mais ortodoxa, atribui importância fundamental aos rituais, à renovação cósmica e ao controle espiritual.

Da observação das leis da natureza, os mestres do taoísmo concluíram que tudo possuía uma identidade proveniente de uma única fonte, que chamaram “Tao”. O significado literal da palavra é “Caminho, Trilha, Estrada”. O Tao, enquanto caminho de vida a ser seguido, é o principal conceito do Taoísmo. A libertação plena da alma estaria no retorno do homem ao Tao. E segundo as escolas taoístas, os principais meios para retornarmos ao Tao seriam a meditação, a vida em harmonia e o desapego do mundo material. Os taoístas atribuem extrema importância à capacidade de entender e “ver” a essência de todas as coisas. Um dos símbolos principais do taoísmo é bastante famoso entre os ocidentais: a representação circular do Yin e do Yang, o equilíbrio e a complementaridade entre as forças naturais opostas, em perfeita harmonia.

As raízes do taoísmo surgem com os antigos panteístas chineses e as crenças xamânicas. A atual forma foi criada por Lao-Tsé durante o Período dos Estados Guerreiros e se tornou uma religião organizada no século 5 dC. Seu texto fundamental é o Dao De Jing, ou Tao Te Ching, que significa "O Livro do Caminho e da Virtude" (segundo tradução do professor Wu Jyn Cherng, da Sociedade Taoísta do Brasil). - Originalmente escrito por Lao-Tsé, reflete o caminho para a humanidade eliminar o conflito e o sofrimento. Na verdade, o conceito de "caminho correto" do Tao é um elemento fundamental recorrente em todas as tradições filosóficas chinesas, entre elas o Confucionismo.

Os taoístas acreditam que o homem deve viver em harmonia com a natureza por meio do Tao; a idéia básica é a de uma grande harmonia cósmica. As crenças taoístas ressaltam a auto-desenvolvimento, a liberdade e a busca da imortalidade. O Taoísmo é fortemente influenciado pela religião popular tradicional chinesa, e os deuses taoístas são na verdade representações de grandes personagens históricos que demonstraram poderes excepcionais em vida.

Entre as divindades taoístas, destacam-se:

O Imperador Jade - Considerado o soberano supremo de todas as divindades chinesas, teria criado a humanidade a partir do barro. Os taoístas rezam para ele para obter boa sorte e longevidade em seu aniversário, e também na noite do Ano Novo Chinês.

Cai Shen - O deus Chinês da prosperidade e da riqueza é amplamente cultuado pelos chineses – por razões óbvias. Acredita-se que Cai Shen teria sido um general da Dinastia Qin, e é representado por um tigre negro.

Estátua do Imperador Jade (Templo de Shan Tun)

A cronologia da origem das bases filosóficas taoístas ainda permanece obscura, podendo ser bastante anterior a Lao Tzu, considerado o fundador da religião. Ele, na verdade, foi responsável por um grande impulso à religião sobre a qual já existiam alguns conceitos primitivos.

O taoísmo propõe a restauração do estado pleno de vida e consciência, o caminho que leva à perfeição, ou seja, o Tao. Para isso utilizam-se vários meios, como as práticas que promovem a boa saúde física e mental, o estudo dos clássicos escritos pelos grandes instrutores do passado, os métodos místicos para a restauração da ordem interna e, fundamentalmente, a meditação, como caminho de transformação, auto-aprimoramento e elevação espiritual.

Os meios para o retorno ao Tao (Dao) englobam as Artes (Shù), a Lei (Fa) e o Caminho (o Tao em si). As artes procuram restaurar o equilíbrio energético do indivíduo através de conhecimentos - de saúde, de oráculos, do destino, da leitura da natureza e do homem. O Fa é o conjunto de métodos místicos que restauram a ordem, a organização e a “lei interior e exterior” através da força espiritual. A meditação é o caminho espiritual por excelência.

Por ter uma origem muito antiga, o taoísmo apresenta muitas ramificações. Seus conhecimentos, manifestados através de várias escolas taoístas, poderiam, de modo geral, ser classificados segundo cinco vertentes:

1) Dān Ding - significa literalmente Caldeirão e Elixir; é a que nós chamamos no Ocidente de Escola da Alquimia;

2) Fú Lù - “Fú” significa, literalmente, Correspondência, e “Lù” quer dizer Ordenar. Ou seja, é a Escola da Correspondência e da Ordenação, referindo-se à Escola Ritualística e da Lei Cósmica;

3) Jīng Dian - literalmente significa “Textos Clássicos”. São escolas que enfatizam mais os estudos clássicos; podem ser chamadas de Escolas Filosóficas ou Escolas de Estudos filosóficos do Taoísmo;

4) Jī Shàn - significa Acumulação da Bondade: aplica os conhecimentos taoístas em benefício da sociedade, do indivíduo, da vida; é a escola voltada para a doação e para as práticas taoístas na vida quotidiana;

5) Zhān Yuàn - significa Oráculos e Experiências, ou seja, Yi Jing (I Ching), Astrologia, Artes Marciais, Acupuntura, incluindo conhecimentos de cura através das ervas da medicina taoísta e diversos trabalhos energéticos.

O incenso é um elemento constante nos rituais taoístas. Quanto à organização clerical, o Taoísmo é constituído de estrutura monástica e sacerdotal. Os escritos de Chuang Tzu (369-286 a C), além do Tao Te Ching, também são considerados sagrados.

"Os medíocres vivem lúcidos;
Só eu aparento estar confuso.
Os medíocres vivem lúcidos;
Só eu introspectivo;
Indefinido como uma noite silenciosa.

As pessoas todas têm seus egos;
Só eu o ignoro, considerando-o precário."


Tao Te Ching, capítulo 20


Continua


Fontes e referência:
Professor Wu Jyn Cherng
Sociedade Taoísta do Brasil
Tao Living
Discovery Channel



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terça-feira, 1 de abril de 2008

Budismo - conclusão


As Quatro Nobres Verdades são o fundamento do budismo e entender o seu significado é essencial para o autodesenvolvimento e o alcance das Seis Perfeições, que nos farão atravessar o mar da imortalidade até o Nirvana.

As Seis Perfeições do budismo são: #1: Caridade; - #2: Moralidade; - #3: Paciência; - #4: Perseverança; - #5: Meditação; - #6: Sabedoria.

A prática dessas virtudes ajuda a eliminar ganância, raiva, imoralidades, confusão mental, estupidez e visões incorretas. As Seis Perfeições e o Nobre Caminho Óctuplo nos ensinam a alcançar o estado no qual todas as ilusões são destruídas, para que a Paz e a Felicidade possam ser definitivamente conquistadas.


Para ser budista

Quem deseja tornar-se budista, deve receber o refúgio na chamada Jóia Tríplice, como um comprometimento com a prática dos ensinamentos de Buda. A Jóia Tríplice consiste em: Buda, Dharma e Sangha.

Budistas laicos podem apenas fazer o voto de praticar cinco preceitos em suas vidas diárias, que são: #1: Não matar; - #2: Não roubar; - #3: Não ter conduta sexual inadequada; - #4: Não mentir; - #5: Não se intoxicar (não usar drogas nem comer alimentos inadequados).

O preceito de não matar e aplica principalmente a seres humanos, mas deve ser estendido a todos os seres sencientes. É por isso que a Sangha e muitos budistas devotos são vegetarianos.

Muitos budistas montam um altar em algum canto tranquilo de suas casas para a recitação de mantras e a meditação diária. O uso de imagens budistas em locais de culto deve ser visto como simbologia. - Os mestres enfatizam o fato de que essas imagens em templos ou altares domésticos servem apenas para nos lembrar a todo momento das respectivas qualidades daquele que representam. Fazer oferendas e reverências são manifestações de respeito e veneração aos Budas e Bodhisattvas.

“A vida humana é preciosa, e, no entanto, nós a conseguimos. O Dharma é precioso, e, no entanto, nós o ouvimos. Se não nos cultivarmos nesta vida, teremos essa chance novamente?” – Venerável Mestre Hsing Yün (Templo Zu Lai)


Alguns termos típicos do budismo:

Boddhisattva – Um ser iluminado que fez o voto de servir generosamente a todos os seres vivos com bondade amorosa e compaixão para aliviar sua dor e sofrimentoe levá-los ao caminho da iluminação. Os Boddhisattvas mais populares no budismo chinês são Avalokitesvara, Ksitigarbha Samantabhadra e Manjusri.

Buda Amithaba – Buda da Luz e Vida Infinitas – É associado com a Terra Pura do Ocidente, onde recebe seres cultivados que chamam por seu nome.

Buda Maitreya – O "Buda Feliz" e o "Buda do Futuro" – Depois da iluminação de Sakiamuni, acredita-se que o próximo Buda a visitar o nosso planeta seria este. Trata-se daquele gordinho sorridente, sempre sentado e que nós vemos representado sob a forma de estatuetas, chaveiros, etc.

Mudra – São os gestos das mãos que geralmente se vê nas representações dos Budas, e significam um tipo de comunicação não-verbal. Cada mudra (lê-se 'mudrá') tem um significado específico. Por exemplo, as imagens de Amithaba o apresentam com a mão direita erguida com o dedo indicador tocando o polegar e os outros três dedos estendidos para cima = simboliza a busca pela iluminação. A mão esquerda, mostra um gesto similar, mas apontando para o chão, simbolizando a liberação de todos os seres sencientes.

O símbolo da suástica (swastika) foi auspicioso na Índia, Pérsia e Grécia, simbolizando o sol, o relâmpago, o fogo e o fluxo da água. Foi usado pelos budistas por mais de dois mil anos para representar a virtude, a bondade e a pureza do insight de Buda na hora da Iluminação. Isso muito antes de Hitler tê-lo escolhido para simbolizar o terceiro reich e a superioridade da raça ariana.


Características singulares do budismo

O Karma

O karma é um ensinamento budista fundamental. E é um dos mais complexos e freqüentemente mal compreendidos. "Karma" é um termo do sânscrito que significa ação ou ato. Qualquer ação física, verbal ou mental pode ser chamada de karma. Karma significa, portanto, uma resposta automática a quaisquer de nossos atos. O budismo vale-se de uma simbologia muito própria para explicar a ação do karma no mundo. Diz que as sementes de karma positivo e negativo encontram-se armazenadas no “alaya-vijnana”, o “armazém da consciência”. Tais sementes manifestam-se quando surgem as condições apropriadas. As manifestações dessas sementes são os frutos do karma. Aqueles que alcançam o Samadhi (Liberação do mundo dos fenômenos através da meditação) podem libertar-se da ação do karma. - O karma desses seres denomina-se “karma imóvel”. Os frutos do karma podem amadurecer em momentos diferentes na vida de uma pessoa, por duas razões: a primeira é a força da causa, que determina quando o efeito surgirá. A segunda razão está no fato de que as condições necessárias podem demorar mais ou menos a se manifestar. Diz um ditado budista que “Todos os atos, bons ou maus, geram conseqüências. É só uma questão de tempo até se manifestarem".

Karma significa a Lei de causa e efeito, que é inexorável. Uma determinada causa tem que resultar, inevitavelmente, em um determinado efeito: não há fuga nem exceção. Aqui está uma diferença primordial entre cristianismo e budismo. - A inexorável Lei do Karma budista exclui a possibilidade do Perdão Incondicional, que é a base da doutrina cristã. Por isso alguns monges beneditinos e franciscanos têm o seu próprio ditado: “O doutrina do Buda é o mais perto possível que o homem consegue chegar de Deus. Mas a doutrina do Cristo é a dádiva divina que permite ao homem se tornar uno com Deus, agora, independente dos méritos”. - Isto é: errar é humano e não há quem não erre. Mas o perdão é divino, e se não fosse por ele, nós nunca, jamais conseguiríamos escapar da lei de causa e efeito, porque a cada nova vida cometeríamos mais e mais erros, inevitavelmente, acumulando mais e mais karma negativo. Seria simplesmente impossível nos libertarmos deste círculo vicioso sem fim. A única solução é o perdão, puro e simples, que pressupõe o Amor maior que a Justiça, independente dos nossos erros.

Não há como negar, porém, que a Lei de Causa e Efeito é algo real, e que aquilo que os budistas chamam de karma tem fundamentos bem sólidos. As diferenças estão na crença de que ela não possa ser quebrada ou revertida, sob nenhuma hipótese. No budismo, existem diferentes categorias em que se classifica o karma: individual ou coletivo, por exemplo – O karma acumulado por uma única pessoa (individual) resulta em determinada força; o karma acumulado por centenas ou milhares de pessoas (coletivo) resulta numa força maior, enquanto o karma de toda uma nação, de milhões ou bilhões de pessoas, resulta em conseqüências catastróficas. O que acontece com tantos países e o estágio que atravessa atualmente o nosso planeta, devido a nossa estupidez, seria um ótimo exemplo de karma negativo...


A Gênese Condicionada

Outra característica singular do budismo, A Gênese Condicionada, se fundamenta em três princípios básicos:

O primeiro diz que “Todos os Efeitos Surgem de Causas”. - É o "Hetupratyaya" ('Causa e Condição'), que está profundamente relacionado com a noção do karma, e que trata das causas e condições que regem a Vida e a existência.

O segundo princípio da Gênese Condicionada reside no fato de que "Todos os Fenômenos Existem em Consonância com a Verdade”. A Verdade “é” desde sempre: “A Verdade era originalmente, é inevitavelmente e é universalmente”. Isto quer dizer que a Verdade é, independente do que pensamos, do que escolhemos ou daquilo em que preferimos acreditar. Ela simplesmente é. Não pode ser modificada por discussões e não precisa ser descrita em palavras. Nunca surgirá um fenômeno que não esteja de acordo com a Verdade.

O terceiro princípio diz que “o Surgimento da Existência Depende de Sunyata”, que é outra característica singular do budismo.


Sunyata

Sunyata é um conceito muito difícil de ser compreendido pelas mentes ocidentais. “Sunyata” quer dizer “Vazio”. Mas não significa o nada absoluto. Quer dizer que os princípios do Dharma não têm uma natureza específica, e, portanto, são descritos como vazios. Além disso, na visão budista, os elementos físicos são fundamentalmente vazios. A natureza de todos os eventos e fenômenos deste mundo e deste Universo foram descritos pelos Budas como vazios, sem existência verdadeira. Sunyata pode ser percebido através da existência ilusória da continuidade, da natureza ilusória dos ciclos, da natureza ilusória das combinações, da natureza ilusória da relatividade, da natureza ilusória das aparências, da natureza ilusória dos termos (nomes) e da natureza ilusória dos diferentes pontos de vista. Como se percebe, é um conceito profundíssimo, que exige muito estudo e meditação.


Os três Selos do Dharma

#1: Todas as coisas condicionadas são impermanentes;

#2: Nenhum Dharma tem individualidade substancial;

#3: O Nirvana é a paz perfeita.


Fonte e referência
"What is Buddhism?" - Fo Guang Shan Brasil - IBPS Brasil - International Buddhist Association of Queensland - Chung Tian Temple


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Budismo


O budismo é uma filosofia de vida que procura se basear integralmente nos ensinamentos do Buda para todos os seres, que, segundo a fé budista, revela a verdadeira face da Vida e do Universo. Quando pregava, o Buda não pretendia convencer as pessoas, mas iluminá-las. É uma religião de sabedoria, onde conhecimento e inteligência predominam; uma religião prática, devotada a condicionar a mente inserida em seu cotidiano, de maneira a levá-la à paz, serenidade, alegria, sabedoria e liberdade perfeitas. Também é chamado de “budismo humanista”.

Logo após a morte de Sakiamuni, foi realizado o primeiro concílio budista (em Rajagrha (hoje Rajgir, no estado do Bihar, na Índia), que reuniu 500 membros, a fim de coletar e organizar os ensinamentos do Buda, o Dharma. Este se tornou o único guia e a fonte de inspiração da Sangha (comunidade budista). Seus discursos são chamados de Sutras. Mas foi no Segundo Concílio Budista (de Vaisali), realizado algumas centenas de anos após a morte do Buda, que as duas grandes tradições, hoje conhecidas com "Theravada" e "Mahayana", começaram a se formar. Os theravadins resolveram seguir o cânone páli, enquanto os mahayanistas escolheram os sutras que foram escritos em sânscrito como base dos seus estudos.

As duas principais tradições, apesar de compartilharem certos princípios essenciais, possuem métodos diferentes de buscar a iluminação. A linha “Theravada”, ou “Pequeno Veículo”, enfatiza o alcance da iluminação através do próprio esforço. É comum no Sri Lanka, Tailândia, Burma, Laos, Camboja e Malásia. Nesta tradição o nível de iluminação é a condição de "Arahat" - um ser em cuja a mente não surgem fatores insalubres, que segue um caminho de auto poder, não aceitando e tentando esmagar sua Natureza.

A linha “Mahayana”, ou “Grande Veículo”, busca não só a auto-iluminação, mas também enfatiza o servir a todos os seres sescientes. Os "bodhisattvas" (seres iluminados da tradição Mahayana) levam adiante, incansavelmente, a missão de salvar o Universo. Seus atributos principais são o amor, compaixão, generosidade, sabedoria e uma ilimitada capacidade de servir aos outros. Mahayana é comum na China, Mongólia, Coréia, Tibete e Japão. Dentro dessa tradição há muitas escolas, incluindo o budismo C’han (China), Zen (Japão) e Tântrico (Tibete).

Os ensinamentos do Buda foram transmitidos pela primeira vez, fora da Índia, no Sri Lanka, durante o reinado do rei Asoka (272-232 aC). Na China, a História registra que dois missionários budistas da Índia chegaram na corte do imperador Ming no ano 68 dC e lá permaneceram para traduzir textos budistas. Durante a dinastia Tang (602-664 dC) um monge chinês, Hsuan Tsang, cruzou o deserto Ghobi até a Índia, onde reuniu e pesquisou sutras budistas. Ele retornou à China dezessete anos depois com grandes volumes de textos budistas e a partir de então passou muitos anos traduzindo-os para o chinês.

Finalmente, a fé budista se espalhou por toda a Ásia, enquanto, ironicamente, praticamente se extinguia na Índia até 1300 dC. Os chineses introduziram o budismo no Japão. A tolerância, o pacifismo e a equanimidade promovidos pelo budismo influenciaram significativamente a cultura asiática. Mais recentemente, muitos países ocidentais têm demonstrado considerável interesse pelas religiões orientais, e centenas de milhares de pessoas vêm adotando os princípios do budismo.


Karma

Uma pessoa é a combinação de matéria e mente. A mente é a combinação de sensação, percepção, idéia e consciência. O corpo físico – na verdade, toda a matéria na natureza – está sujeito ao ciclo de formação duração, deterioração e cessação. O Buda ensinou que a interpretação da vida através de nossos seis sensores (olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente) não é mais do que uma ilusão. Quando duas pessoas experimentam um mesmo acontecimento, a interpretação de uma pode levar à tristeza, enquanto a da outra pode levar à felicidade. É o apego às sensações, desenvolvidas nesses seis sentidos, que resulta em desejo e ligação passional, ou seja, apego.

Os budistas acreditam que as condições dos nascimentos das pessoas estão associados à consciência proveniente das memórias e do Karma herdados de vivências passadas. “Karma” é uma palavra que significa, no sânscrito, “ação”, “trabalho” ou “feito”. Qualquer ação física, verbal ou mental, realizada com intenção, pode ser chamada de karma. Assim, boas atitudes poderiam produzir karma positivo e más ações karma negativo.

Há seis tipos de existência: devas (deuses), asuras (semideuses), humanos, animais, pretas (espíritos famintos) e seres do Inferno. Sim, dentro da tradição budista, os deuses estão sujeitos às mesmas limitações humanas. Cada um desses seis reinos está sujeito às dores do nascimento, da doença, do envelhecimento e da morte. O renascimento em alguma dessas formas superiores ou inferiores é determinado pela qualidade dos atos do indivíduo, o karma.


Nirvana

Através da prática diligente, do proporcionar compaixão e bondade amorosa a todos os seres vivos, do condicionamento da mente para evitar apegos e eliminar karma negativo, os budistas acreditam que finalmente alcançarão a Iluminação. Quando isso ocorre, eles são capazes de ascender ao estado de Nirvana. O Nirvana não é um local físico, mas um estado de consciência suprema de perfeita felicidade e libertação.


Sofrimento

O Buda Sakyamuni ensinou que uma grande parcela do sofrimento em nossas vidas é auto-infligido, oriundo de nossos pensamentos e comportamento, os quais são influenciados pelas habilidades de nossos seis sentidos. Nossos desejos, - por dinheiro, poder, fama, bens materiais... – e nossas emoções – raiva, rancor, ciúme, inveja... – são fontes de sofrimento causado por apego e por essas sensações negativas. Nossa sociedade tem enfatizado consideravelmente a beleza física, a riqueza material e os status social, desde tempos imemoriais. Nossa obsessão com as aparências e com o que as outras pessoas pensam a nosso respeito são também fontes de sofrimento.

Portanto, o sofrimento está primariamente associado com as ações da nossa mente. É a ignorância que nos faz tender à avidez, às vontades doentias e à ilusão. Como conseqüência, praticamos maus atos, causando diferentes combinações de sofrimento. O budismo nos faz vislumbrar maneiras efetivas e possíveis de eliminar todo o nosso sofrimento, e, mais importante, de alcançar a libertação do ego.


As Quatro Nobres Verdades e o Nobre Caminho Óctuplo

As quatro nobres verdades foram compreendidas pelo Buda em sua Iluminação. Pra erradicar a ignorância, que é a fonte de todo o sofrimento, é necessário entender As Quatro Nobres Verdades, caminhar pelo Nobre Caminho Óctuplo e praticar as Seis Perfeições (Paramitas).


As Quatro Nobres Verdades são:

#1: A Verdade do Sofrimento

A vida é sofrimento. A vida está sujeita a todos os tipos de sofrimento, sendo os mais básicos o próprio nascimento (já chegamos nesse mundo com dor e medo), o envelhecimento, doença e morte. Ninguém, independente de quaisquer condições, está isento deles.

#2: A Verdade da Causa do Sofrimento

A ignorância leva ao desejo e à ganância, que, inevitavelmente, resultam em sofrimento. A ganância produz apego, uma das raízes do sofrimento.

#3: A Verdade da Cessação do Sofrimento

A cessação do sofrimento advém da eliminação total da ignorância e do desapego à ganância e aos desejos, alcançando um estado de suprema bem-aventurança ou Nirvana, onde todos os sofrimentos são extintos.

#4: A Verdade do Caminho que leva à Cessação do Sofrimento

O caminho que leva à cessação do sofrimento é o Nobre Caminho Óctuplo.


O Nobre Caminho Óctuplo

#1: Compreensão Correta

Conhecer as Quatro Nobre Verdades de maneira a entender as coisas como elas são.

#2: Pensamento Correto

Desenvolver as nobres qualidades da bondade amorosa e da aversão a prejudicar os outros.

#3: Palavra Correta

Abster-se de mentir, falar em vão, usar palavras ásperas ou caluniosas.

#4: Ação Correta

Abster-se de matar, roubar e ter conduta sexual indevida.

#5: Meio de Vida Correto

Evitar qualquer ocupação que prejudique os demais, tais como o tráfico de drogas ou matança de animais.

#6: Esforço Correto

Praticar autodisciplina para obter o controle da mente, de maneira a evitar estados de mente maléficos e desenvolver estados de mente sãos.

#7: Plena Atenção Correta

Desenvolver completa consciência de todas as ações do corpo, fala e mente para evitar atos insanos.

#8: Concentração Correta

Obter serenidade mental e sabedoria para compreender o significado integral das Quatro Nobres Verdades.


"Aqueles que aceitam este Nobre Caminho como um estilo de vida viverão em perfeita paz, livres de desejos egoístas, rancor e crueldade. Estarão plenos do espírito de abnegação e bondade amorosa" - Venerável Mestre Hsing Yün.


Fonte:

"What is Buddhism?" - Fo Guang Shan Brasil - IBPS Brasil - International Buddhist Association of Queensland - Chung Tian Temple


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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Mahavira

Templo jaina - Índia

O termo "Mahavira"* é um título dado a Nataputra Vardhamana, o reformador do jainismo e o último dos vinte e quatro "Tirthankaras" ('Construtores do Caminho'). Mahavira é também conhecido com os nomes de Vardhamana (o que sempre avança), e Sanmati. Segundo a tradição jaina ele nasceu em 599 aC em Kshatriyakundagrama ou Kundapura, perto de Vaishali, na Índia, e viveu até o ano de 527 aC, em Pavapuri.

Mahavira pertencia à casta guerreira (kshatriya), sendo o seu pai o rei Siddharta, líder de um grande clã, e a sua mãe Devananda, que pertenceria à casta dos brâmanes - outras tradições apresentam outros nomes para a sua mãe, como Trishala, Videhadinna ou Priyakarini, e colocam-na na casta guerreira. - Seus pais eram ambos seguidores do grande Parshva. Devananda era a irmã do rei Chetaka de Vaishali, a capital de uma federação onde o Jainismo de Parshva era popular.

Com a prosperidade do reino do seu pai, Mahavira cresceu num ambiente de luxo, entre riquezas e fartura principescas. Pela sua coragem e auto controle nas circunstâncias mais difíceis, foi-lhe dado o título de Mahavira, que significa "grande herói". Ele mostrou a sua coragem logo em criança, realizando ainda pequeno feitos como montar um elefante pelo dorso e agarrar uma imensa serpente e atirá-la para longe. Recebeu, provavelmente, a educação de um aristocrata em filosofia, literatura, ciências militares e administrativas, bem como nas artes.

Mahavira casou com a princesa Yasoda e tiveram uma filha, Anojja. Quando ele tinha por volta de 28 anos, morreram os seus pais. Quis renunciar ao mundo; mas, para agradar ao irmão mais velho, concordou em viver em casa durante mais dois anos, durante os quais, praticou rigorosa auto disciplina. No último ano de sua estada em sua casa, distribuiu todos os seus bens e praticou a caridade todos os dias.

Aproximadamente aos 30 anos de idade, abandonou de vez todas as suas posses para partir em busca da Verdade. Renunciou a toda sua riqueza, propriedades, mulher, filho, parentes e prazeres. No jardim da cidade de Kundapura, aos pés de uma árvore ashoka, sem mais ninguém estar presente, e depois de permanecer dois dias sem água, tirou todas as roupas, cortou seu cabelo e colocou uma simples peça de tecido sobre o ombro. Como se percebe, desde o nome do seu pai, tudo em sua história se assemelha aos acontecimentos da vida do Buda histórico, Sidarta Gautama (o Buda Sakiamuni), e o mais impressionante é que os dois foram contemporâneos: viveram ambos numa época em que as práticas religiosas tradicionais começavam a entrar em crise. Em particular, o sacrifício de animais e o sistema de castas eram postos em cheque, e tanto Mahavira quanto o Buda os rejeitaram.

Logo após deixar a sua vida confortável para trás, o Mahavira se entregou à rigorosas práticas ascéticas na esperança de alcançar a iluminação. Durante um ano usou roupa, mas depois passou a andar nú, como sinal de absoulta renúncia dos valores mundanos. Deixou que insetos o atacassem; sofreu ataques físicos e verbais; dormiu em locais inóspitos; praticou jejuns extremos; num período total de doze anos. Teve também particular cuidado em não fazer mal a qualquer forma de vida, desenvolvendo assim a teoria de "Ahimsa" ('Não-Violência'). É por isso que até hoje alguns monjes jainas (os da ordem svetambra) usam uma máscara de tecido usada sobre a boca ('mukhavastrika'), para não ingerirem, involuntariamente, pequenos insetos. Isso seria causar a morte de um ser vivo, o que geraria karma ruim.

Mahavira fez votos de negligenciar o seu corpo e sofrer sem resistência a todas as dificuldades, tanto as espirituais quanto as mundanas. Já antes de se casar, havia obtido os três primeiros níveis do conhecimento - conhecimento dos sentidos, conhecimento dos estudos e conhecimento da intuição - e diz-se que atingiu também o quarto nível do conhecimento, o qual inclui os movimentos psicológicos de todos os seres senscientes (que dispõe de consciência).

Mahavira tornou-se um sem-teto. Em certa ocasião, um pedinte brâmane, pediu-lhe uma esmola; ele, que já não tinha mais nada, deu-lhe metade da vestimenta do seu ombro. Treze meses depois, tinha oferecido tudo o que restava da sua roupa.

Após alguns meses de contemplação, Mahavira foi para um ashram em Moraga, onde foi convidado pelo abade, que fora amigo do seu pai, a permanecer ali durante os quatro meses da estação das chuvas. Ficou numa cabana com uma cobertura de palha. O verão tinha sido tão quente que a erva da floresta tinha desaparecido, e o gado começou a comer as cabanas de palha dos ascetas. Os outros ascetas espantaram o gado, mas Mahavira deixou os animais comerem a cobertura da sua cabana. Os ascetas então queixaram-se ao abade e Mahavira decidiu abandonar o ashram, passando a estação das chuvas na vila de Ashtika. Refletindo nessa experiência, resolveu seguir a rígida disciplina de nunca viver na casa de pessoas desagradáveis, mantendo o silêncio, comendo na sua mão como se fosse um prato e não mostrando delicadeza ou prestando honra aos donos das casas.

Mahavira permanecia habitualmente com o corpo rígido como uma estátua (kayostarga). Simultaneamente, praticava a meditação e austeridades severas. No verão meditava ao sol ou caminhava nos campos ardentes pelo calor extremo, enquanto no inverno meditava nu ao ar livre. Caminhava devagar, mantendo cuidadosamente os olhos no chão, para evitar pisar qualquer inseto. Vivia em casas abandonadas, crematórios, jardins ou qualquer lugar isolado.

A pouca comida, conseguia-a mendigando. Se via outro pedinte, animal ou ave esperando pela comida de uma casa, seguia silenciosamente para a casa seguinte. Em determinada ocasião, jejuou por 30 dias consecutivos. Durante longo período, sua vida foi cheia de aventuras, e o sofrimento era uma constante, mas ele manteve sua postura firme e meditativa.

Após o décimo segundo ano procurando a mais alta iluminação, Mahavira meditou durante seis meses sentado em quietude, mas falhou. Fazia penitência num cemitério, quando Rudra e a sua mulher o interromperam. Finalmente, no décimo terceiro ano de uma vida ascética, enquanto meditava e após dois dias e meio de jejum de água, Mahavira obteve o nirvana e a mais alta consciência, chamada "Kevala", ou "Sabedoria Absoluta". Diz a tradição que a primeira mensagem de Mahavira após a sua iluminação está registada no texto "Majjhima Nikaya":

"Eu sou toda a Sabedoria e todo o visível,
possuidor de um conhecimento infinito.
Tanto esteja a caminhar ou quieto,
tanto esteja a dormir, como acordado,
o supremo conhecimento e a intuição
estão presentes em mim – constante e continuamente.

Existem, oh Nirgranthas, alguns atos pecaminosos
vividos no vosso passado
os quais devem agora abandonar,
por esta forma extrema de austeridade.
Agora e aqui, vão viver reduzidos
a observar os vossos atos, discursos e pensamentos.
Isso irá trabalhar como não produção de karma para o futuro.

Então, pela exaustão da força dos atos passados
através da penitência e da não acumulação de novos atos,
podem estar certos da paragem da maldição futura
e do renascer a partir de tal parar,
da destruição dos efeitos kármicos,
daí, da destruição da dor,
daí, da destruição dos sentimentos mentais,
e daí, da completa libertação
de todos os tipos de dor."


Um dia apareceram dois monarcas e nove escolásticos, e argumentaram com Mahavira - acabaram convertidos. A tradição Jaina diz que estes 11 trouxeram 4.400 discípulos para a nova fé. Aos poucos, Mahavira começou a converter toda a população com os seus discursos, incluindo os nobres daquela vasta região.

Depois disso, o Mahavira dedicou todos os anos restantes da sua vida a ensinar sua doutrina.


Doutrina

"Ahimsa" - Não Violência - não causar mal ou sofrimento a qualquer ser (mesmo vermes ou insetos);

"Satya" - Verdade - evitar a mentira;

"Asteya" - Honradez, Honestidade - não se apropriar do que não foi dado;

"Brahmacharya" - Castidade - abster-se das relações sexuais;

"Aparigraha" - Desapego - não se apegar às posses materiais, não ter apego pelas coisas mundanas.

Mahavira viveu toda sua vida imerso na autocontemplação. Ele soube que os prazeres do mundo são transitórios, e que eles reforçam as letras do karma. Ele soube que a renúncia conduziria ao alcance da eterna bem-aventurança. Mahavira faleceu aos 72 anos. O seu primeiro discípulo, Indrabhuti Gautama, morreu ao amanhecer do dia seguinte. Seus seguidores posteriormente organizado a religião jaina nos seus moldes actuais. - "Jaina" vem de "jina", que significa vitorioso ou conquistador.

As idéias metafísicas essenciais do Jainismo, estabelecidas por Mahavira, são consituídas por nove princípios cardinais:

# O Universo está dividido no que é vivo e consciente (jiva) e na matéria inerte (ajiva).

# As Jivas (almas) são tanto apanhadas pelo karma (ação) na roda de renascimentos (samsara) ou libertadas (mukta) e aperfeiçoadas (siddha). Apesar do seu número ser infinito, as jivas são individuais e cada uma contêm um potencial infinito de consciência, poder e benção.

# "Ajiva", a matéria, é feita de partículas eternas em tempo e espaço que podem ser alterados e parados.

# "Ashrava" - "jiva", a alma, é atraída para os objetos dos sentidos pelo princípio de Ashrava, que leva ao sofrimento (bandha) da alma pela ação do karma.

# "Punya", a virtude;

# "Papa", o vício;

# "Samvara', a alma evita "ashrava" (o 'influxo kármico') pela contemplação e a auto disciplina da mente, fala e corpo. Isto leva, eventualmente, a

# "Nirjara", a eliminação do karma;

# "Moksha", a libertação, é obtida. Na morte da última vida, o "Nirvana" (literalmente “ser extinto”) explica o fim da existência mundana da alma, a qual, então, se eleva ao mais alto Céu.


“Todos os objetos do mundo são passageiros como o mundo. Onde pode alguém conseguir a felicidade neste mundo, o qual é a morada da doença, do sofrimento, da dor e da morte?” - O Mahavira


*Nota: todos os termos em língua estrangeira deste post provém do sânscrito.


Fontes e bibliografia:
"Lord Mahavir and Jain Religion" - Pravin K. Shah
Profº Vinay Lal;
Grupo Shunya;
Dharmanet.Com;
Wikipedia revisado.


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