quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Um ponto importante sobre Jesus Cristo

Antes de abraçar a dura tarefa de começar a contar a história de Jesus por aqui, com algumas "novidades" históricas e certas particularidades que acho que serão interessantes para todos, acho importantíssimo abordar um tema muito em moda ultimamente, diretamente relacionado com o tópico. Se eu não falar antes sobre esse assunto, na verdade qualquer coisa que eu vier a falar sobre Jesus vai ficar um pouco sem razão de ser.

Estou falando da nova "modinha" vigente nos meios céticos: afirmar que toda a história que conhecemos a respeito de Jesus não passa de mito. Bem, a verdade é que por muito tempo os ateus ativistas tentaram nos convencer (e se convencer a si próprios, creio eu) que Jesus nunca existiu. - Mas como isso era uma missão realmente inglória (pra não dizer impossível), já que praticamente a totalidade dos historiadores e pesquisadores mais conceituados do nosso planeta reconhece Jesus como um personagem histórico e real (leia a respeito aqui), de uns tempos para cá acharam de dizer que ele existiu sim, mas que a história da sua vida, conforme contada nos Evangelhos, não passa de uma coleção de lendas e fantasias copiadas dos mitos antigos. Existe um filminho colocado no Youtube a esse respeito, intitulado "Zeitgeist", que virou uma espécie de cult cético. Filme esse que ilustra à perfeição os principais argumentos que tentam provar que a história de Jesus não passa de mito. Nele, são feitas várias alegações que, à primeira vista, e principalmente para aqueles que não possuem grande conhecimento de causa (a grande maioria), impressionam. Para quem quiser conhecer o tal filme, aí vai a primeira parte:




Particularmente, adoro essas inciativas dos céticos, porque eles são, ao menos em sua maioria, gente inteligente, acima da média, que se importa em tentar provar os seus pontos de vista com embasamento. - O que é importante e louvável, desde que feito com seriedade e honestidade, virtudes ausentes nesse caso em particular. - Assim, constantemente me trazem desafios novos e interessantes, e acabam me dando motivos para me estabilizar cada vez mais e melhor na minha fé. A cada nova refutação, que eu procuro conhecer a fundo e de fato, para saber se são verdadeiras ou não, acabo descobrindo que não passa de mais um pouco de fumaça, e mais eu confirmo o que já sabia antes. Acho uma delícia prosseguir cada vez mais fundo nessa busca e descobrir sempre a mesma coisa: que quanto mais se tenta derrubar a Verdade, mais sólida ela se mostra.

Segundo os argumentos ateus presentes no filme, dentre os mitos que mais teriam influenciado os evangelistas do Novo Testamento estaria o de Hórus, de 3.000 aC, o deus egípcio do Sol e da Lua, soberano do céu. O filme, pretendendo provar a influência mítica na história que conhecemos de Jesus, registra um resumo (resumido demais, na verdade) da história de Hórus, nos seguintes termos:


"Nasceu a 25 de Dezembro, da virgem Ísis. Seu nascimento foi acompanhado por uma estrela a Leste, seguida por 3 reis em busca do salvador recém-nascido. Era um prodígio quando criança. Aos 30, foi batizado por uma figura chamada Anup e assim começou o seu reinado. Tinha doze discípulos, curou enfermos e andou sobre a água. Era conhecido por vários nomes, como 'Verdade', 'Luz', 'Filho Adorado de Deus', 'Bom Pastor' e 'Cordeiro de Deus'. Traído por Tifão, foi crucificado, enterrado e ressuscitou 3 dias depois."


Sim... E há também menções ao deus Átis, da Frígia, a Krishna, Dionísio e Mithra, o deus persa que foi adotado pelos romanos e convertido em deus-Sol. O autor do filme traça similaridades entre todos estes e Jesus, comparando suas histórias e salientando que "todos eram filhos de virgens que nasceram a 25 de Dezembro, morreram e ressuscitaram e tiveram 12 seguidores".

E agora? Já sei. Depois de ler isso, muita gente deve estar pensando: "Ooohhhh!.. Eu estava tão enganado(a) esse tempo todo!.."... - Reação que eu até acho perfeitamente normal, já que o texto impressiona, sim. À primeira vista. Mas, me responda: você acredita em tudo que lê ou assiste, na TV, na internet, ou mesmo nos livros, sem questionar?

Como meus leitores já sabem, eu gosto de questionamento. Muito. Se todos os buscadores questionassem sempre, não teriam acontecido tantas barbaridades ao longo da nossa História, em nome da religião e de Deus, e não haveria tanto charlatanismo e falsos profetas prosperando em nosso mundo, neste exato momento. Curiosamente, os que mais furiosamente questionam o Cristianismo são os mesmos que docilmente aceitam o tipo de bobagem exposto nesse filme como verdade irrefutável... Como se fosse uma "grande revelação", uma "prova" de que todas as convicções religiosas do Ocidente nos últimos séculos não passa de mito.

Bem, é exatamente para os questionadores que esse blog foi feito. Mas os questionadores de verdade, os que vão fundo, porque esse tipo de mensagem, a do filme, até se parece com um questionamento válido. - Como eu disse, à primeira vista. - Mas não é. Por quê? Simplesmente porque traz informações propositalmente desvirtuadas, e exatamente por isso não pode ser considerado questionamento válido. Questionar não tem nada a ver com má intenção. E mentir ou distorcer a verdade tentando provar um ponto de vista só pode partir de mentes mal intencionadas.

Então vejamos essas alegações todas um pouco mais a fundo, à luz da verdade dos fatos, como convém aos bons buscadores e como é a cara do Arte das artes...


Agora, os fatos

Começarei a minha análise pelo que foi dito a respeito do mito do deus Hórus, que segundo essas argumentações é o que mais traz semelhanças com a história de Jesus e o que teria mais fortemente influenciado o Cristianismo.

Bom, pra começar, segundo a mitologia egípcia legítima, Hórus não nasceu de uma virgem. Nada disso. No antigo Egito o sexo era considerado algo muito positivo e até sagrado. Ísis era a esposa de Osíris (cuja história eu já contei aqui), e os dois mantinham uma vida sexual bem ativa até ele ser assassinado e cortado em pedaços por Seth. Ela começou então uma peregrinação em busca dos pedaços escondidos do corpo de Osíris, episódio conhecido como "Lamentação de Ísis". Por fim conseguiu achá-lo, mas não trazê-lo à vida. Mesmo assim eles tiveram uma união mística e Hórus foi concebido. Ele surge, portanto, como um deus, filho de um casal de deuses, como no conceito pagão clássico, completamente divergente da narrativa evangélica a respeito de Jesus Cristo.

Depois, Osíris volta á vida com a ajuda de outro deus, Anúbis, que fez do seu corpo a primeira múmia. - É exatamente daí que, segundo a lenda, provém o antigo costume egípcio da mumificação. Convenhamos que isso não se parece nem um pouco com o que os Evangelhos falam a respeito da Ressurreição... - Mas então Osíris vai para o mundo dos mortos, onde passa a reinar, - o que também não tem absolutamente nada a ver com a concepção do "Reino de Deus" trazida por Jesus.

Outra coisa: Nas datas de 24 e 25 de Dezembro era comemorado, em várias civilizações antigas, o "Solstício de Inverno" no Hemisfério Norte. O solstício anunciava o nascimento do Sol como o "deus-criança", o sol que estava fraco e nessa época do ano crescia, assim como um bebê, trazendo de volta a primavera e o verão. A civilização celta, por exemplo, festejava esse dia, que chamavam "Yule", com a "árvore mágica de Yule" - um pinheiro enfeitado com os símbolos da primavera, que pode muito bem ser a origem da atual árvore de Natal. Mas não há nada de espantoso nisso, já que o Cristianismo, deliberadamente (e isso não é nenhum segredo escondido), se apropriou dessa data mitológica para a comemoração do nascimento de Jesus, como um recurso para converter os pagãos e fazê-los aceitar com mais facilidade a nova religião. Cai por terra, portanto, o principal trunfo do filme, que coloca as coincidências envolvendo a data de 25 de Dezembro como a grande prova dos seus argumentos. - Até e principalmente porque a Bíblia, em momento algum, menciona o 25 de Dezembro como a data de nascimento do Cristo.

Outro detalhe importante é que os Evangelhos também não mencionam a presença de "três reis" vindo visitar Jesus, como sugere o filme, tentando forçar uma similaridade, que não existe, com o mito de Hórus. - Os célebres "três reis magos" fazem parte do imaginário popular e foram acréscimos posteriores na tradição cristã. - O texto bíblico diz apenas que "alguns magos" vieram visitar Jesus quando recém-nascido:


"Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, alguns magos do oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: 'Onde está o recém-nascido rei dos judeus?'" - Matheus, 2:1-2


Por isso mesmo não há como se fazer nenhuma relação com os "três reis" da história de Hórus. Ou será que "alguns magos" é a mesma coisa que "três reis"?

Quanto a ser "um prodígio na infância" e "curar enfermos"... Pense um pouco e responda: seria razoável esperar que qualquer deus fosse descrito como um estúpido na sua infância? E a qual deus mítico "do bem" da Antiguidade não se creditava o poder de curar doenças e proporcionar coisas boas aos seus adoradores? - O poder da cura era algo comum, atribuído a praticamente todas as divindades do panteão pagão. - Se assim não fosse, por quê alguém iria querer adorá-los? Então, por favor, alguém me responda: Porque essa obsessão em querer comparar tudo com a história de Jesus?

E as "forçações de barra" do filme não acabam aí: Hórus foi um grande e poderoso rei. - Jesus viveu o seu ministério como um peregrino, em absoluta humildade: "As raposas têm covis, e as aves do céu têm seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça" (Matheus, 8:20). Afirmou também que o seu reino não era deste mundo (João 18:36).

Sobre a concepção dos discípulos como seguidores, esta é exclusivamente cristã. No caso de Hórus, o deus-sol, é mais do que sabido que a menção aos "doze discípulos" é uma analogia direta às doze constelações do zodíaco, conhecidas dos egípcios e de diversos outros povos da Antiguidade. - Aliás, é por isso mesmo que o número 12 aparece constantemente nos mitos de diversas culturas antigas, o que não pode ser aplicado à história de Jesus, em que a relação declarada é com o número das tribos de Israel, que também eram doze: 1-Dã, 2-Aser, 3-Naftali, 4-Manassés, 5-Efraim, 6-Rubem, 7-Judá, 8-Benjamim, 9-Simeão, 10-Issacar, 11-Zebulão, 12-Gade.

* Obs.: A 13ª tribo era a de Levi, sacerdotal e que não tinha direito a terra; eram os responsáveis pelos serviços do Tabernáculo e depois do Templo, mas não eram contados como Tribo, por isso se diz que eram 12 tribos.

Mais: Hórus não se parecia nem um pouco com o Messias da concepção judaica, sobre a qual falei aqui; ele era um deus, no sentido pagão clássico... Por fim, como já visto, a concepção de "ressurreição" dos egípcios, que no estudo histórico é mais comumente chamado de "reviver", é completamente diferente da cristã, em praticamente todos os seus aspectos.




Como se vê, ao analisarmos um pouquinho mais de perto as "sensacionais provas" de que a vida de Jesus contada nos Evangelhos não passa de mito, percebemos que essas provas estão bem mais para... digamos... equívocos? Enganos? Distorções mal-intencionadas? Viagem na maionese? Ânsia de provar ao mundo que "religião é veneno"? Escolha a sua opção. A verdade pode ser qualquer uma delas ou todas juntas.

Agora que desmistificamos a desmistificação (socorro!) de Jesus proposta pelos ateus, no que se refere ao deus Hórus, fica bem mais fácil concluir esta análise, quanto às comparações com os outros deuses míticos da Antiguidade citados no filme. Muitos dos argumentos usados para tentar demonstrar essas supostas semelhanças são exatamente os mesmos, e tão falsos quanto. Como o próprio filme diz, os pontos chave de semelhança são:

O nascimento de uma virgem em 25 de Dezembro - Aí, logo de cara, como visto, a história de Jesus "está fora", porque ela não afirma que ele nasceu em 25 de Dezembro. Quanto à questão do nascimento de uma virgem, trata-se de algo bem mais simples do que parece: ocorre que no mundo antigo, para muitas culturas, a virgindade era sinônimo de pureza. Nada mais natural que os mitos dos deuses "bons" e/ou "luminosos" muitas vezes envolvessem nascimentos livres de envolvimento carnal. Nada de extraordinário nisso.

Morte e ressurreição - Como visto, os conceitos de ressurreição entre as diferentes culturas são muito diferentes entre si, e a comparação não cabe. Toda a mitologia está repleta de deuses que morrem e voltam a viver, deixam este mundo e voltam a ele, etc... Mas qualquer estudante realmente sério do assunto, mesmo os mais leigos, percebem logo de cara que os conceitos são completamente diversos do que aquilo que se diz a respeito do Cristo nos livros do Novo Testamento.

Doze discípulos - Sobre essa eu já falei acima, e o próprio documentário o esclarece, sem perceber. Ocorre que todos os povos antigos estavam muito atentos à observação das estrelas e o seu movimento, porque estes formavam padrões que lhes permitiam reconhecer e antecipar eventos que ocorriam de tempos em tempos, como eclipses, as mudanças da Lua e outros. Praticamente todas as civilizações antigas conheciam o que chamamos de "doze casas zodiacais". - Os povos antigos catalogaram os grupos celestiais, naquilo que hoje conhecemos como constelações. - A "Cruz do Zodíaco", que, como o filme reconhece, figura entre as mais antigas representações gravadas em imagens da humanidade, representa o trajeto do Sol através das doze constelações conhecidas até então, e também representava os doze meses do ano. Está aí o porquê da repetição constante do número doze nas histórias míticas. O que, como eu também disse acima, não se aplica ao caso de Jesus, pois a Bíblia e todos os documentos judaicos antigos se referem às doze tribos sagradas de Israel; - e o Novo Testamento deixa claro que foi por essa razão que Jesus escolheu seus doze discípulos mais próximos, cada um representando uma dessas tribos, além dos seus muitos seguidores. Essas doze tribos ou casas de Israel poderiam ou não estar relacionadas, em algum nível, às constelações, intencionalmente ou não... Mas isso é uma outra história, a respeito da qual nada sabemos.

O restante do filme é uma série de especulações, todas extremamente forçadas, que tentam relacionar mito, astrologia e História, insistindo sempre na questão dos "Três Reis Magos" e na data de 25 de Dezembro, que como vimos não têm relação alguma com a narrativa dos Evangelhos a respeito da vida do Cristo.

Finalizando, a constatação mais do que óbvia é que o autor do filme usa de um subterfúgio bastante comum para tentar provar suas teorias: resumir um tema complexo para adequá-lo ao seu ponto de vista. Explico: quando você fala assim, resumidamente, genericamente, que, por exemplo, tanto Hórus quanto Jesus "curaram enfermos", isto a ouvidos desavisados pode soar como um paralelo entre ambos. Mas observe que aqui, como em toda a sua argumentação, o autor do filme faz questão de não entrar em pormenores a respeito das questões de semelhança; - isso porque as curas de Hórus, se vistas de perto, não têm absolutamente nenhuma semelhança com as que são atribuídas ao Cristo. Mas, falando assim, "por cima", dá a impressão de que se tratam de coisas parecidas. - Como eu disse, resumir para adequar.

Vou dar um exemplo melhor: se eu quisesse convencer a alguém, que não conhece nada de História, que Hitler era parecido com Gandhi, e que a história de vida dos dois é praticamente idêntica, eu poderia dizer que tanto um quanto outro eam grandes patriotas, ambos amantes das artes, que eram homens místicos, que gostavam de animais e de crianças, que foram grandes líderes, que tiveram uma forte influência na história do mundo e que deram as suas vidas por suas pátrias. Falando assim, resumidadamente, sem mentir eu poderia afirmar tudo isso! E nos aspectos citados, fora do devido contexto, realmente eles eram bem parecidos! E essa pessoa sem nenhum conhecimento em História provavelmente acreditaria que foram duas histórias muito semelhantes. Mas quem conhece objetivamente a história de vida de um e de outro sabe muito bem que, apesar dessas semelhanças superficiais, um não tinha nada a ver com o outro.

Se eu quiser confundir, tudo que tenho a fazer é resumir a história ao máximo, não entrando em detalhes e me atendo aos pontos do meu interesse, os que confirmem a mensagem que eu quero passar. Agindo assim eu posso comparar qualquer pessoa com qualquer outra, e sempre vou encontrar supostas grandes similaridades; basta não me ater aos detalhes e ficar só na superfície...

Quero encerrar deixando claro que eu não afirmo que não existam mitos envolvendo a história de Jesus. É possível que sim. Não creio que tudo que os Evangelhos narram deva ser tomado literalmente. Os textos bíblicos podem contar acréscimos de alguns detalhes, pequenos erros de interpretação e mesmo alguns aspectos mitológicos, sim. Mas não em essência. A base da narrativa evangélica está confirmada através de documentos extra-bíblicos, como demonstrei aqui. A história de Jesus Cristo não é, como tenta fazer parecer esse pseudodocumentário, uma simples coletânea de mitos ancestrais, isso é uma certeza: não minha, mas acadêmica.


***


No mundo de hoje muitos vêem toda a sublime história do Cristo como não muito mais que um mito. "Criamos um deus à nossa imagem", insistem alguns sociólogos da religião, e Jesus seria a nossa maior chave para o entendimento desse deus com quem podemos nos identificar. Uma chave falsa e ilusória, mas útil. A história da Encarnação, isto é, da manifestação de Deus em forma de homem, argumentam eles, já foi narrada muitas vezes antes, ora de um jeito, ora de outro, nas tradições religiosas antigas, exatamente o argumento (nada novo), que acaba de trazer à tona aquele filme.

C. S. Lewis já falava dessa questão de Deus e do mito, um século atrás. De fato, seu constante amor pela mitologia antiga lhe proporcionou percepções da fé cristã bem diferenciadas, que o ajudaram a remover esse empecilho, para crentes e também não-crentes. Em seu ensaio “O Mito Tornou-se Fato”, ele tomou exatamente as objeções atiradas contra o Cristianismo e as transformou em mais provas que o sustentam.

O coração do Cristianismo é um mito que é também um fato! O velho mito do "Deus Que Morre", sem deixar de ser um mito, desce do céu da lenda e da imaginação para a terra da História real! Ele acontece numa data determinada, num lugar determinado, seguido de conseqüências históricas definíveis. Passamos de um Hórus ou de um Mitra, que morrem ninguém sabe onde nem quando, para uma pessoa histórica que é crucificada sob Pôncio Pilatos, procurador da Judéia, personagem histórico bem documentado. Hórus foi batizado por Anup, um deus de fantasia esquecido nas brumas do tempo. Jesus por João Batista, personagem histórico cujas evidências multiplicam-se todos os dias (senão, vejamos... aqui e aqui, por exemplo).

Tornando-se fato, o mito não deixa de ser mito: eis o Milagre! Deus é mais do que um deus, não menos. Cristo é mais do que Hórus, não menos, nem igual. Nós, pessoas de fé, não devemos nos envergonhar da auréola mítica presente em nossa teologia, seja você cristão ou não.


"Não devemos ficar nervosos com 'paralelos' e 'Cristos pagãos': eles precisam estar ali. - Seria um empecilho se não estivessem." - C. S. Lewis, autor de "As Crônicas de Nárnia", nascido em 1928


Fontes e bibliografia:
BUDGE, E. A Wallis. A Religião Egípcia, São Pauo: Cultrix;
TUCKER, Ruth. Fé e Descrença, São Paulo: Mundo Cristão, 2008;
BAVINCK, J. H. Faith and Its Difficulties, p. 9;
LEWIS, C. S. - Myth Became Fact, em God in the Dock: Essays on Theology and Ethics.



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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Quem é esse homem, afinal?

Não há história mais contada, de geração em geração, nem mais dissecada nos livros de toda espécie; desde os históricos até os místicos, passando pelos acadêmicos, os fantasiosos, os clássicos, os céticos, os contestadores... Não há história mais reprisada nos filmes, nas séries de TV, direta ou indiretamente, nem mais retratada nas pinturas, nas esculturas, na música e em toda espécie de artes plásticas... Não há personagem que tenha gerado mais paixão, mais devoção, mais curiosidade. Não há mestre mais citado, não há personalidade mais ardentemente amada pelos devotos nem mais cegamente odiada pelos céticos. Ele se tornou sinônimo de religião e religiosidade; de fé, crença e espiritualidade para bilhões. Reina soberano no Inconsciente Coletivo de toda a humanidade, com tudo que isso possa envolver de fácil e de (muito) complicado. Não há nada que se possa comparar, em termos de popularidade e influência universal, com a história de Jesus Cristo, nos últimos 2.000 anos de nossa História. E esse interesse e essa atração não demonstram nenhum sinal de que vão acabar tão cedo, ao contrário: as últimas décadas têm nos trazido um renascimento constante e crescente do interesse histórico e religioso pela sua figura: Jesus Cristo.

O polêmico. O rebelde. O agitador. O mais amado pelos crentes e mais odiado pelos céticos. O Mestre por excelência. Em nome dele, guerras se fizeram; as mais sublimes obras humanas se produziram; universidades foram construídas... O bem e o mal se multiplicaram em torna da sua memória, exatamente como ele havia previsto há dois milênios.




Quando nos propomos a estudar a história do Cristianismo, com todas as suas muitíssimas variantes, por vezes nos sentimos como que perdidos numa densa floresta, ou no meio de um deserto cáustico que parece não ter fim; e sem bússola. A documentação histórica é cheia de furos, os relatos bíblicos e os não bíblicos são confusos, as zonas de sombra se sucedem, existem contradições... Mas há também uma boa notícia: nos últimos anos, têm-se registrado um notável progresso nas pesquisas sobre Jesus.

Mas antes de qualquer coisa, é preciso deixar um ponto muito claro: embora nos últimos tempos você possa ter lido e ouvido falar o contrário centenas de vezes, o fato é que o Jesus que nasceu, viveu e morreu na Palestina, concretamente, num determinado período histórico, e o Jesus da fé, são uma só e a mesma pessoa. - Sim; nós poderíamos discutir, por exemplo, o que significavam os milagres e maravilhas que ele produzia. Podemos ponderar sobre a natureza desses milagres, se ocorreram literalmente como nos contam os livros do Novo Testamento da Bíblia (e também os apócrifos), de que maneira, o que significavam... Mas é praticamente impossível a qualquer pesquisador de bom senso simplesmente negar que Jesus fazia milagres, porque eles são uma parte essencial daquilo que o tornou tão especial; - tanto ou mais, até, do que a sua própria doutrina. - Querer separar, como pretenderam alguns, o discurso e os ensinamentos de Jesus das maravilhas que ele realizava, suas "obras" palpáveis, seria o mesmo que tentar entender um Bach apenas estudando suas partituras, sem nunca ouvir a sua música. Como disse o próprio Jesus Cristo: "acreditai em mim, ao menos, pelas minhas obras" (João 14:11)... Muitos mestres trouxeram belas palavras, antes e depois de Jesus, mas houve só um Jesus Cristo. Descartar parte da sua história, não considerar a sua obra como um todo, é descartar o que ele trouxe de comprobatório da sua condição especial.

Sobre esse único Jesus, escreveu o alemão Rudolf Bultmann, um dos grandes estudiosos do Novo Testamento do século passado, nos anos 20: "...já não podemos conhecer qualquer coisa sobre a vida e a personalidade de Jesus, uma vez que as primitivas fontes cristãs não demonstram interesse por qualquer das duas coisas, sendo além disso fragmentárias e muitas vezes lendárias, e não existem outras fontes".

Bultmann era pessimista, como se vê, a ponto de depor as armas, no que se refere à pesquisa histórica de Jesus. Compare-se agora sua afirmação com outra mais recente, formulada em 1985 pelo respeitado especialista irlandês E.P. Sanders: "A opinião predominante em nossos dias parece consistir em que podemos conhecer muito bem o que Jesus queria dizer, que podemos saber muito sobre o que ele realmente disse..."

O que houve, entre os anos 20 e os 80, que aumentou assim a confiança nas pesquisas? Muita coisa importante aconteceu nesse curto intervalo de tempo: descobertas de manuscritos e sítios arqueológicos, uma nova mentalidade na abordagem do assunto, um rigor crescente. O otimismo que passou a contagiar os especialistas é ilustrado pelo fato de ser farta (e crescente) a produção intelectual no setor. A bibliografia é imensa. Este post se baseia em livros recentes, um desses é "Jesus dentro do Judaísmo", de James H. Charlesworth, professor da Universidade de Princeton e autor de diversas obras sobre o tema. Depois de citar as opiniões acima transcritas, de Bultmann e Sanders, Charlesworth acrescenta, a respeito do avanço das pesquisas: "... o fugidio pano de fundo da vida de Jesus está agora muito mais claro do que era, mesmo há vinte anos".

Estamos agora vivendo num mundo de alta erudição. Há gente capaz de mergulhar num papiro em hebraico ou grego antigo e voltar à tona misturando o resultado com os recursos da moderna antropologia. Poderia-se até dizer que estamos num mundo de obcecados, de estudiosos que consagram suas vidas inteiras a estudar um só assunto, e dos quais se exige, entre outros talentos, a perspicácia de um Sherlock Holmes.

Um bom exemplo para ilustrar o que estou dizendo é o caso da análise do professor Joel B. Green de um versículo que aparece em Matheus e também no pseudo-Evangelho de Pedro, um dos vários evangelhos apócrifos, de confecção considerada tardia, já muito distanciada da morte de Jesus e não reconhecidos pela Igreja. - O versículo refere-se ao momento em que, com Jesus já morto e sepultado, os sacerdotes dizem a Pilatos: "Ordena pois que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia, para que os discípulos não venham roubá-lo e depois digam ao povo: Ele ressuscitou dos mortos" (Mt 27:64). Mais especificamente, a questão envolve um trecho que aparece absolutamente idêntico em Matheus e em Pedro: "...para que os discípulos não venham roubá-lo..." - A questão aí é: quem copiou quem? Matheus copiou Pedro ou Pedro copiou Matheus?

Naturalmente, a dúvida só surgiu por conta de certos especialistas que passaram a sustentar a tese de que, ao contrário de se tratar de um texto tardio, ou seja, já do segundo século depois de Cristo, como em geral ocorre com os apócrifos, o Evangelho de Pedro seria um documento de alto valor, cronologicamente situado talvez ainda à frente dos quatro Evangelhos oficiais ou canônicos, considerados os escritos mais antigos, do início do século I. - Isso poderia significar uma pequena revolução acerca de tudo que conhecemos sobre a história de Jesus.

Bem, então o professor Green pegou aquele fiapo de frase, "para que os discípulos não venham roubá-lo", e se pôs ao trabalho. Descobriu que a palavra "discípulo" é comum em Matheus, que a usa 73 vezes, mais do que qualquer outro dos três evangelistas canônicos. Já no evangelho de Pedro ela não aparece nenhuma outra vez. O verbo "roubar" ('klepto', no original grego) aparece quatro vezes em Mateus e, de novo, nenhuma em Pedro. Enfim, a preposição "para", no sentido de "a fim de" ('mepote', em grego), aparece sete outras vezes em Matheus, e apenas uma outra em Pedro. Conclusão: Bingo! O estilo literário do trecho, é, sem dúvida, de Matheus; é ele a matriz. Pedro copiou-o. Portanto, o Evangelho de Matheus é anterior e mais digno de crédito.




Separar entre a documentação antiga o que tem valor e o que não tem é um dos trabalhos mais difíceis dos pesquisadores. O público leigo em geral têm fascinação pelos evangelhos apócrifos - a fascinação de entrar num território proibido (uuuhh!)... - E eles são fascinantes mesmo, até pelas extravagâncias que, muitas vezes, chegam a conter.

Num dos apócrifos, Jesus é retratado em sua infância como uma espécie de "menino mágico" que faz passarinhos de barro e, depois de bater palmas, põe-nos a voar(!). Em um outro, Jesus, também quando menino, roga uma maldição e faz cair morta uma criança que o perseguia. Outra cena de infância de Jesus contida nos apócrifos é mais formidável ainda: Jesus quer brincar com um grupo de crianças, mas elas fogem dele e se refugiam numa casa. Jesus chega e pergunta à dona da casa onde estão as crianças. A dona da casa, para protegê-las, diz que ali não tem crianças. - Já que é assim, Jesus ordena então: "Deixa os bodes saírem". A mulher vai abrir a porta do cômodo e descobre o quê? Bodes... Jesus transformara seus desafetos em bodes, para horror da mulher...

Com uma ou outra exceção, os apócrifos são fáceis de descartar. Tratam-se de coletâneas de histórias inventadas, algumas em meios populares onde a religião ainda mal começava a se separar da feitiçaria. Tarefa muito mais complicada, a que todos os pesquisadores históricos se dão, é tentar discernir, nos Evangelhos Canônicos, o que pode ser considerado realmente testemunho de Jesus e as possíveis elaborações posterioriores. Os canônicos foram escritos a uma distância provavelmente a partir de quarenta anos da morte de Jesus por autores que possivelmente foram testemunhas oculares de sua vida. Como saber o que é histórico em seus relatos? Além da autoridade óbvia de documentaristas contemporâneos dos fatos que estão narrando, os pesquisadores de hoje utilizam-se de variados critérios. Um deles, óbvio, é o da "múltipla atestação". Quanto mais um episódio ou dito de Jesus for repetido pelos diferentes evangelistas, mais chance de ser verdadeiro. Outro, mais refinado, é o do "embaraço". Se um determinado episódio era embaraçoso para as elucubrações teológicas dos primeiros cristãos, e mesmo assim foi conservado nos Evangelhos, é porque deve ser verdadeiro. Um bom exemplo é o caso do batismo de Jesus por João Batista. - Foi muito difícil explicar às primeiras comunidades cristãs por que o Superior, isto é, Jesus, havia se deixado batizar pelo inferior, isto é, o Batista. - Se apesar da dificuldade teológica em explicar um fato, ele foi conservado nos textos, o episódio é considerado verdadeiro.

O estudo lingüístico, que se viu na comparação entre os textos de Matheus e o Evangelho de Pedro, é outro dos grandes instrumentos que temos para a pesquisa sobre Jesus. Outro são as descobertas arqueológicas. E entre elas nenhuma se iguala, em qualidade e fartura, aos chamados "Manuscritos do Mar Morto", um conjunto de papiros achado a partir de 1947 nas cavernas da região de Qumram, no moderno Israel, e que só há pouco tempo foram completamente restaurados e decifrados. Os Manuscritos do Mar Morto têm servido para muita coisa, nos últimos quarenta anos, inclusive para explorações sensacionalistas. Na verdade, sabe-se hoje bem o que eles são: uma antiga e importante biblioteca. No início dos anos 50, depois da descoberta dos manuscritos, escavações realizadas nas proximidades pelo padre francês Roland de Vaux trouxeram à luz uma construção que, destruída e queimada no ano 68 dC, concluiu-se que se tratava de um antigo convento.

A partir daí formou-se consenso entre os especialistas - nas cavernas, os membros da seita de Qumram esconderam a biblioteca do convento. - Viviam-se os dias tempestuosos da revolta judaica contra o domínio romano que resultaria, no ano 70 da nossa era, na destruição de Jerusalém. Esconder os manuscritos, acondicionados em jarras, na iminência de um ataque romano que realmente viria a varrê-los do mapa, foi a maneira que os membros da seita encontraram de preservar seus documentos para a posteridade.

A seita em questão muito provavelmente é a dos essênios, cujo rastro encontra-se em muitos outros textos da antiguidade. Na biblioteca que eles esconderam nas cavernas há desde livros do Velho Testamento a documentos específicos da seita, como o "Manual de Disciplina", que era seguido por seus membros. Os documentos foram datados de um período que vai do ano 200 aC até 67 dC. Ou seja: muitos deles são até contemporâneos de Jesus. Há centenas de textos completos e milhares de fragmentos, que foram pacientemente remontados por uma comissão na qual se misturaram especialistas judeus e cristãos, sob a supervisão do governo israelense. Decepção: apesar de serem documentos da mesma época, não há nenhuma menção a Jesus. Isso não invalida, no entanto, o imenso valor dos textos de Qumram para o conhecimento da época e do ambiente que circundava Jesus.

"Penetrar no mundo dos Manuscritos do Mar Morto equivale a mergulhar no tempo e no ambiente ideológico de Jesus", escreve James H. Charlesworth (autor citado acima). Os textos de Qumram revelam idéias muito próximas às de Jesus.

Havia entre os membros da seita uma acentuada escatologia, por exemplo - isto é, um alerta permanente contra o fim dos tempos, que se considerava iminente. Havia também prescrições para uma total entrega a Deus. Esses e outros traços comuns configuram uma espécie de elo perdido do pensamento judaico entre os tempos do Velho Testamento e o advento da Era Cristã, e sugerem, entre um e outro, uma certa transição. A seita de Qumram também escancara a realidade do judaísmo vibrante e variado dos tempos de Jesus; tão pouco unitário que alguns autores hoje preferem falar em "judaísmos", e não num judaísmo só.

No entusiasmo das primeiras descobertas chegou-se a imaginar um Jesus fortemente influenciado pela doutrina dos essênios, quando não um membro da seita. - Mas na verdade, tanto quanto semelhanças, há diferenças entre um e outro, e a mais gritante é a atitude perante as regras rituais judaicas de conduta. Os essênios são ainda mais fanáticos que os fariseus na sua observância. E Jesus, como se sabe, disse que o "sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". - Ele dava pouca importância ao rigor imobilista com que os ortodoxos mandavam guardar o dia santo, como de resto a todas as outras proibições e imposições rituais. Ou melhor: ele estava aí era para subvertê-las mesmo, num contínuo chamamento para a superioridade da pureza e da devoção interiores, não exteriores.


"O Sermão da Montanha", pintura do dinamarquês Carl Heinrich Bloch


Outra importante descoberta de manuscritos, feita um pouco antes, em 1945, ocorreu no Egito, na região de Nag Hammadi. Entre os 53 documentos ali encontrados, todos em copta, língua falada no Egito nos primeiros anos da cristandade, inclui-se o chamado "Evangelho de Tomé" (assunto a que voltaremos neste blog), uma coleção de 114 ditos de Jesus, enfileirados um atrás do outro, em que alguns vêem a tradução de um original semita talvez muito antigo, embora não haja consenso a respeito.

No setor das ruínas desenterradas ultimamente, é importante citar a "Casa de Cafarnaum", que Charlesworth, entre outros especialistas, está convencido tratar-se da casa de São Pedro referida nos Evangelhos. Além de uma série de coerências históricas e de localização, foram encontrados anzóis num dos seus compartimentos, exatamente um dos instrumentos de trabalho de seu presumível proprietário. "A descoberta é virtualmente inacreditável e sensacional", observa Charlesworth. Nessa casa Jesus hospedou-se e operou milagres, segundo os Evangelhos. Charlesworth enfatiza, extasiado, que com a descoberta da "casa de Pedro" temos "o mais antigo santuário cristão já desenterrado em qualquer parte do mundo".

Fico por aqui, embora houvesse ainda muito a ser dito em matéria de descobertas como essas. Acrescento apenas que a elas juntou-se, nos últimos anos, uma nova e muito produtiva mentalidade: a de analisar Jesus à luz do ambiente, dos documentos e da cultura judaica em que, naturalmente, estava imerso. Algo que, por mais óbvio que fosse, antes não se fazia, por preconceito ou rivalidade religiosa. A soma de tudo isso é promissora. O escritor inglês A. N. Wilson, autor de várias obras relacionadas, chega a afirmar: "O mundo de Jesus tem sido colocado num foco mais preciso por nossa geração do que por qualquer outra geração anterior, desde o ano de 70 da Era Cristã".

O ano 70 dC é o da arrasadora repressão promovida pelos romanos contra os judeus. De alguma forma, fisicamente, o mundo em que Jesus viveu acabou ali. Ao mesmo tempo, segundo prossegue Wilson, a fé católica enveredou por um caminho curioso, caracterizado por muito "pouco interesse nas origens semitas de Jesus e ainda menor no conhecimento destas".

Afinal, quem era Jesus? E por que incomodava tanto a ponto de ser condenado a morrer na cruz? Continue no Arte das artes!..



Fontes e bibliografia:
Arquivo revista
Veja;
Charlesworth, James H - "Jesus dentro do Judaísmo", Imago, RJ, 1992;
Green, Joel B. - Dictionary of Jesus and the Gospels, Scot McKnight Editor, 1992;
Sanders, E. P. - "Jesus and Judaism", London: SCM, 1990;
Paul, Andre - "Os Manuscritos do Mar Morto", Piaget, 2006;
Wilson, A. N. - "Jesus, um Retrato do Homem", Ediouro, 2000;
Site Mucheroni.



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Cristianismo: fontes documentais - conclusão

São Jerônimo - pintura de Caravaggio


Para entender o intrincado universo das fontes documentais do Cristianismo, há a necessidade de se conhecer a origem e a natureza dos erros de transcrição dos textos do Novo Testamento. Nos interessa saber como e porque ocorreram pequenas alterações no conteúdo desses escritos essenciais... Os tipos de variantes.


As alterações acidentais

Existiram equívocos visuais - alguns erros foram cometidos quando o copista confundiu certas letras com outras de grafia semelhante. Um tipo de equívoco visual é chamado "parablepse". Esse nome complicado significa pular de uma palavra, frase ou parágrafo para outro, devido a começos ou términos semelhantes, com a omissão de palavras.

Há também a classe de equívocos chamados "ditografia", que são a repetição de uma sílaba, frase ou parte de uma frase; e a "metátese", que é a transposição de fonemas no interior de um mesmo vocábulo ou a transposição de vocábulos numa mesma frase.

Equívoco auditivo é quando certas vogais e ditongos gregos vieram a ser pronunciados de maneira praticamente idêntica, fenômeno conhecido como "iotacismo", comum no grego moderno.

Equívoco de memória - poderiam variar desde a substituição de sinônimos à inversão na seqüência de palavras, quando a mente traía o copista.

Equívoco de julgamento - Quando um copista se deparava com comentários diversos anotados na margem do manuscrito que lhe estivesse servindo de modelo e não dispusesse de outras cópias para efeito de comparação, poderia incluí-lo no texto julgando que de fato devessem estar ali. Por exemplo, num manuscrito do século XIV há um exemplo de erro de julgamento. O modelo do qual foi copiado o Evangelho de Lucas deveria trazer a genealogia de Jesus (3:3-28) em duas colunas paralelas de 28 linhas cada. Todavia, ao copiar o texto seguindo a ordem das colunas, o escriba o fez seguindo a ordem das linhas, passando de uma coluna para outra. Como resultado, praticamente todos os filhos tiveram seus pais trocados.

Alterações intencionais - Harmonização textual e litúrgica - o copista se sentia tentado a harmonizar os livros que apresentassem passagens paralelas, um pouco divergentes. Principalmente nos evangelhos sinóticos, com muitos textos sendo alterados para uma narrativa mais unificada possível.

É interessante notar que muitas citações do Antigo Testamento eram feitas sem muito rigor pelos apóstolos, e copistas procuravam adaptar à Septuaginta (LXX - tradução do Antigo Testamento para o grego, feita por hebreus).

Alguns textos eram adaptados para ser lidos publicamente nos serviços de culto, e tais arranjos influenciaram a própria transmissão do texto. O exemplo mais claro é o da Oração do Senhor (Mateus 6. 9-13), cuja doxologia “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre; Amém”, foi acrescentada para uso litúrgico, e acabou sendo incorporada no texto de muitos manuscritos.

Correção ortográfica, gramatical e estilística - A maioria das alterações ortográficas nos manuscritos bíblicos ocorreu devido à falta de qualquer padronização oficial e à influência de vários dialetos. Assim, inúmeros termos gregos acabaram tendo formas diversas na soletração, principalmente os nomes próprios.

Correção histórica e geográfica - Alguns escribas tentaram harmonizar o relato do Evangelho de João da cronologia da Paixão de Cristo com a de Marcos, mudando a “hora sexta” (João 19:14) para a “hora terceira” (Marcos 15:25).

Correção exegética e doutrinária - Algumas vezes o copista se deparava com uma passagem de difícil interpretação, assim alguns tentaram completar-lhe o sentido, tornando-a mais exata, menos ofensiva ou obscura.

Interpolação de notas marginais, complementos naturais e tradições ­- A inclusão de textos marginais ao corpo textual como apontamentos, correções, interpretações, reações pessoais e mesmo informações gerais quanto ao texto era comum.

Note-se que certas palavras ou expressões que aparecem juntas no texto bíblico ou no uso habitual da Igreja, e a falta de uma delas numa ou noutra passagem levava o copista a acrescentá-la. Estes são os chamados "complementos naturais".

Conforme já foi dito, os críticos especializados têm demonstrado que as variantes têm pouca ou nenhuma importância para o sentido dos textos em si, ao contrário do que pretendem certos editores de obras sensacionalistas em busca de lucro fácil. Os fatos do Novo Testamento que dizem respeito à fé e moral são expressos em muitos lugares, e assim o fundo doutrinário permanece intocado pelas passagens criticamente incertas, nem um pouco alterado em sua essência. Podemos afirmar com toda a certeza científica que o texto dos cristãos, se não criticamente, doutrinariamente foi conservado incorrupto.


O texto impresso

Entre os séculos XV e XVI, entramos numa nova fase na história do Novo Testamento. Primeiramente a Imprensa tornou os trabalhos de reprodução mais rápidos e baratos, além de acabar de uma vez com a multiplicação dos erros de transcrição. Assim, as cópias passaram a ser feitas com muito mais agilidade e precisão, exatamente como haviam sido escritas, salvo raras exceções, a maioria das quais de erros tipográficos de menor importância.

Um segundo fator que ajudou a levar o texto neotestamentário a essa nova fase de desenvolvimento e sistematização foi o movimento renascentista, com sua ênfase nos valores artísticos e literários do homem, que acabou fazendo despertar na Europa um grande interesse pela cultura grega clássica. Conseqüentemente os estudiosos cristãos também começaram a valorizar os manuscritos gregos do Novo Testamento, revisando a Vulgata.


São Jerônimo no deserto - pintura de Leonardo Da Vinci


Primeiras edições

Apesar da impressa, a publicação do Novo Testamento em grego não saiu imediatamente. O primeiro produto representativo da tipografia foi justamente a Bíblia, a Vulgata de Jerônimo, em dois volumes, entre os anos de 1450 e 1455. Nos 50 anos seguintes, pelo menos cem edições da Vulgata ainda foram preparadas por várias casas editoriais da Europa.

Para a língua portuguesa, temos em 1495, em Saragoza, a publicação das epístolas paulinas e dos Evangelhos. Naquele ano, em Lisboa, foi publicada, em quatro volumes, uma harmonia dos Evangelhos. - O Novo Testamento completo saiu em 1681, em Amsterdã, já na antológica versão de Pe. João Ferreira de Almeida. A Bíblia completa em português foi publicada em 1753, na Holanda, depois de Jacó den Akker haver terminado a tradução do Antigo Testamento, parada com a morte de Almeida, em 1691, no texto de Ezequiel 48:12.

O cardeal e arcebispo de Toledo, Francisco Ximenes de Cisceros (1437-1517), foi o responsável de promover e organizar a primeira impressão do texto grego do Novo Testamento, como parte da chamada Bíblia Poliglota Complutense.

Erasmo de Roterdã (1469-1536), escritor e humanista holandês, produziu, em 1516, o primeiro Novo Testamento grego que chegou ao domínio público, sendo beneficiado com o atraso na divulgação da obra de Ximenes.


O "Texto Recebido"

Quando o Novo Testamento grego de Erasmo chegou ao público ocorreram diversas reações. De um lado houve ampla aceitação, tanto que ele preparou uma nova edição, e a tiragem total das edições de 1516 e 1519 alcançou 3.300 exemplares. A segunda edição, agora intitulada "Novum Testamentum", foi a que serviu de base da tradução alemã de Martinho Lutero. De outro lado, a obra foi recebida com grande preconceito e até com hostilidade. Três fatores contribuíram para isso: 1) As diferenças que havia entre sua nova tradução latina e a consagrada Vulgata; 2) As longas anotações para justificar sua tradução e 3) A inclusão, entre as notas, de comentários sobre a vida desregrada e corrupta de certos sacerdotes. Clérigos protestaram fazendo uso dos púlpitos; conseqüentemente Universidades como as de Cambridge e Oxford proibiram seus alunos de lerem os escritos de Erasmo, e os livreiros de os venderem.

Dentre as críticas levantadas contra Erasmo, uma das mais sérias veio da parte de Lopes de Stunica, um dos editores da Poliglota Complutense, que o acusou de não incluir no texto de 1 João 5:7-8 a "Coma Joanina". Erasmo replicou que não havia encontrado nenhum manuscrito grego que a contivesse, e prometeu que a incluiria em suas próximas edições se apenas um único manuscrito grego trouxesse a passagem. Um manuscrito foi-lhe trazido, e Erasmo cumpriu sua promessa na terceira edição, de 1522. Todavia numa longa nota marginal, ele suspeita do manuscrito como sendo preparado para confundi-lo.


Edições Intermediárias

Em seguida, temos a preocupação em reunir variantes textuais e estabelecer os princípios de um trabalho textual mais científico, baseado em pesquisas progressivas dos manuscritos gregos, das versões e da literatura patrística. O contexto agora era outro, os estudiosos tinham que lutar contra o movimento racionalista, que encontrara no deísmo sua expressão religiosa. Defendendo a existência de uma religião natural, onde a Verdade só podia ser alcançada pela razão e pelo método científico, o deísmo encarava as Escrituras como um simples manual ético de origem humana, e colaborou, entre outras coisas, para que sua pureza textual fosse questionada. Os pesquisadores cristãos surgiram nos principais países europeus em defesa do Cristianismo histórico e da integridade textual da Bíblia. E, no esforço de provar que o Novo Testamento que dispunham era exatamente aquilo que os autores originais haviam escrito, tiveram também de defrontar-se com o chamado "Texto Recebido", no qual os problemas tornaram-se ainda mais graves.

Os críticos, por dois séculos, vasculharam bibliotecas e mosteiros na Europa e em todo o mundo mediterrâneo procurando material que pudesse ser útil. Todavia, continuaram a publicar o Texto Recebido, submetendo-se a ele. Ele era um texto já tradicional e reverenciado por todos, e ninguém se aventuravam a modificá-lo, sob o risco de censura ou até de disciplina eclesiástica.

Durante esse período não ocorreu qualquer progresso real no texto grego do Novo Testamento que estava sendo publicado. Todavia, as muitas variantes que se tornaram conhecidas mediante o progressivo e acurado exame dos manuscritos, o início de sua classificação de acordo com as famílias textuais e o desenvolvimento das teorias críticas ofereceram a base necessária para que tal progresso se concretizasse no período seguinte. Nos confrontos entre os partidários do Texto Recebido e os que acreditavam na superioridade dos manuscritos mais antigos, a vitória dos últimos estava garantida. As evidências acumuladas tornavam evidente que o texto precisava ser corrigido, para o próprio bem do cristianismo histórico, principalmente por causa dos ataques racionalistas. O reinado do Texto Recebido estava chegando ao fim. Os princípios que permitiriam essa conquista já estavam praticamente estabelecidos e necessitavam apenas ser aprimorados.


Edições Modernas

No século XIX, a predominância do Texto Recebido foi finalmente interrompida. Os esforços dos pesquisadores nos dois séculos anteriores fizeram com que a crítica textual se tornasse uma ciência de fato. - A distribuição dos manuscritos nos diferentes grupos permitiu que os muitos documentos começassem a ser organizados e que a história da tradição manuscrita fosse reconstruída, levando ao desenvolvimento sistemático de metodologias e ao tratamento mais científico das inúmeras variantes. Apesar dos críticos ainda divergirem com relação às teorias, todos buscavam um texto que estivesse o mais próximo possível do original e, nesse novo período, rompendo com o Texto Recebido. Surgindo o texto crítico e, com ele, o período moderno da crítica textual do Novo Testamento.


Conclusão

Depois de quase 500 anos de história do texto do Novo Testamento e das mais de mil edições surgidas desde século XV com Erasmo, dos vários estudos, os editores críticos de um modo geral concordam com o texto crítico moderno e apenas um grupo bem pequeno de variantes sem muita importância é contestada. E mesmo que surja uma edição nova com muitas variantes, já está mais ou menos claro que o Novo Testamento grego está muito próximo dos textos primitivos originais. O chamado Texto Recebido foi abandonado pela maioria dos estudiosos, que o defendiam como a forma mais próxima do original.

Apesar dos erros dos copistas, a integridade do texto foi mantida. Sua coerência interna é uma evidência muito forte. A Crítica Textual tem demonstrado que o textos cristãos essenciais (o Novo Testamento da Bíblia) fala hoje com a mesmo eloqüência que falava no período apostólico. Podemos pegar a Bíblia atual sem medo de dizer, seguramente, que é o mesmo texto denominado como "Palavra de Deus" e transmitido na sua essência através dos séculos.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA)
McDOWELL, Josh. "Evidência que exige um veredicto", Volume 2. São Paulo: Candeia, 1992;
New Testament (The). New International Version: Holman Bible Publishers, Nashville, 1988;
"Novum testamentum graece et latine". Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma: Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957;
PAROSCHI, Wilson. Crítica textual do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1993;
Santa Biblia. Antigua versión de Casiodoro de Reina (1569), revisada por Cipriano de Valera (1602), otras revisiones: 1862, 1909 y 1960. Revisión de 1960. Sociedades bíblicas unidas: (Madrid), 1996.



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