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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Religião do Antigo Egito - conclusão


O Livro dos Mortos

A ressurreição e o destino da alma: escuridão ou vida eterna; as incumbências dos deuses e o julgamento moral dos mortos - tudo isso está na coleção de textos religiosos conhecida como "O Livro dos Mortos", cujo verdadeiro nome é "Saída para a Luz do Dia", considerada como o primeiro livro da humanidade.

As pinturas de numerosos túmulos da antiga civilização egípcia mostram cortejos fúnebres em que as carpideiras choram pelo espírito do defunto. Os túmulos continham tudo que o morto iria precisar na outra vida, até mesmo suas sandálias. Enterravam-se os corpos virados para o sol poente, deixando ao seu alcance comida e diversos objetos pessoais. O costume de se preparar para a morte era tão difundido que nos primeiros tempos dos faraós se colocavam nos túmulos esculturas realistas para se receber o espírito do morto, com olhos de cristal que permitiriam ao defunto ver a outra vida. Acreditavam que os túmulos monumentais garantiam vida eterna, não só ao faraó, como também, por meio de sua sobrevivência, aos seus súditos.

Para os egípcios, o que havia de mais terrível era a idéia do esquecimento; que não conseguissem superar as provas necessárias para entrar no Mundo dos Mortos. Por isso, toda a viagem que esperavam realizar, da morte até a eternidade, é descrita em detalhes no Livro dos Mortos.

No começo da "Cerimônia da Abertura da Boca", pronunciam-se encantamentos sobre a múmia, a fim de lhe restituir as faculdades da vida, sobretudo a visão e a fala, das quais o espírito irá necessitar muito na viagem iminente. Cada sortilégio e cada invocação devem ser as certas, para que tudo corra bem. O Livro ajuda a alma a se refazer do susto da morte, quando ainda tenta voltar ao corpo (o que se alimenta e precisa dos objetos materiais é o 'duplo' do corpo físico, o 'CA', como explicado no primeiro post desta série). Porém, os deuses encarregados de guiá-la arrastam-na para longe do ataúde e a fazem atravessar uma região de trevas chamada "Aukert", que significa o "Mundo Subterrâneo", sem ar e água, difícil e muitas vezes obstruído. É graças ao Livro dos Mortos que o defunto pode vencer todos os obstáculos e ser convertido num "espírito santificado", após cruzar os "21 pilares", atravessar as "15 entradas" e passar pelas "7 salas". Depois, a alma terá de transpor 28 portas mais, para passar diante dos deuses guardiões do mundo dos mortos.

Depois de agradar a cada um dos deuses guardiões, a alma atravessa a porta seguinte e a viagem continua. O deus chacal, Anúbis, vai conduzi-lo ao "Amenti", onde mora Osíris, o deus maior dos egípcios. Lá, na "Casa das Duas Verdades", vai enfrentar a última prova, de onde seu espírito será ou lançado no inferno do esquecimento ou guiado ao paraíso. Então desfila perante o tribunal dos 42 deuses juízes (cada um representa um nome do Egito), e ante cada um declara sua inocência. O falecido deve interpelar a cada um dos 42 pelo seu nome e declarar não ter cometido determinado pecado. Osíris está presente - imóvel e enigmático, contempla a alma, tendo atrás de si sua irmã e sua esposa, Ísis e Néftis. Para comprovar que o defunto diz a verdade, são pesados ao mesmo tempo seu coração e uma pena, na balança da justiça, e Anúbis verifica o equilíbrio, ou seja, o coração não pode pesar mais do que a pena, senão... a fera Amud está pronta para devorar os corações manchados de pecados. Isto é feito na presença da deusa da Verdade, Maât, que não toma parte no julgamento. Se tudo correr bem, a alma é conduzida por Hórus, para fazer a "Confissão Negativa", que consta no "Papiro de NU":

"Nada surja para opor-se a mim no meu julgamento, não haja oposição a mim em presença dos príncipes soberanos, não haja separação entre mim e ti na presença daquele que guarda a Balança. Não deixe os funcionários da corte de Osíris cujo nome é 'O Senhor da Ordem do Universo' e cujos 2 Olhos são as 2 deusas irmãs, Ísis e Néftis, que estipulam as condições da vida do homens, que meu nome cheire mal! Seja o Julgamento satisfatório para mim, seja a audiência satisfatória para mim, e tenha eu alegria de coração na pesagem das palavras. Não se permita que o falso se profira contra mim perante o Grande Deus, Senhor de Amenti. Não roubei. Não agredi nenhum homem. Não causei dor nem fiz sofrer ninguém. Bebedor de sangue que vieste do matadouro, não sacrifiquei nenhum touro sagrado. Não capturei nenhuma ave nas reservas dos deuses, nem pesquei nenhum peixe em seus reservatórios. Não desviei a água de seu curso. Não coloquei represas em seu leito. Não sujei as águas".

Percebe-se nitidamente que a antiga religião egícpcia traz uma profunda consciência ecológica. Na sequência do processo do julgamento, se a alma finalmente for absolvida, Thot, deus da sabedoria, declara que o defunto tem a verdade na voz, fazendo o seguinte discurso aos deuses:

"Ouvi esse julgamento (recita o julgamento do morto), verificou-se que ele é puro, (recita os motivos) e ser-lhe-ão concedidas oferendas de comida e a entrada à presença de Osíris, juntamente com uma herança perpétua no Sekht-Ianru, o Campo de Paz (paraíso), como as que se consideram para os seguidores de Hórus".

Depois é conduzido perante Osíris, que o faz entrar no paraíso. Lá, no "Campo da Paz", será aperfeiçoado e elevado à condição de "santo", ou seja, digno do ambiente celestial. Assim poderá gozar para todo o sempre dos prazeres da vida eterna ao lado dos deuses.

Essa descrição é da época de Mencau-Ra (Miquerino em grego) e data de 3.800 aC., IV Dinastia. O papiro de NU permite observar que o código moral egípcio era muito abrangente, pois o falecido afirma ainda que... não lançou maldições contra um deus, não desprezou o deus da cidade, não maldisse o faraó, não praticou roubo de espécie alguma, não matou, não praticou adultério, nem sodomia, nem crime contra o deus da geração, não foi imperioso ou soberbo, nem violento, nem colérico, nem precipitado, nem hipócrita, nem subserviente, nem blasfemador, nem astuto, nem avaro, nem fraudulento, nem surdo às palavras piedosas, não praticou más ações, não foi orgulhoso, não aterrorizou homem algum, não enganou ninguém na praça do mercado, não poluiu a água corrente pública e não assolou a terra cultivada da comunidade.


Os Faraós

Máscara mortuária de Tutankhâmon (clique para ver detalhes)

Eram os soberanos absolutos do Egito Antigo, possuíam poderes plenos na sociedade, decidindo tudo sobre a vida política, religiosa, econômica e militar. A transmissão de poder no Egito era hereditária - desta forma, muitas dinastias perduraram centenas de anos no poder. Os faraós eram considerados deuses vivos, filhos diretos de Osíris, portanto agiam como intermediários entre os deuses e a população. Os impostos arrecadados no Egito também concentravam-se nas mãos do faraó, sendo que era ele quem decidia a forma como os tributos seriam utilizados. Grande parte deste valor arrecadado ficava com a sua própria família, sendo usado para a construção de palácios, monumentos, compra de jóias, etc. Outra parte era utilizada para pagar funcionários (escribas, militares, sacerdotes, administradores, etc) e fazer a manutenção do reino.

Ainda em vida o faraó começava a construir sua pirâmide, pois seria o seu túmulo, que deveria guardar, em segurança, seu corpo mumificado e seus tesouros. No sarcófago era colocado também o Livro dos Mortos com todas as coisas boas que o faraó fez em vida. Essa espécie de biografia era importante, pois os egípcios acreditavam que Osíris iria realmente utilizà-la para julgar os mortos.

Faraós famosos e suas realizações:

# Tutmés I – conquistou boa parte da Núbia e ampliou, através de guerras, territórios até a região do rio Eufrates.

# Tutmés III – consolidou o poder egípcio no continente africano após derrotar o reino de Mitani.

# Ramsés II – buscou estabelecer relações pacíficas com os hititas, conseguindo fazer o reino egípcio obter grande desenvolvimento e prosperidade.

# Tutankhâmon – o faraó menino, governou o Egito de 10 a 19 anos de idade, quando morreu, misteriosamente (assassinado? não se sabe ao certo). A pirâmide deste faraó foi encontrada por arqueólogos em 1922. Dentro dela foram encontrados, além do sarcófago e da múmia, muitos tesouros impressionantes.

# Amenófis IV - na verdade Akhenatom ou Amenhotep (Amenófis é a versão helenizada). O famoso "Faraó Herege", que implantou o monoteísmo no Egito, banindo todas as incontáveis divindades em benefício de Atom, o Sol, que passou a ser representado na forma de um disco. Pela primeira vez, um deus era representado sem corpo humano: impor aos egípcios a adoração de uma imagem não humana representou uma revolução sem precedentes. Logo após o seu reinado, o Egito retornou ao politeísmo. Ainda pretendo falar mais sobre ele, numa próxima oportunidade.


A maldição da múmia do faraó

No começo do século XX, os arqueólogos descobriram várias pirâmides no Egito Antigo. Nelas, encontraram diversos textos, entre eles, um que dizia: "...morrerá aquele que perturbar o sono eterno do faráo...". Alguns dias após a entrada nas pirâmides, vários arqueólogos morreram de forma estranha e aparentemente sem nenhuma razão lógica. O medo espalhou-se entre a população, e os jornais divulgavam que a "Maldição do Faraó" ou "Maldição da Múmia" estava fazendo vítimas. Alguns estudos verificaram que eles haviam morrido por inalar, dentro das pirâmides, fungos mortais e raros que atacam órgãos internos do corpo. Mas até hoje há quem não se dê por satisfeito com tal explicação...

O consagrado egiptólogo Zahi Hawass, que fez algumas das mais importantes descobertas arqueológicas nessa área, ao supervisionar a primeira tomografia computadorizada da múmia do faraó Tutancâmon (em 2005), declarou recentemente que "a experiência indicou que não se deve desacreditar totalmente a lendária 'maldição da múmia'". A tomografia computadorizada produziu imagens tridimensionais dos restos mortais do jovem faraó.

"Não posso descartar a lenda da maldição porque hoje muita coisa aconteceu. Quase sofremos um acidente de carro, houve um forte vento no vale dos Reis e o computador da tomografia ficou totalmente paralisado por duas horas", disse Hawass em declarações gravadas em vídeo e divulgadas recentemente por seu escritório.

Saiba mais aqui.


As Pirâmides


O período áureo da construção das pirâmides estendeu-se entre a III e a VI dinastias (de 2630 a 2150 aC). Nessa época quase todos os faraós e muitas de suas rainhas foram enterrados em túmulos com a forma de pirâmides. A maior parte das pirâmides dessa época foi construída na orla do deserto (que na época não era deserto) a oeste do Nilo, nas proximidades de Mênfis, entre a localidade de Meidum ao sul e Abu Rawash ao norte.

Em egípcio esse tipo de túmulo era chamado de "Mer", palavra que se supõe não ter tido qualquer significado descritivo. A palavra pirâmide, por sua vez, era grafada "pi-mar". Existe ainda um termo geométrico — "per-em-us" — usado em um tratado matemático egípcio para indicar a altura de uma pirâmide. Foram os gregos, entretanto, que chamaram tais monumentos de "pyramis" (plural 'pyramides'), o que resultou na palavra "pyramid" em inglês. Ao que tudo indica a palavra grega não deriva de nenhum vocábulo egípcio, mas trata-se apenas do nome que os gregos davam a uma espécie de doce feito com farinha de trigo. Acreditam os estudiosos que os antigos gregos associaram as pirâmides a essa guloseima, provavelmente porque quando vistos à distância os monumentos lhes pareciam enormes bolos.

Do ponto de vista construtivo, a pirâmide foi uma evolução do tipo de túmulo conhecido como "mastaba". De fato, a mais antiga que se conhece nada mais é do que a superposição de várias mastabas de dimensões progressivamente menores. Erguidas com rigor geométrico, as pirâmides estavam sempre perfeitamente orientadas em conformidade com os pontos cardeais e, sem dúvida, edificá-las exigiu impressionantes conhecimentos matemáticos e astronômicos. As três maiores, as de Gizé, foram orientadas com tanta precisão que se pode ver a estrela polar de qualquer ponto da estreita entrada.

Atualmente as pirâmides só nos transmitem um pálido reflexo do que foram um dia, pois nos mostram apenas a sua estrutura interna formada por imensos blocos de pedra, talhados e sobrepostos em degraus. Originalmente, porém, tais blocos eram cobertos por um revestimento uniforme e reluzente de pedra calcária e, assim, cada face formava uma superfície realmente impressionante e extremamente bela, plana e polida! Na pirâmide de Kéfren ainda hoje chama logo a atenção a permanência em seu topo de uma pequena parte desse revestimento de pedras calcárias. É muito difícil imaginar, hoje, o incrível esplendor original destes descomunais monumentos de mais de 140 metros de altura reluzindo à luz do sol ou da lua (Kéops=146m, Kéfren=143m - mais altas que os maiores edifícios da cidade de São Paulo, em pleno séclulo 21!)!

De modo geral elas comportavam em seu interior uma câmara mortuária contendo um sarcófago de pedra dura. Ao redor delas estendia-se uma ampla superfície coberta de lajes e delimitada por um muro. Elas não eram, entretanto, construções isoladas, mas sim faziam parte de um conjunto de edificações que as acompanhavam, principalmente templos e capelas, além de túmulos de familiares e dignatários do faraó. Na maioria dos casos o complexo piramidal era formado por uma pirâmide principal, uma ou mais pirâmides secundárias, um templo situado junto ao vale do Nilo, na orla da área cultivável, e outro localizado junto à pirâmide e, ainda, uma calçada, também chamada de avenida, que unia os dois templos, separados entre si, às vezes, por distâncias superiores a um quilômetro. Nas proximidades de todo esse conjunto e ocupando grandes extensões, as mastabas dos membros da família reinante e dos cortesãos, simétricamente dispostas, formavam grandes cemitérios.

É comum encontrar-se ao lado das principais pirâmides uma ou mais pirâmides menores chamadas subsidiárias ou secundárias. Supõem os arqueólogos que algumas se destinavam ao sepultamento das rainhas. Outras, entretanto, provavelmente não teriam tal finalidade, mas sim visavam sepultar as vísceras dos faraós, as quais eram retiradas dos corpos durante o processo de mumificação e guardadas nos vasos canopos.


A Esfinge


A esfinge egípcia é uma antiga criatura mística icônica usualmente tida como um leão deitado estendido — animal com associações solares sacras — com uma cabeça humana, usualmente a de um faraó. Vistas como guardiãs na estatuária egípcia, esfinges são descritas em uma destas três formas:

# Androsfinge (Sphinco Andro)- corpo de leão com cabeça humana;

# Criosfinge (Sphinco Oedipus)- corpo de leão com cabeça de ovelha;

# Hierocosfinge (Sphinco Oedipus Rex)- corpo de leão com cabeça de falcão.

A maior e mais famosa é Sesheps, a esfinge de Gizé, situada no planalto de Gizé no banco oeste do rio Nilo, feito em dois ao leste, com um pequeno templo entre suas patas. O rosto daquela esfinge é considerado a cabeça do faraó Kéfren ou possivelmente a de seu irmão, o faraó Djedefré, o que dataria sua construção à quarta dinastia (2723 aC–2563 aC). Contudo, há algumas teorias alternativas que redatam a esfinge ao Pré-Antigo Império – e de acordo com uma hipótese, a tempos pré-históricos.


Hieróglifos

Durante quase 15 séculos, a humanidade olhou fascinada para os hieróglifos egípcios sem lhe entender o sentido. Os sacerdotes egípcios do século IV de nossa era foram os últimos homens a utilizar essa linguagem. Eles, mantendo-a fechada, fizeram com que o significado das mensagens se perdessem. Os Europeus da época pensavam que os hieróglifos eram instrumentos místicos de algum rito demoníaco.

Os hieróglifos podem ter começado em tempos pré-históricos como uma escrita por meio de imagens. Embora os egípcios nunca tivessem formado um alfabeto como o conhecemos, estabeleceram símbolos para todas os sons consonantais da sua língua. O sistema mostrou-se notavelmente eficiente. Combinando-se fonogramas, formavam-se versões esquematizadas de palavras.

Nem todos os hieróglifos abandonavam a sua função de imagens de palavras para se tornarem símbolos fonéticos. Pelo menos 100 hieróglifos eram usados para representar a palavra que retratavam, sendo usados também como determinativos do significado das palavras.

Durante 3000 anos constituíram a linguagem monumental do Egito. A última inscrição conhecida é do ano de 394 dC, quando o Egito já era uma província romana. Já então, muitos hieróglifos tinham sido propositadamente obscurecido pelos escribas sacerdotais, fazendo com que os sinais fossem incompreensíveis para a maioria dos egípcios.

Em 1822, um linguista francês provou que os desenhos podiam formar palavras não relacionadas com a imagem. Só então os homens do Ocidente começaram a compreender que tinham diante de si toda uma linguagem que representava uma chave para um tão povo misterioso.


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Desde os tempos mais remotos, (II Dinastia), a religião egípcia chegou a tender para o monoteísmo, mas este só veio a aflorar na XVIII Dinastia, (1.500 aC), com Amenófis IV (Akhenatom), sua rainha Nefertiti, a Bela, e seu deus Aton - para quem constrói uma cidade fora de Tebas, Tel El Amarna. Esse culto durou apenas no seu reinado e, depois, foi proscrito de todo Egito. Essa história anda muito em voga hoje em dia. Como dito mais acima, gostaria de voltar a este assunto numa oportunidade futura, já que o tema por si só é suficientemente extenso para um post. De uma maneira diferente das nossas concepções atuais, mas não seria incorreto dizer que no Egito chegou a se desenvolver um códice de elevadas concepções morais e espirituais, extremamente maduras e sérias, entre elas, a idéia do Deus Uno, Auto Gerado e Auto Existente. Segue um trecho do Papiro de Hunefer (1.370 aC):

"Rendo homenagem a Ti, que és Rá quando te levantas e Temu quando te pões. És o Senhor do Céu, és o Senhor da Terra; o Criador dos que habitam nas alturas e dos que moram nas profundezas. És o Deus Uno que nasceu no principio dos tempos, criaste a Terra, modelaste o Homem, fizeste o grande aqüífero do céu, formaste Hapi, (o Nilo), criaste o grande mar e dás vida a quantos existem dentro dele. Juntaste as montanhas umas às outras, produziste o gênero humano e os animais do campo, fizeste os céus e a terra. Salve, oh Tu, que fizeste nascer a Ti mesmo. Salve Único Ser poderoso, de miríades, de formas e aspectos, Rei do mundo! Homenagem a Ti (...). És desconhecido e nenhuma língua será capaz de descrever o Teu aspecto; só mesmo Tu és Uno. Os homens Te exaltam e juram por Ti, pois és Senhor deles."


Egito hoje - Oficialmente República Árabe do Egito (R.A.E.), Estado do continente africano, com 1.000.000 de km2. População: 58.300.000 habitantes. Língua oficial: árabe. Religião: 80% islâmica (principalmente sunita). Muito diferente do tempo dos faraós, hoje, pouca chuva cai sobre o Egito, então quase todos moram ao longo da única fonte atual de água, o velho rio Nilo, que toca em apenas 4% as terras do Egito, fazendo dele uma das regiões mais abarrotadas do mundo. Cairo, a capital, é a maior cidade árabe e a maior cidade da África. É tão apinhada que as pessoas moram em prédios cuja construção ainda nem está terminada. A maioria dos egípcios descende dos antigos egípcios e dos invasores árabes do século VII, que se espalharam numa área hoje conhecida por Arábia Saudita. Além de ter a maior população árabe do mundo, o Cairo é um centro da cultura muçulmana.

Não deixa de ser deprimente a comparação entre o Egito que foi a maior nação da Terra, a mais rica e avançada em cultura e realizações prodigiosas e o o Egito de hoje.

# Foi recentemente criado um novo grupo intitulado 'Luxor Egiptology', cujo objetivo é divulgar informações e noticias e organizar eventos ligados à egiptologia na área de Luxor, destinando-se especialmente aos residentes e visitantes. O endereço do website é:

http://www.luxoregyptology.org/.

Um dos melhores sites da web sobre egiptologia disponíveis em língua portuguesa:

http://www.mariomarcia.com/Egipto.htm

Sobre o tesouro do faraó Tutankhâmon, com muitas fotos e notícias recentes:

http://www.starnews2001.com.br/egypt/pharao.htm


Fontes e bibliografia:
O Livro dos Mortos, Hemus, Editora LTDA SP.
A Religião Egípcia, E. A Wallis Budge, Cultrix, SP.
As Pirâmides: a Solução de um Enigma,1988 - Davidovits, Joseph (Record) -
The Pyramids of Egypt, 1978 - Edwards I. E. S (Penguin Books Ltd)


( comentários

Religião do Antigo Egito - A lenda de Osíris

Fica claro para os egiptólogos a antiguidade do culto a Osíris, que alcançou o auge no Médio Império, quando foi explicitamente refletido nas práticas funerárias, independentemente do culto ao próprio deus em templos específicos. Mas... será que existiu um dia um personagem histórico chamado Osíris?

Osíris em "Amenti" - à esquerda, seu filho, o deus Hórus (falcão).


A lenda de Osíris

Rá, o deus-sol, descobrindo que Nut, a senhora dos céus, estivera em companhia de Geb (Terra), lança sobre ela um terrível castigo: a deusa não poderia ser mãe em nenhum dia do ano. Mas o deus Thot, também apaixonado por Nut, em um jogo com a lua ganhou-lhe a sétima parte de cada uma de suas luminárias. Juntando essas partes, que formavam ao todo cinco dias, acrescentou-as aos trezentos e sessenta dias que o ano tinha até então. Por isso é que os anos têm 365 dias, e assim Nut pôde gerar filhos.

No primeiro dia lhe nasceu Osíris (que se tornaria o deus dos deuses); no segundo Hórus (o velho); no terceiro Seth; no quarto Ísis; e no quinto dia, Néftis. Seth casou-se com Néftis e Osíris com Ísis.

Osíris dedicou-se a civilizar seus súditos, os homens mortais, desviando-os do seu antigo estilo de vida nômade, indigente e bárbaro. Ensinou-os a cultivar a terra e a aproveitar da melhor maneira os seus frutos; ensinou-os a trabalhar com os metais e a fazer armas para se defenderem das feras. Convenceu-os a viver em comunidade e a fundar cidades; deu-lhes um conjunto de leis para que por elas o povo regulasse sua conduta e instruiu-os na reverência e adoração aos deuses.

Ísis, a irmã-esposa de Osíris, curava as doenças dos homens e expulsava os espíritos malignos com magia; fundou a família; ensinou os homens a fazer pão e às mulheres todas as artes femininas. Osíris decidiu levar esses conhecimentos ao resto do mundo e confiou a regência do seu trono a Ísis. Mas durante a ausência de Osíris, seu irmão Seth tentou apossar-se do trono. Foi frustrado em suas intenções por Ísis.

Osíris regressou de sua viagem, concluída com êxito, e Seth armou nova trama: tirou as medidas do corpo do irmão, em segredo, e mandou fazer uma bela arca, adornada e realçada com pedras. Deu uma festa em comemoração ao retorno de Osíris e propôs que presentearia com a arca a quem nela entrasse e a preenchesse com o próprio corpo.

Todos os convidados entraram na arca mas nenhum conseguia ocupá-la totalmente. Chegou a vez de Osíris, cujo corpo de grande estatura adaptou-se perfeitamente à arca. Mas o deus Seth, enciumado, junto com seus cúmplices fechou a arca, lacrando-a e lançando-a no rio Nilo.

O dia do assassinato de Osíris foi o 17º do mês de Háthor (novembro) quando o sol estava na constelação de escorpião. De acordo com alguns, Osíris estava no 28º ano de seu reinado e, de acordo com outros, no 28º ano de idade.

Quando a notícia do assassinato alcançou Ísis, que estava na cidade de Coptos, ela imediatamente cortou uma das mechas dos seus cabelos, colocou roupa de luto e vagou pelo país em estado perturbado procurando a caixa que continha o corpo de seu amado.

Sete escorpiões escoltavam a deusa que chegou à cidade de Pa-Sin em trapos e esgotada. Daquele jeito, e com tão ameaçadora comitiva, não encontrou quem a hospedasse. Uma mulher chamada Usa fechou-lhe a porta no rosto. Os escorpiões, vingando o insulto à deusa, injetaram seu veneno em sua dirigente, Téfen, que entrou na casa da mulher, encontrou o seu filho e picou-o. O veneno era tão poderoso que a casa foi envolvida em chamas. Usa não encontrou água para apagar o incêndio e correu em desespero com o filho nos braços. Ninguém a socorreu, mas a deusa Ísis acabou por ter pena dela e fez com que uma chuva apagasse o incêndio. Ordenou, também, que o veneno saísse da criança. Usa, reconhecendo a deusa, implorou-lhe perdão e ofereceu presentes a Ísis.

Uma outra mulher, de nome Taha, apiedou-se da deusa e a acolheu. Ísis continuou a sua busca e soube, por algumas crianças que brincavam à margem do rio, que a caixa procurada havia passado por ali em direção ao mar.

Nesse meio tempo as ondas carregaram a caixa para a costa da Síria e a lançaram em Biblos, e tão rápido repousou sobre a terra, uma grande árvore ('Erica') brotou dela de repente, desenvolvendo-se toda em torno da caixa, cercando-a por todos os lados.

O Nome do rei de Biblos era Melkart e o de sua esposa Astarte (ou Ishtar, Ashtoreth, Astarot, Astartéia...). Melkart viu a árvore de tamanho descomunal e mandou cortá-la para fazer com ela um pilar para o seu palácio. Ísis chegou a Biblos e soube da árvore que cresceu da noite para o dia e do destino que teve. Instalou-se à beira da fonte onde as criadas da rainha apanhavam água. Então conversou com elas, e enquanto isso começou a penteá-las, transferindo-lhes parte do perfume que emanava do seu corpo.

A rainha notou a diferença em suas criadas e isso despertou o seu interesse em conhecer quem as havia arrumado e educado. Ísis foi levada à sua presença, mas não se revelou. A rainha a fez ama do príncipe, a quem Ísis amamentou com o dedo em lugar do seio. Punha-o toda a noite no fogo para que este lhe consumisse a parte mortal. Transformava-se em uma andorinha e voava em torno da coluna lastimando seu próprio destino.

Uma noite a rainha entrou no quarto e viu o filho envolto em chamas e guardado por sete escorpiões. Gritou e o rei e os guardas a acudiram, mas ficaram paralisados diante da cena que presenciaram. Surgiu Ísis que, com um gesto, apagou as chamas, revelando-se para os reis. Contando a sua história explicou que, grata pela hospitalidade, decidira tornar o príncipe imortal, mas a mágica fora interrompida e não faria mais efeito.

A rainha se entristeceu, mas o rei ficou feliz, apesar de tudo, com a honra de acolher uma deusa, deu-lhe a coluna de madeira, de onde Ísis retirou a arca que continha o corpo de Osíris. Depois envolveu a coluna em linho, derramou sobre ela óleos perfumados e a devolveu aos reis como lembrança e relíquia poderosa.

A deusa voltou ao Egito escoltada por outros dois filhos do rei de Biblos. Em determinado ponto da viagem ordenou que a caravana parasse e abriu a caixa com o corpo do marido. Transtornada pela dor, gritou de forma tão espantosa que um dos filhos do rei ficou louco; o outro, que olhou a deusa em seu desespero, caiu morto de medo.

Ísis ficou só e tentou todas as fórmulas mágicas para trazer Osíris de volta à vida. Transformou-se em um falcão e agitou as suas asas sobre ele para restituir-lhe o sopro de vida. Num breve momento em que seu intento foi conseguido, Ísis foi fecundada. Continuou levando o corpo de Osíris para o Egito, e quando chegou ao seu país, escondeu a arca nos pântanos.

Enquanto caçava à luz da lua, Seth encontrou a arca, abriu-a e viu os restos do irmão. Furioso, despedaçou o corpo em catorze partes e as espalhou pelo Egito. Isso fez com que Ísis recomeçasse a sua busca, desta vez para reconstituir o corpo do marido. Ajudada por Anúbis, que tomou a forma de um chacal negro para farejar os restos de Osíris, Ísis conseguiu encontrar todos os pedaços, menos um: só não encontrou o falo do deus, que, atirado ao Nilo, fora devorado por um peixe. Ao contrário de Min, o deus da fecundidade - representado com o falo rígido - Osíris não tem pênis. Isso não faria muita diferença prática para os deuses egípcios, capazes de fecundar e gerar filhos assexuadamente, mas essa curiosa característica sem dúvida tinha algum significado próprio. Em cada local que Ísis descobriu uma parte do corpo de Osíris, foi levantada uma capela.

Então Ísis recompôs o corpo de Osíris, chamou sua irmã Néftis e os deuses Toth e Anúbis. Todos juntos tentaram restituir a vida a Osíris. Anúbis embalsamou o corpo do deus, e surgiu assim a primeira múmia, envolta em linho e em peles de animais, recoberta de amuletos. Nas paredes do sepulcro de Osíris foram gravadas fórmulas rituais e junto ao sarcófago foi colocada uma estátua semelhante ao deus que ressuscitou mas não podia mais reinar sobre a terra. Assim tornou-se "rei do lugar que fica além do horizonte ocidental".

Logo, o corpo de Osíris transformou esse lugar que era triste num local fértil e rico em colheitas.

Depois do sepultamento, Ísis voltou a se esconder nos pântanos. Quando nasceu o seu filho Hórus, a mãe deu-lhe amor e invocou sobre ele a proteção de todos os deuses. Hórus tem uma mecha de cabelo que nasce no meio da cabeça raspada - Osíris e Ísis têm forma inteiramente humana (excessão à pele verde de Osíris), mas Hórus tem cabeça de falcão. Ísis ensinou-lhe a magia e o educou em memória do pai. Hórus cresceu como o sol nascente. Ele próprio era um grande falcão que cortava os céus.

Quando Hórus ficou maior, finalmente Osíris voltou à terra, para fazer dele um guerreiro. Hórus reuniu todos os fiéis a Osíris e partiu sobre Seth para vingar a morte do pai, mutilando-o e esterelizando-o. Seth, por sua vez, transformou-se num grande porco negro e devorou o olho esquerdo de Hórus; e assim, a lua parou de iluminar a noite.

Ísis suplicou a seu filho que pusesse fim ao massacre, mas Hórus, num ímpeto de ódio, decepou a cabeça da própria mãe.

Thot curou-a colocando uma cabeça de vaca em lugar da sua. A batalha recomeçou, mas ficou sem vencedores nem vencidos.

Thot curou Seth, mas impôs que este restituísse o olho de Hórus. A lua, então, voltou a brilhar. Os deuses levaram a questão a julgamento e o processo durou oitenta anos. Seth acusou Hórus de ilegitimidade. Hórus acusou Seth pelo assassinato do pai. Por fim, os deuses decidiram que Hórus ficaria como rei do Baixo Egito e Seth como rei do Alto Egito.

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No dia 16 de fevereiro de 2000, arqueólogos descobriram um sarcófago de granito, numa tumba localizada a 30 metros de profundidade, próximo as pirâmides de Gizé, no Egito. Segundo o arqueólogo egípcio Zahi Hawass, o sarcófogo pode pertencer ao verdadeiro Osíris!!

Um dos fatos mais admiráveis sobre a civilização egípcia é o cuidado que dedicavam ao sepultamento de seus mortos. Na verdade as múmias egípcias são quase como um símbolo do tempo dos faraós, e a prática milenar do embalsamamento fez chegar aos nossos dias, junto com os registros nos templos e nas paredes das tumbas, as marcas da vida que levavam os egípcios do mundo antigo.

Qualquer sociedade humana tem nas suas práticas um reflexo do seu universo mental. Não foi diferente com os egípcios. Eles eram extremamente ligados ao rio Nilo e à agricultura que as cheias lhes permitiam fazer, vinculando muitos dos seus símbolos míticos a elementos aquáticos e a fenômenos que podiam ser observados no seu próprio "em torno".

No cerne das práticas funerárias está embutida a lenda do deus Osíris, explicativa de um ideal que já foi exclusivo da realeza, até a quarta dinastia. Posteriormente, os ritos foram estendidos a membros da corte até serem difundidos por toda a população. Miticamente, a primeira de todas as múmias foi a de Osíris, dando assim justificativa à prática do embalsamamento. Essa lenda, mais que qualquer outra, exerceu uma enorme influência no espírito egípcio.


Fontes e bibliografia:
Osiris and the Egyptian ressurrection1, 1973 - Budge, E. A. T. Wallis (New York: Dover Publications Inc., 2 ed., , V. 1).
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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Religião do Antigo Egito

Osíris, Ísis e Néftis


"Tu és o Nilo, os deuses e os homens vivem da tua emanação."
Faraó Ramsés, "Hino à Osíris".


O Nilo, o "Rio dos Deuses", que corre ao longo de 6.400 Km - do coração da África até o Mediterrâneo - marcou todos os aspectos da vida e das crenças de diversos povos. Ainda podemos encontrar, até hoje, vestígios de antigos modos de vida nos planaltos da Etiópia, nos extensos pântanos do Sudão e nos campos do Egito. Foi às suas margens que surgiu a primeira das grandes civilizações do mundo.


No Egito, 6.400 anos atrás...

O Egito foi o berço da civilização ocidental. Foi ali que o homem fez as suas primeiras colheitas e que chegou mais próximo do antigo sonho humano de construir um paraíso na Terra, transformando as margens do Nilo numa espécie de “jardim do Éden”. Na atualidade, o talento dos antigos egípcios é cada vez mais reconhecido, e suas idéias ainda alimentam a nossa imaginação. Foram eles que inventaram a primeira língua escrita, gravando-a na pedra, e celebraram suas crenças em monumentos que permanecem através dos milênios. Criaram uma religião em que o homem e a natureza deveriam conviver em harmonia para sempre.

As crenças religiosas dos antigos egípcios tiveram uma influência importantíssima no desenvolvimento da sua cultura, embora nunca tenha existido entre eles uma verdadeira religião, no sentido de um sistema teológico unificado. A fé egípcia baseava-se no acúmulo não muito bem organizado de diversos mitos antigos, no culto à natureza e a inumeráveis divindades. No mais influente e famoso destes mitos desenvolve-se uma hierarquia divina e se explica a criação do mundo.

De acordo com o relato egípcio da criação, no princípio não existia nem céu, nem terra, e nada era senão o Oceano Primal, a água primeva sem limites, amortalhada, contudo em densa escuridão. Nessas condições, permaneceu por tempo incomensurável, muito embora contivesse dentro de si os germes de todas as coisas que, mais tarde, vieram a existir neste mundo, e o próprio mundo... Por fim, NU, o espirito da água primeva, o pai dos deuses, sentiu o desejo da atividade criadora e, tendo pronunciado a palavra, o mundo existiu - passou a existir imediatamente, na forma já traçada na mente do espírito. O ato da criação, seguinte à palavra, foi a formação de um germe ou ovo (segundo algumas versões de uma flor), do qual saltou Ra, o deus sol, dentro de cuja forma brilhante estava incluído o poder absoluto do espirito divino, o criador do mundo. Ra, o deus sol, adorado desde os tempos pré históricos, em 3.800 aC foi considerado rei dos os deuses (na IV Dinastia suas oferendas são apresentadas por Osíris que, mais tarde, suplanta o próprio Rá).

Rá deu à luz quatro filhos: os deuses “Shu” e “Geb” e as deusas “Tefnet” e “Nut”. Shu e Tefnet deram origem à atmosfera. Eles serviram-se de Geb, que se converteu na terra, e elevaram Nut, que se converteu em céu. Rá regia todas as coisas. Geb e Nut posteriormente tiveram dois filhos, “Seth” e “Osíris”, e duas filhas, “Ísis” e “Neftis”. Osíris sucedeu Rá como rei da terra, ajudado por Ísis, sua esposa e irmã. Mas Seth odiava seu irmão Osíris, e o matou. Ísis embalsamou o corpo do seu esposo com a ajuda do deus “Anúbis”, que desta forma tornou-se o deus do embalsamamento. Porém, os feitiços poderosos de Ísis ressuscitaram Osíris, que chegou a ser rei do mundo inferior, da terra dos mortos. “Hórus”, filho de Osíris e Ísis, derrotou posteriormente Seth, em uma grande batalha, tornando-se rei da terra.

Desse mito da criação surgiu a concepção da “Eneada”, grupo de nove divindades, e da tríade formada por um pai, uma mãe e um filho divinos - cada templo local tinha sua própria eneada e sua própria tríade. A eneada mais importante foi a de Rá, com seus filhos e netos. Este grupo era venerado em Heliópolis, centro do culto ao Sol no mundo egípcio. Já a origem das deidades locais é obscura: algumas vieram de outras religiões e outras de deuses animais da África pré-histórica - no cerne da antiga religião egípcia estava a crença de que homem e natureza deveriam conviver em harmonia, sendo de responsabilidade do homem zelar para que assim fosse.

A admiração dos antigos egípcios pelos elementos da natureza era tão grande que transformaram-nos em deuses. No antigo Egito o clima era muito mais úmido do que hoje, e as primeiras dinastias chegaram a conviver com elefantes, rinocerontes e girafas. Longe no Nilo, na Savana, viviam muitos grandes felinos e manadas de herbívoros, além de diversas outras espécies, uma harmonia de fauna e flora exuberantes. Assim, a fêmea do hipopótamo, voluptuosa e maternal, representava “Tauereth”, a deusa dos nascimentos. Seth, o deus do caos, era representado como um hipopótamo macho, já que à noite estes costumavam invadir os campos de colheita, provocando destruição e desordem. Graças à sua capacidade de enxergar além do horizonte, a girafa representava a previsão, e o búfalo era símbolo de poder e agressividade. O leão era rei, e o rei era visto e representado como um leão. Tábuas datadas de 3500 aC mostram o soberano egípicio como um feroz leão devorando seus inimigos. Mas não havia criatura mais bem adaptada para sobreviver no pântano do que o Íbis sagrado, que introduz no lodo o seu bico curvo, conseguindo assim capturar até a mais escorregadia das presas. Assim, “Thot”, o deus da sabedoria, era representado com corpo humano e cabeça de Íbis.

Todos estes elementos foram gradativamente se fundindo em uma complicada estrutura religiosa, ainda que relativamente poucas dessas divindades tivessem chegado a ser realmente importantes em todo o Egito. As divindades principais incluíam os deuses “Amon”, Thot, “Ptah”, “Khnemu” e “Hapi” e as deusas “Hator”, “Nut”, “Neit” e “Seket”. Sua importância aumentou com o crescimento político das localidades onde eram veneradas. Exemplo: a eneada de Mênfis era encabeçada por uma tríade composta pelo pai Ptah, a mãe Seket e o filho “Imhotep”.

De qualquer modo, durante as dinastias menfitas, Ptah chegou a ser um dos maiores deuses do Egito. De forma semelhante, quando as dinastias tebanas governaram o Egito, a eneada de Tebas adquiriu grande importância, encabeçada pelo pai “Amon”, a mãe “Mut” e o filho “Khonsu”. Conforme a religião foi se desenvolvendo, muitos seres humanos glorificados após a morte acabaram sendo confundidos com deuses. Assim Imhotep, que originariamente fora o primeiro ministro do governador da III Dinastia Zoser, chegou a ser conceituado como um semideus. Durante a V Dinastia, os faraós começaram a atribuir a si mesmos ascendência divina, e desde essa época foram venerados como filhos de Rá. Deuses menores, os demônios ocuparam também um lugar hierárquico entre as divindades egípcias.


Relação de alguns dos principais deuses e seus atributos (em ordem alfabética):

Anúbis - dos mortos e do submundo. Bastet - fertilidade, protetora das mulheres grávidas. Chu - ar seco, luz do sol. Geb - deus da terra. Hathor - amor, alegria, dança, vinho, festas. Hórus - deus Céu. Ísis - amor, da mágica. Khnum - criatividade, controlador das águas do rio Nilo. Maet --- justiça e equilíbrio. Osíris* --- ressurreição, vida pós morte, fertilidade, vegetação. Ptah --- obras feitas em pedra. --- deus Sol, o maior dos deuses, ao lado de Osíris. Seth --- tempestade, mal, desordem e violência. Sobek --- paciência, astúcia. Tefnut --- nuvens e umidade. Toth --- sabedoria, conhecimento, representante da Lua.

* Osíris era representado como um ser de pele verde (fertilidade da terra), sempre segurando um cajado de pastor numa mão e um mangal para cereais na outra - a mais perfeita imagem que se poderia conceber para o "senhor da vida".


Alguns conceitos básicos da antiga religião egípcia

Desde o momento em que o homem superou o animal e despontou como ser reinante sobre a terra, começou a enterrar os seus mortos e a lhes oferecer meios de sobreviver na vida eterna. Em suas tumbas, numa prática de oferendas mortuárias que perdura até hoje, faz ofertas de alimentos, utensílios, flores e outras dádivas. No Egito, desde 4.400 aC, no reinado de "Mena" - o 1º rei histórico daquele país (I Dinastia) - o egípcio esperava comer, beber e levar uma vida regalada na região onde supunha estar o "Céu"; e ali partilhar, para sempre, em companhia dos deuses, todos os prazeres celestiais.

A religião egípcia, como todas as outras religiões antigas, com execeção do Budismo, apresenta os deuses com vícios e virtudes, assim como os homens; porém, muito mais sábios e detentores da magia que os torna poderosos.

Mumificação - Já na IV dinastia, (3.800 a.C.), todos os textos religiosos supõem que se possa imunizar o corpo por inteiro, mumificando-o. O procedimento era o seguinte:

Primeiramente o cérebro do cadáver era extraído, pelas narinas. Depois, as "entranhas" eram retiradas pelo ânus ou por uma incisão na barriga; por fim o coração era também retirado e substituído por um escaravelho de pedra. Seguia-se uma lavagem e salgação onde o cadáver ficava por um mês. Depois era novamente secado, por mais um mês ou dois. Para evitar a deformação, o corpo era recheado de argila, areia, rolos de pano de linho, com muita atenção às formas anatômicas, como os seios, e embebidos em drogas aromáticas, ungüentos e betume. Geralmente o amortalhamento era feito em vários ataúdes de madeira, uns dentro dos outros e, finalmente, o corpo mumificado era colocado em um sarcófago de pedra.

A religião egípcia elaborou um conjunto de conceitos complexo e sofisticadíssimo, para entender e explicar a natureza do homem. Segundo esta, a natureza humana é composta de 8 partes:

1 - O corpo físico era "CAT".

2 - Ligado a esse CAT estava o seu duplo, também físico - o "CA", cuja existência é independente do CAT, sendo livre para viajar para diversos lugares à sua vontade. Oferendas eram deixadas nos túmulos para alimentar o CA, que come, bebe e aprecia o cheiro do incenso.

3. À alma imaterial chamavam "BA" - algo sublime, nobre, poderoso. O BA morava no CA e tinha forma e substância. Nos antigos papiros, aparece como um falcão com cabeça humana.

4. "AB", o coração, que era a sede da vida humana.

5. A inteligência espiritual, ou o espírito do homem, era "CÜ", a parte brilhante e etérea do corpo, que vivia com os deuses, no Céu.

6. Outra parte do homem que também ia para o céu era o "SEQUEM", sua força vital.

7. "CAIBIT", ou sombra, era uma parte considerada sempre próxima à alma (BA).

8. Por fim, temos "REN" - o nome do indivíduo. Trata-se de uma de suas partes mais importantes, pois se o nome fosse eliminado, poderia se destruir o(a) próprio(a) homem(mulher) como um todo.

Resumindo, o homem se constituía de corpo, duplo, alma, coração, inteligência espiritual, poder vital, sombra e nome. Mas essas 8 partes em algumas citações foram reduzidas a 3: corpo, alma e espírito. Na V dinastia (3.400 a.C.) afirmava-se de modo preciso: "A alma para o Céu e o corpo para a terra".


Para imagens e maiores informações clique aqui, aqui e aqui. Arquitetura antiga egípcia aqui.


Pequena amostra do legado da inacreditável civilização egípcia:



Continua...
A seguir: A lenda de Osíris - O Livro dos Mortos - a "Maldição do Faraó" - as pirâmides do Egito - a Esfinge (fontes e bibliografia na conclusão).



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