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quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Yoga


A primeira coisa que eu gostaria de dizer é sobre como pronunciar o nome da arte corretamente. Evite sempre dizer "a Ióga", - no feminino e com "Ó" aberto. - Apesar do uso comum (que dicionários e até bons professores aceitam), a palavra deriva do sânscrito (que é como se fosse o latim dos indianos), de uma tradição que muito valoriza a correta entonação das palavras. Na sua origem, "Yoga" é uma palavra do gênero masculino que se pronuncia com "Ô" fechado; portanto, o correto é dizer: o Yôga. Pode parecer exagero, mas certos estudantes que possuem algum conhecimento prévio acabam se utilizando desse parâmetro para escolher onde praticar: se o professor fala "a Ióga", preferem procurar uma outra escola. - Este pode ser um sinal de que ali não se conhece a matéria a fundo. - Complicado confiar em alguém que nem sabe pronunciar o nome da arte que ensina...

Polêmicas à parte, fato é que a palavra Yoga deriva da raíz sânscrita “YUJ”, que significa unir ou juntar, além de possuir inúmeras outras conotações, como dominar, subjugar, sujeitar, união, método, restrição, empenho e outras. Yoga indica o ato de dirigir e concentrar a atenção em algo, com o objetivo de aplicação e uso. Da mesma forma, significa união ou comunhão, e alude, na sua tradição, à verdadeira união de nossa vontade com a Vontade de Deus, o Absoluto; a sujeição de todos os poderes do corpo, pensamento e alma. Significa a disciplina da inteligência, da mente, da emoção e da vontade; um equilíbrio da alma que nos permite olhar da mesma forma todos os aspectos da vida. Outra concepção diria que o Yoga pode ser definido como "um método para se atingir uma meta". E o Yoga também é concebido como uma tentativa de explicação e solução para o enigma da vida.

Essa era a proposta original; um caminho de salvação ou liberação. Hoje, o Yoga está sendo adaptado para os costumes ocidentais: enquanto alguns grupos ainda se sentem atraídos por sua filosofia e espiritualidade, outros procuram apenas suas técnicas. - Há uma modalidade chamada Hatha Yoga, um método de cultura física e disciplina mental de inegável eficiência, que inclui em sua prática exercícios físicos vigorosos, respiração, meditação e relaxamento. O objetivo é a preservação da saúde e uma melhor qualidade de vida. Se você pretende conhecer melhor seu corpo, desenvolver força, flexibilidade, resistência física e serenidade mental, este sem dúvida é um ótimo caminho. - não há profissional de medicina ocidental que o desaconselhe.

Para o estudo mais aprofundado, interessa saber que o Yoga é um dos Seis Sistemas Ortodoxos da filosofia da Índia. Segundo a tradição, foi organizado em sua forma clássica por um sábio mítico conhecido como Patânjali (ou Patandjáli), que viveu, segundo diferentes especialistas, num período que varia entre IV aC e VI dC (veremos mais adiante o porquê de tamanha discrepância na datação histórica).

A saber, os Seis Sistemas Ortodoxos são:

1) Sankhya: Elaborada por Kapila no século VI aC, é uma filosofia dualista que considera o espírito distinto da matéria. Segundo ela, a salvação ou libertação (moksha) só é alcançada com a separação do Eu espiritual do mundo material;

2) Nyaya: em sua origem uma escola de retórica. Ensina que o instrumento para a obtenção do conhecimento é o raciocínio lógico;

3) Vaiseshika: fundada pelo lendário Kananda, que elaborou uma teoria atomista da matéria e considerava que a via da salvação era a compreensão das leis da natureza. Posteriormente, Nyaya e Vaiseshika acabaram se constituindo em uma única escola;

4) Purva Mimansa: significa “primeira investigação”. Baseada na autoridade dos Vedas, busca interpretar corretamente os mandamentos contidos nas suas partes mais antigas. Acentua a importância da correta ação (dharma);

5) Uttara Mimansa: significa “investigação posterior”. Mais conhecida como Vedanta, “fim dos Vedas”, baseia-se nos Upanishades, escritos místicos que buscam a compreensão do Absoluto;

6) O próprio Yoga: segundo a tradição, o sistema codificado por Patânjali, que reuniu o que considerava de melhor da tradição mística indiana em seus Yoga Sutras ('Aforismos do Yoga'), uma espécie de carta composta de 195 breves versos que servem de auxílio para transmissão oral de mestre a discípulo. - Em quatro capítulos Patânjali resume o processo e as ferramentas para a autoliberação.

Chamado "Yoga Clássico", "Raja Yoga" ('Yoga real') ou "Ashtánga Yoga" ('Yoga de Oito Membros'), o sistema organizado por Pátañjali se dividide, basicamente, em oito partes: yama, niyama, ásana, pránáyáma, pratyáhára, dháraná, dhyána e samádhi.

As duas primeiras partes, yama e niyama, são as restrições e prescrições éticas.

Yama significa controle ou domínio. - São as cinco restrições ou proscrições, - o "pontapé inicial" para os aspirantes:

Não usar nenhum tipo de violência (ahimsa); falar a verdade (satya); não roubar (asteya); não desvirtuar a sexualidade (brahmacharya); e não apegar-se (aparigraha). Esses refreamentos pretendem purificar o aspirante a yogue, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, órgãos sexuais e excretores.

Niyama, as prescrições psicofísicas, compreendem também cinco disciplinas:

A purificação (shauchan); o contentamento (santosha); a austeridade ou esforço sobre si próprio (tapas); o estudo de si próprio e da metafísica do Yoga (swádhyáya); e a consagração a Íshwara, o arquétipo do yogin perfeito (Íshwara pranidhána). Estas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção (jñánendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal do praticante.

Ásana, o terceiro estágio, compreende as posições físicas, firmes e confortáveis: “o ásana torna-se perfeito quando desaparece o esforço por realizá-lo, de forma que não haja mais movimentos no corpo”, segundo O Yoga Sútra de Pátañjali, que não é para iniciantes, mas para mestres. Daí a importância do estilo dos sútras. Cada palavra é significativa.

Por exemplo, a definição de ásana: "sthirasukham" (imóvel) e não "sukhamsthira" (confortável). Porque, primeiro, o corpo precisa ficar imóvel. Depois, vem sukham, o conforto. Su significa prazer. Kha refere-se aos indriyas, órgãos dos sentidos. O que significa que os sentidos ficarão automaticamente sob controle.

A posição sentada correta permite a prática de "pránáyáma" e "pratyáhára", os próximos passos. Mas isso só é possível quando há força, firmeza e flexibilidade no corpo. Para o yogue, o processo do ásana passa necessariamente pela construção de um corpo novo. Um corpo que não ofereça mais obstáculos para a circulação de energia.

Pránáyáma é o processo de expansão da energia vital através da respiração. A palavra é a combinação de dois termos: "prána", que significa alento, força vital, respiração, energia, vitalidade e "ayáma", que quer dizer expansão, controle, domínio, retenção, pausa. Segundo o Yoga Sútra, “pránáyáma consiste em controlar o processo de inspirar (shwása) e expirar (prashwása).” Na meditação, aumentamos o caudal de energia dentro do organismo. Mas, se o corpo não estiver preparado, haverá conflito.

Embora ásana e pránáyáma possam ser praticados para melhorar a saúde, aumentar força e flexibilidade, melhorar a disposição e outras coisas, a intenção original dessas técnicas é equilibrar o fluxo da energia no organismo, e prepará-lo para as técnicas que seguem. É impossível sentar para meditar se não estivermos acostumados a nos manter numa posição por um certo tempo, sem sentir o mínimo desconforto, sem que apareça nenhuma dor, nenhum movimento inconsciente, nenhuma dificuldade para respirar. Segundo o Yoga, estas técnicas fortalecem o sistema nervoso, regulam o metabolismo, melhoram a respiração, e ajudam a manter sob controle as emoções, atitudes e pensamentos.

Pratyáhára, a retração dos sentidos, é a faculdade de liberar a atividade sensorial do domínio das imagens exteriores. A mente é o maior obstáculo para meditar. Entretanto, antes de começar a trabalhar nela, precisamos colocar os sentidos sob controle. Desde o dia do nosso nascimento estamos sendo continuamente bombardeados por impressões, imagens, sons e sensações. Essas experiências alimentam o pensamento e nos arrastam para a experiência externa. Vivemos voltados para fora. O pratyáhára serve para desvincular-nos dessa invasão das coisas do mundo exterior. Sem ele, é impossível alcançar a meditação.

Ásana, pránáyáma e pratyáhára não são fins em si mesmos: objetivam unicamente dar ao praticante uma espécie de "infra-estrutura" física e mental firme para que possa suportar as transformações decorrentes do despertar da energia potencial que a tradição hindu chama de "kundaliní". Através destas técnicas preliminares, úteis também para superar os obstáculos iniciais (dúvida, preguiça, angústia, dispersão, etc.), o meditador se prepara para o Yoga em si, que começa com as técnicas de contemplação.

Dháraná, a concentração em um ponto só, se faz para limitar a atividade da consciência ao interior da imagem sobre a que se está meditando. Essa unidirecionalidade da consciência não se pode conseguir sem prática regular. Paradoxalmente, na prática de concentração não devemos forçar as coisas, não devemos entrar em conflito com a nossa mente. Uma concentração forçada não é real, pois só provocará mais tensão.

Dhyána, a meditação em si, consiste em parar o fluxo do pensamento. A meditação é o resultado espontâneo da concentração da consciência, e constitui a preparação necessária para atingir o objetivo do Yoga, o estado de iluminação. A meditação não pode se ensinar. A rigor, as instruções sobre como meditar terminam na concentração. Depois, o praticante deve continuar sozinho. Todas as técnicas levam você a esse estado, desde que praticadas com regularidade. Não há palavras para descrever dhyána. A única coisa que o Yoga afirma é que vale a pena o esforço. Para quem não experimentou esse estado, as palavras só irão provocar confusão e intelectualização. Ou seja, não há como se colocar alguém dentro da experiência real, apenas com descrições e explicações verbais. Quem tiver a experiência saberá que as palavras sobram, e que não podem ser usadas para descrevê-la.

Samádhi é a liberação final, o estado de iluminação em que o contemplador se absorve no "Purusha" ou Consciência Universal. No samádhi, o yogue se defronta face a face com experiências totalmente inacessíveis através do instinto ou da razão.




Fontes e bibliografia:
Profº Fred Peixoto;
Yoga Sutras de Patânjali;
Site Yoga.Pro;
Vidya Yoga.
Contém trechos extraídos do livro "Yoga Prático", de Pedro Kupfer.



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O último princípio essencial da Kabbalah


Marie Digby: "E se Deus fosse um de nós?"

Finalmente que finalmente atingimos o ponto de chegada nesta longa jornada em que corajosamente ingressamos, de investigar os princípios essenciais da Cabala. Meu sincero muito obrigado a todos os que vêm me acompanhando, desde o começo, e continuam junto comigo até aqui.

O décimo quarto princípio essencial da Cabala... Posso garantir que este é aquele que vai realmente trazer todas as explicações e toda a Luz que você estava esperando, desde o princípio.

Muitas pessoas procuram a Cabala esperando alcançar poderes mágicos ou desvendar de uma vez por todas os grandes Mistérios da vida. Pois eu digo que a partir da compreensão deste último princípio essencial, qualquer pessoa será capaz de atingir tudo isso. Todos os poderes especiais que são concedidos a nós, seres humanos; toda a compreensão de tudo que nos pode conduzir à Sabedoria Infinita, que por sua vez garantirá o nosso acesso ao poder ilimitado, e até mesmo à vida eterna... Sim, a chave para todas essas coisas está contida no décimo quarto e último princípio essencial da Cabala.

Você que chegou até aqui, nesta longa leitura, prepare-se; porque nesta postagem será revelado o segredo definitivo; a conclusão, o resumo de tudo, o conhecimento que encerra em si mesmo o potencial de levar o ser humano à capacidade de compreender a razão da sua existência, do princípio ao fim.

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Mas, exatamente por tudo que foi dito acima, antes de desvendarmos juntos esse último e maior segredo da Cabala, gostaria de registrar aqui um "resumo do resumo" das bases cabalísticas, o supra-sumo do que nos ensina a tradição dos antigos rabinos, ao final das contas:

Muitos encontram na Cabala uma profunda semelhança/similaridade com a doutrina cristã. Outros acham vários e importantes paralelos entre o que ela diz e os ensinos do Buda. E outros ainda encontram muitos pontos equivalentes entre os princípios de diversas outras grandes escolas filosófico/religiosas e a Cabala.

Todos estão certos. E isso não deveria nos surpreender, porque todo aquele que busca a Verdade acaba por encontrá-la, não importando as suas origens, a tradição a que pertence, a religião em que foi criado, etc... Se você procura a Verdade com determinação, com inquietude, com o coração aberto e a mente limpa e desimpedida, cedo ou tarde vai encontrá-la. Ou melhor, ela, a Verdade, é que vai achá-lo, mesmo que você esteja completamente perdido. E nessa hora o filho pródigo volta para casa...

Na realidade, a Cabala se tornou, através da História, uma tradição de grande importância no que tange à mecânica que serve como fundamento para muitas formas de busca espiritual. Como sabemos, sua origem é judaica. Ela se baseia nas escrituras judaicas e, sobretudo, nas suas letras hebraicas. O que basicamente se crê da Cabala de base judaica, é que Deus criou todas as coisas através do Verbo (que para os cristãos é o próprio Cristo), e como as Escrituras são em hebraico, Deus teria criado tudo através da linguagem hebraica; poderíamos dizer que Ele criou o hebraico e encerrou nas suas letras e seus significados toda a História da Criação. - Isto a tal ponto que cada letra, em si, corresponderia a uma criação ou criatura; e a soma delas, na forma das Escrituras, encerraria toda a História. - Assim, cada personagem bíblico corresponderia a uma ação divina (Abraão, por exemplo, seria a personificação da “compaixão”). Também cada lei levítica e cada ritual do Velho Testamento corresponderiam a uma descrição de algum Aspecto divino.

O auge dos estudos cabalísticos em Israel aconteceu pouco tempo após a morte de Jesus. Já na passagem do primeiro para o segundo século de nossa era, a Cabala assentou suas bases na Galiléia; - o que faz com que até hoje os cabalistas mais tradicionalistas creiam que o Messias virá da Galileia. - Embora para os cristãos e também para alguns grupos dos judeus (como por exemplo os ebionitas) ele já tenha vindo na pessoa de Jesus, que foi chamado "Galileu". Por volta de 1600 os cristãos europeus começaram a se interessar pela Cabala.

É importante sabermos também que a Cabala se desenvolveu em tempos de suposta "inatividade" de Deus, do ponto de vista dos judeus ortodoxos. É por isso que a Cabala pretende nos oferecer um caminho diferente: “Já que Deus não nos fala mais e nem vem mais a nós, descubramos meios e modos de irmos a Deus, nós mesmos. Descubramos também modos de fortalecer o Nome de Deus em nossas práticas do bem neste mundo.”

Foi dessa maneira que se desenvolveu o estudo dos Nomes Divinos (os 72 Nomes, sobre os quais já falamos aqui e aqui), bem como de nomes de anjos. Daí ser algo da natureza mecânica do elemento místico. Em todas as grandes épocas de crise e impotência humana a Cabala cresceu, pois em tempos de "silencio dos céus" poucos são os que continuam a andar firmes apenas pela força da fé.


Ao final de tudo, podemos dizer que a tradição da Cabala postula, basicamente, o seguinte:

# A razão da Criação é o Amor; isto é, o Universo e tudo que ele contém, nossas vidas inclusas, é o resultado da Vontade do Criador de compartilhar e ser compartilhado;

# O aumento de Amor e Justiça traz Deus ao mundo;

# De outro lado, a prevalência da maldade enfraquece o poder de Deus neste mundo e dá lugar ao crescimento do mal. Daí Deus requisitar os esforços humanos para vencer o mal no mundo, que a tradição cabalista denomina "Satan";

# É preciso quebrar a "Lei do Tikun": Quebrar o ciclo. Como visto em postagens anteriores, o tikun é a expressão judaica para o que comumente chamamos lei de ação e reação, e que algumas tradições chamam de “karma”, que significa que atos, pensamentos e atitudes ruins geram uma espécie de "dívida" espiritual, que necessariamente precisará ser resgatada, nesta vida ou depois dela. Tudo que acontece tem uma causa. Não há efeito sem causa, e para cada ação há uma reação em igual intensidade. "Karma", "tikun", ação e reação, movimento contínuo, pressão e resistência... tudo reflete esta Lei universal incontestável. Toda a Criação está submetida a Lei de Ação e Reação, e segundo a Cabala, quebrar o lei do Tikun em nossas vidas significa cessar este ciclo de reações em cadeia; o que só pode ser feito mudando-se o nosso modo de vida e cessando nossas reações passionais e automáticas, isto é, impensadas.

# Devemos aprender a resistir, ao invés de reagir. Sobre isto falamos no post sobre o princípio essencial nº 4. O segredo do nosso sucesso, em todos os níveis, passa por aprendermos a deixar de apenas reagir aos acontecimentos e nos tornarmos proativos, isto é, donos de nossas próprias decisões e dos nossos atos, e não marionetes que reagem inconscientemente a cada nova provocação do mundo, deixando que os estímulos externos sejam mais fortes que a nossa própria vontade.

# Assuma as responsabilidades. Profundamente relacionado com o item anterior, a Cabala nos exorta a deixarmos nossas posições de "vítimas" e tomarmos a iniciativa sempre que possível, em todas as situações, no sentido daquilo que queremos ser.

# Seja a causa. Seja pró-ativo. Mais uma vez, a mesma verdade: se quiser ser feliz, se quiser obter sucesso em sua vida, em qualquer área, busque deixar de ser uma conseqüência - daquilo que fizeram para você, daquilo que a vida fez com você, das injustiças que sofreu, dos revezes de que foi vítima... - E passe a causar você mesmo as conseqüências em sua vida. Torne-se a causa.

# A maior tentação em tempos difíceis é acreditar que podemos encontrar meios de "controlar" Deus e fazê-lo agir conforme as nossas necessidades, como ensinam diversas falsas tradições ditas esotéricas.

# Deus é Deus, mesmo que todos nós sejamos o que Ele não é! Em algum nível, é certo dizer que "somos Deus", mas entender isto ao pé da letra constitui o maior engano que seria possível a nós, seres humanos. Esta é exatamente a missão de Satan neste mundo, desde o começo: fazer-nos acreditar que somos iguais a Deus. Pois aceitar Deus como Deus é justamente o primeiro passo para transcendermos a nossa condição humana limitada e fraca.

# O chamado da Escritura para a prática da bondade não é para fortalecer a Deus, mas sim para curar o homem.

# Lembrarmos e meditarmos na forma como os santos e profetas viveram, dedicando seu tempo todo em função do próximo e da Vontade de Deus, faz com que nos conscientizemos do extremo egoísmo com que agimos a maior parte do tempo, só gastando as sobras de nosso tempo para servir a nossos propósitos egoístas.
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Mas por que estou reafirmando todas essas coisas antes de revelar, afinal, o décimo quarto e último princípio essencial da Cabala, aquele que encerra em si o Caminho da nossa Liberdade, o poder de alcançarmos a felicidade e a Vida plena? Bem, primeiro porque eu queria que ficasse muito claro que todo o esforço valeu a pena. Que os meus objetivos com essa série de postagens foi atingido. Que a essência por trás dos ensinos dos antigos rabinos foi compreendido, ao menos basicamente. E também porque o último princípio não necessita de nenhuma espécie de comentário ou complemento. - Ele precisa apenas ser aceito e praticado.

Aí vai o último princípio essencial da Cabala, aquele que resume todos os outros. A chave que abre todas as portas, neste e em outros mundos. Você com certeza já ouviu falar dele em algum momento; ele está bem diante dos nossos olhos, sempre, mas por algum motivo a maioria de nós parece não poder enxergá-lo, isto é, compreendê-lo. Persiga-o; descubra-o; encontre-o em si mesmo. E depois que encontrá-lo, medite nele noite e dia. Cultive-o dentro de si com todo cuidado, com toda a sua alma, e nunca mais o esqueça. E seja feliz para sempre. Leia-o abaixo:

Apresentando o décimo quarto e último princípio essencial da Cabala:

"AMA O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO, E ASSIM APRENDERÁS A AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS; TODO O RESTO É APENAS COMENTÁRIO. AGORA VAI E APRENDE A FAZER ISSO. QUANDO APRENDER, TUA MISSÃO ESTARÁ CONCLUÍDA!"





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Princípio essencial da Kabbalah #13

uma diversidade de formas para se abordar a cada um dos princípios essenciais da Cabala, e se você fizer uma busca na web vai perceber que sobre eles pairam interpretações diversas. Das mais fidedignas às mais delirantes. Das isentas de interpretação até as mais pessoais e distorcidas por doutrinas muito mais recentes. Diferentes autores, adeptos de correntes religiosas diferentes, procuram modelar os princípios cabalistas aquilo que aprenderam em suas próprias escolas. Gostaria de deixar registrado que tudo que eu tenho publicado sobre Cabala, aqui no Arte das artes, é a expressão da sua doutrina tradicional, o mais próximo possível da interpretação "oficial" dos antigos rabinos.

Apresentando agora o décimo terceiro princípio essencial da Cabala:

"Todas as características negativas que você vê nas outras pessoas são simplesmente um reflexo das suas próprias. Somente consertando a si mesmo você pode mudar os outros."


E eu queria começar a abordar esse princípio contando uma linda história mítica:


"Caim e Abel pararam na beira de um imenso lago. Jamais tinham visto algo semelhante.

'Tem alguém aí dentro', disse Abel, olhando para a água, sem saber que via seu reflexo.

Caim reparou a mesma coisa, e rapidamente levantou seu bastão! A imagem fez a mesma coisa. Caim ficou aguardando o golpe, assustado; sua imagem também.

Abel contemplava calmamente a superfície da água. Sorriu, e a imagem sorriu. Deu uma boa gargalhada, e viu que o outro o imitava.

Quando saíram dali, Caim pensava:

'Como são agressivos os seres que vivem naquele lugar!'.

E Abel dizia para si mesmo:

'Quero voltar lá, porque lá encontrei alguém bonito e com bom humor.'"



- Da coluna de Paulo Coelho.


Esse pequeno e singelo conto resume tão bem o espírito do décimo terceiro princípio essencial da Cabala que eu poderia encerrar a postagem por aqui. Mas eu gostaria de deixar algumas observações que considero também importantes. Como por exemplo ressaltar que hoje, em psicologia, sabe-se que:

# As pessoas costumam duvidar da capacidade dos outros como reflexo das suas próprias fraquezas;

# Os mais irredutíveis homófobos (que têm aversão aos homossexuais) são justamente aqueles que possuem as mais fortes tendências homossexuais dentro de si próprios;

# Os fanáticos religiosos que defendem com agressividade e ataques às convicções alheias as suas próprias "certezas" costumam ser aqueles que mais duvidam, intimamente, daquilo que ensinam;

# Tanto nas relações amorosas quanto nas profissionais, costumamos buscar nos outros o reflexo de nós mesmos;

# A ira aumenta, nos mais facilmente irascíveis, quando vêem nos outros o reflexo de seus defeitos e daquilo que mais repudiam em si próprios...


Mas sem nenhuma dúvida, a parte mais importante, a base primordial dessa máxima cabalística está na sua segunda parte:

"Somente consertando a si mesmo você pode mudar os outros."

Isso diz tudo. - Porque nós não temos nenhuma moral, nenhum direito de querer apontar ou corrigir nos outros os seus defeitos, se também carregamos e demonstramos esses mesmos defeitos. O melhor exemplo que podemos dar a quem quer que seja é através do nosso comportamento, muito mais do que aquilo que tentamos transmitir por meio de nossas palavras. E por essa mesma razão, para tentar mudar qualquer coisa, em qualquer pessoa, é preciso que antes mudemos tudo que está errado em nós mesmos.

E é nesse ponto que nos questionamos: "Mudar tudo que está errado em nós? Como isso seria possível? Nós não podemos ser perfeitos!" Mas é precisamente nessa contestação que se encerram duas chaves preciosas, não só para a compreensão do 13º princípio, como também para nossas vidas como um todo:

A primeira chave é saber que não é porque entendemos que não podemos ser perfeitos que não devamos tentar! Sim, nós devemos buscar a perfeição, sempre e a todo momento, mesmo que voltemos a tropeçar e a cair, uma vez atrás da outra!


Vejo muitas pessoas "religiosas" justificando comportamentos viciosos altamente prejudiciais, a si mesmos e aos seus próximos, sob a justificativa "não sou perfeito"... Eu me lembro de uma entrevista que assisti na TV, com um jogador de futebol famoso no Brasil, que se declarava evangélico e dedicava sempre os seus gols a Jesus, mas vivia sendo expulso de campo, estava sempre envolvido em brigas com os colegas e intrigas extra-campo... Nessa entrevista para um programa esportivo, quando lhe perguntaram qual a justificativa para esse tipo de comportamento partindo de um evangélico, ele simplesmente respondeu: "Eu sou um ser humano passível de erro. Não sou perfeito. Não é porque sou evangélico que tenho que ser perfeito"...

Bonn-nng! Bonnnnn-nnnn-nng!.. Gongado! Errada a resposta...

Ao contrário do que talvez possa parecer à primeira vista, segundo a tradição cabalista, essa linha de pensamento está completamente equivocada. Será que um evangélico só deve seguir as passagens da Bíblia que lhe convém?? Será que o citado atleta nunca leu a parte dos Evangelhos em que Jesus conclama: "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito!" (Mateus 5:48 )?

Mas nós não conseguimos ser perfeitos! Dirão alguns. E sim, isso talvez seja verdade, partindo do princípio que ser perfeito é nunca se enganar, nunca errar, nunca cometer nenhum deslize nesta vida. E é exatamente aí que entra a segunda chave preciosa:

A perfeição humana passa pelo respeito aos nossos limites humanos. Aceitá-los é sábio. - Se somos humanos limitados, então devemos ser perfeitos dentro dos nossos limites humanos. - Devemos ser perfeitos conforme pudermos. Lute até o fim por atingir a perfeição absoluta (a perfeição do Pai, como disse Jesus), e o que você vai obter será o máximo da perfeição humana. O que você vai conseguir é obter mais produtividade, mais paz, mais Amor, mais alegria, mais harmonia, - no seu lar, nas suas relações humanas, no seu trabalho...

Quando eu tinha meus quatorze anos de idade, escrevi na última página do meu boletim escolar: "Sei que não posso ser perfeito, mas sei que posso tentar".

Eu tinha aprendido um segredo que também a Cabala ensina, muitos anos antes de conhecê-la.

Mas nós não devemos focar a nossa atenção em nossas limitações e sim naquela perfeição almejada, pois nós não devemos nos resignar com as nossas fraquezas e limitações. Estamos aqui para crescer, para aprender, para ir além de nós mesmos e dos nossos limites.

Segundo uma parábola contada pelo Cristo, todos nós recebemos talentos ('talento', na antiguidade, era unidade monetária - uma moeda) antes de vir para cá, e um dia teremos que prestar contas de tudo que recebemos: "O que você fez com os talentos que recebeu?"

Faça o melhor que puder com os seus talentos. Invista-os, faça-os crescer. Multiplique-os! Esta é a nossa meta primeira. Enquanto estiver ocupado fazendo isso, você nem vai ter tempo para julgar os defeitos do seu próximo. Antes disso, você estará influenciando também na mudança dele e de todos para melhor, da melhor maneira que existe: Através do seu exemplo.


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Princípio essencial da Kabbalah #12

Os princípios essenciais da Cabala são, no total, em número de 14. - O décimo segundo princípio retrata a face mais mística do judaísmo rabínico que afirma que:

"A mudança interna verdadeira é criada através do poder (de 'DNA') das letras hebraicas."

As palavras do alfabeto hebraico são lidas da direita para a esquerda, e as letras também são números. Assim, "Alef", a primeira letra, corresponde também ao número 1. Isso implica numa linguagem universal de significado matemático. Os cabalistas da Idade Média e do começo da Renascença acreditavam na energia das letras, e que deveriam divulgá-las para toda a humanidade, pois não a entendiam como propriedade de um povo apenas.


Alfabeto hebreu primitivo com as 22 letras da Cabala


De fato, não devemos encarar essas letras como os outros alfabetos, pois existem diferenças enormes. Acreditam os cabalistas e também muitos rabinos que elas falam diretamente à nossa alma... As formas das letras evocam forças poderosas que existem no interior de todos nós. - O que os cabalistas modernos denominaram como o "DNA da Criação".

Os olhos são as janelas da alma... A ciência genética descobriu que, em cada ser humano, quatro letras comuns (A, C, G, T) representam as bases químicas que compõem nosso código genético e formam os “degraus” das moléculas espiraladas em forma de escada que conhecemos como DNA. As seqüências dessas letras combinam-se para criar o conjunto de instruções que constroem o ser humano em todos os seus aspectos.

A genética é uma ciência relativamente recente. Já os ensinamentos cabalísticos remontam há séculos, mas ensinam que cada uma das 22 letras hebraicas representa uma força de energia particular e que, assim como cada ser humano é constituído de um alfabeto genético de quatro letras encontrado em nosso DNA, o Universo também seria construído por um alfabeto de 22 letras, encontrados nas letras hebraicas. Não apenas os seres humanos, mas toda a matéria física seria formada por esse DNA espiritual. As letras do Alef-Beis (alfabeto hebraico) seriam como os tijolos e a argamassa do nosso Universo e dos indivíduos vivos, com todas as suas habilidades pessoais.

Da mesma forma que um prisma divide a luz solar em sete cores básicas, cada uma bem diferente da luz branca que a originou, e ao mesmo tempo fazendo parte dela, as letras aramaicas são como 22 cores diferentes, através das quais podemos perceber a Divindade em nosso mundo material. Formam os "tijolos" de construção da Criação, através dos quais tudo que conhecemos foi formado.

Assim, o Pentateuco (a Torá ou os 5 primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) escrito por Moisés não seria nem uma grande novela fictícia e nem um documento fiel da História humana, mas sim um projeto "genético" que esquematiza as forças espirituais da vida. - Usando a Cabala como uma espécie de chave, podemos penetrar no seu nível mais profundo.

Segundo a Cabala, as vinte e duas letras que compõem o alfabeto hebraico são forças espirituais essenciais sagradas, a matéria prima da Criação. Quando o Eterno as combinou em palavras, frases e ordens, elas produziram a Criação, traduzindo a Vontade do Criador em realidade objetiva. Cada rearranjo na ordem dessas letras resultaria numa mistura diferente das forças cósmicas espirituais representadas por elas, assim como cada rearranjo dos átomos conhecidos, tais como hidrogênio e oxigênio, pode produzir água potável ou água oxigenada, por exemplo. Existe um número infinito de combinações possíveis, tanto nos átomos quanto nas letras. A combinação das letras possibilitaria também elevar as forças espirituais.


72 Nomes do Eterno e Único Deus


Então, a idéia que a Cabala defende é a de “escanearmos” com nossas mentes/cérebros, de modo específico, as letras sagradas hebraicas. - Isto representa uma das suas ferramentas mais importantes. - A palavra escanear, aqui, é usada com seu significado habitual da informática: deixarmos que nossos olhos “varram” as letras, da direita para a esquerda, linha após linha, como faz um scanner ou um leitor óptico, desses usado em supermercados, faz. E assim como um scanner, não precisamos necessariamente entender o que lemos para obter os benefícios. Estamos falando de uma energia suprarracional.

Através de nossos olhos, a energia das letras passaria a um nível nosso mais interior, chegando por fim diretamente à nossa alma, sem que seja necessário o entendimento das palavras. A velocidade da "leitura" não importa, nesse caso: pode ser lenta ou bem rápida, com ou sem usar-se o dedo indicador para guiar a visão. Quando passamos os olhos pelo texto da Torá ou de alguma bênção em hebraico, ou principalmente pela grafia dos 72 Nomes Divinos, obtemos o efeito espiritual sem necessidade de raciocínio ou entendimento (não é necessário saber hebraico).

Segundo a Cabala, quando rezamos para Deus, devemos lembrar que Ele em algum nível e/ou de algum modo está no mesmo lugar que nós. Nós não "somos" Deus, mas nossas almas são parte de Deus. Temos uma centelha divina em cada um de nós.

A Cabala afirma que o quadro com os 72 nomes divinos de três letras foi usado para realizar milagres, superando as leis da natureza. Escaneando com a mente essas configurações de letras, (da direita para a esquerda e de cima para baixo), conquistamos o poder de superar as leis de nossa natureza reativa e nos transformarmos em pessoas cada vez mais proativas. Esse quadro está codificado em três frases do livro do Êxodo, (capítulos 14, versos 19,20 e 21) cada uma delas com 72 letras. Quando as frases são escritas uma sobre a outra e lidas na vertical, formam 72 nomes de três letras cada um, distribuídos num quadro de 8 x 9, conforme a representação acima.


Alfabeto Sagrado Hebraico

Como exposto, o hebraico se constitui de 22 letras, consideradas alfabeto sagrado. Como no hebraico as letras também são números, o estudo da Cabala também requer estudos de alta matemática.

No idioma hebraico há três letras-mães, que são Aleph, Mem e Schin. Há sete letras duplas, que são Beth, Ghimel, Daleth, Chaph, Phe, Resch e Thau. E há doze letras simples ou elementares , que são He, Vo, Zain, Cheath, Teth, Iod, Lamed, Nun, Samech, Ayin, Tsade e Cuph.

Ponto de partida de toda a Cabala, o alfabeto dos hebreus é composto de vinte e duas letras que não são colocadas ao acaso, uma após a outra. Cada uma delas corresponde a um número, de acordo com a sua classificação, a um hieróglifo segundo a sua forma, a um símbolo segundo a sua relação com as outras letras. Todas as letras derivam de uma delas, o Iod, da seguinte maneira:

Três letras mães:

A - (Aleph)

M - (Mem)

S - (Schin)

Sete letras duplas (duplas porque exprimem dois sons, um forte e positivo, e outro fraco e negativo) :

B - (Beth)

G - (Ghimel)

D - (Daleth)

Ch - (Chaph)

Ph - ( Phe)

R - ( Resch)

T - (Thau)

Doze letras simples, formadas pelas demais letras.

Cada letra hebraica representa três coisas: 1) Uma letra, isto é, um hieróglifo; 2) um número, o da ordenação da letra; 3) uma idéia. Combinar as letras hebraicas é combinar números e idéias.


Fontes:
Profº Luiz Martins
Rabino Yehuda Berg


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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Princípios essenciais da Kabbalah #10 e #11

"Quanto maior o obstáculo, maior a Luz potencial."

Sobre este décimo princípio essencial da Cabala não há realmente muito a ser dito, já que praticamente se trata de uma espécie de complemento ao princípio número 9.

Portanto, chegar à conclusão que esse princípio representa seria quase que uma conseqüência lógica de tudo que foi dito na nossa postagem anterior sobre a Cabala. Então vou aqui apenas reiterar o que já foi dito: os que mais enfrentam dificuldades e obstáculos na vida são exatamente os que acabam por se tornar grandes seres humanos, exemplos para a comunidade e muitas vezes até para a humanidade como um todo. Exemplos não faltam e também já foram citados. Os que precisam superar grandes obstáculos são os que alcançam as maiores realizações, pois o nosso progresso e o nosso aprendizado se dão justamente por meio das provações que precisamos enfrentar.

E assim podemos passar agora à análise do próximo princípio essencial da Cabala, o de número onze, que diz:

"Quando os desafios parecerem insuperáveis, injete certeza. A Luz está sempre presente."


Esse cara tem muita confiança ou não?


Eu diria que este princípio é bastante funcional. Como vimos, a Cabala se utiliza o termo "Luz" para se referir à Graça Divina. Estamos falando aqui de nada mais nada menos do que daquilo a que comumente chamamos “fé”. O décimo primeiro princípio essencial da Cabala é uma poderosa e milenar afirmação do poder da fé.

O que é ter fé a não ser “ter certeza”? Quando temos a plena certeza de alguma coisa, na grande maioria das vezes, essa coisa acontece, se torna real. Quem de nós nunca teve a oportunidade de comprovar essa realidade em sua própria vida?

Então, o que os antigos rabinos estão nos dizendo nestas palavras ancestrais é: Quando as dificuldades parecerem maiores, tenha fé! Este é o momento ideal para injetarmos uma dose extra de certeza em nossas vidas. Certeza de que há um Pai no Céu que cuida de nós, há uma Força maior, a Força da Vida, a tudo regendo em harmonia, que fatalmente vai nos encaminhar a um destino glorioso. Tudo que é preciso é a nossa entrega e confiança!

Só um problema: este é o tipo de princípio com o qual é fácil de se concordar ou reconhecer como "certo", e apenas ponderar e falar ao seu respeito, do que praticá-lo!

Em momentos de grandes perdas pessoais (mais até do que em momentos de perdas coletivas), de doenças, desencontros emocionais, grandes decepções... Nas ocasiões em que a vida nos prepara alguma daquelas surpresas terríveis... É exatamente nesses momentos que é mais importante acreditar, ter fé inabalável, manifestar a nossa certeza em Algo Maior!

Mas como seria isso possível?

Acho que toda e qualquer pessoa pode compreender e concorda que ter muita fé nos momentos mais difíceis da vida só faz bem, é um fator extremamente positivo, que no mínimo vai ajudar a solucionar os problemas. Tá, mas como fazer isso? Como colocar em prática um princípio espiritualista como este décimo primeiro cabalista, mesmo sabendo racionalmente que funciona, se na hora do "vamos ver" o desespero toma conta de tudo e a mente racional desaparece, sai de cena sem sequer deixar sinal da sua existência?..

Isso vai nos conduzir a uma grande verdade da vida que será fundamental na compreensão do que estamos buscando aqui: as melhores coisas da vida e as mais importantes costumam ser simples.

A cura de muitas das doenças psicológicas que parecem muito complicadas muitas vezes se dão de modo tão simples que a coisa toda chega a parecer estúpida: às vezes um profissional especializado nos processos mentais humanos simplesmente induz o paciente a mudar os seus pensamentos perniciosos e auto destrutivos fazendo-o acreditar que isso é possível! Para tanto, algumas vezes usa-se de hipnose, outras de psicanálise ou então diferentes tipos de terapia - mas o objetivo é sempre o mesmo: levar o paciente a sentir autoconfiança, acreditar em si e na solução dos seus problemas.


Já em PNL (Programação Neurolingüística) os terapeutas resolvem problemas que pareciam terrivelmente complexos apenas usando comandos claros e precisos, feitos diretamente ao sub-consciente do paciente, do tipo: “Mude agora!”, “traga aquele seu outro eu agora!”, “comece a fazer diferente a partir de agora”, etc, etc...

Inclusive muitos charlatões falsos videntes e médiuns já confessaram usar desses tipos de comando cerebral para convencer suas vítimas de seus poderes paranormais ou da existência/influência das "energias" por eles comandadas.

Em outras palavras, aquilo que acreditamos se torna real para nós, em nível subconsciente, e até certo ponto pode também se tornar real em nível físico. Vejamos o exemplo do hipnotizador que diz a uma pessoa em transe hipnótico que vai encostar a brasa de um cigarro aceso em seu braço. A seguir, toca na pele do antebraço do hipnotizado com a ponta de uma caneta. Essa pessoa dá um pulo, retira o braço com a rapidez de um gato, geme de dor. Depois de alguns minutos, forma-se no local uma pequena bolha de queimadura!! Veja bem, a pele não foi queimada, mas a certeza da pessoa fez com que a dor e mesmo os efeitos físicos se manifestassem como se tivesse sido.

Existem casos como este catalogados, que são objeto de estudo até hoje. Este é o poder da "certeza" claramente demonstrado. - No caso do exemplo citado, uma certeza induzida, mas ainda uma certeza. - Este é o poder que temos quando acreditamos plenamente em alguma coisa. Infelizmente, estamos sempre precisando de estímulos externos para acreditar que algo é possível: que somos capazes de conseguir superar dificuldades ou atingir objetivos, como emagrecer, abandonar um vício, esquecer daquele(a) namorado(a) perdido(a), etc, etc...

A Verdade é uma só e não muda, independente do que acreditamos, mas nós somos capazes de criar a nossa própria verdade, e podemos nos auto-hipnotizar de modo a crermos no que nos parecer mais conveniente num certo momento.

Isso não quer dizer que "somos Deus" ou que somos os autores de tudo, nem que somos Criador, criação e criatura em nós mesmos; também não quer dizer que sejamos a Causa de todas as coisas, como se apressam em concluir alguns místicos mais afoitos. Mas significa sim que somos, num certo nível, co-criadores do nosso destino, do nosso ser e da nossa realidade neste mundo. Temos este poder, que nos foi dado pela Fonte absoluta de toda Vida, que a Cabala chama de "O Eterno".

E depois de tudo que foi exposto até aqui, eu ainda não falei como fazer para se ter essa certeza, num momento crítico... Eu só disse que é algo simples. Mas como podemos alcançar a fé absoluta, livre de dúvidas e incertezas conflitantes, nos momentos de maior dificuldade? Como eu posso me tornar um ser sempre pronto a me "injetar certeza" quando "os desafios parecerem insuperáveis"?

Bem, eu não expliquei isso ainda, e nem vou explicar, porque não tenho essa resposta. Mas posso adiantar que, nesse caso, teorias e explicações são totalmente dispensáveis. A resposta está não no entender, assim como não está no querer, mas sim em simplesmente ser. Não no tentar, mas em fazer. Por isso, agora chegou o momento de este autor silenciar. E deixar o silêncio falar dentro de cada um. Acenda sua própria chama, dentro de si mesmo, olhe pra ela. Desarme-se, mostre-se como é. Declare o quanto está disposto a crer, o quanto confia na Sabedoria Divina, o quanto está disposto a se entregar a este Deus de Amor, se ele for mesmo real. Depois ponha-se em silêncio. E apenas aprenda sozinho. Boa sorte, e que Deus o acompanhe.


Fontes:
Kabbalah Centre;
Rabino Yehuda Berg;



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terça-feira, 17 de junho de 2008

Princípio essencial da Kabbalah #9


Conforme vamos nos aprofundando no estudo dos princípios essenciais da Cabala, começarmos a perceber que não estamos lidando com uma coleção de aforismos esparsos, afirmações soltas, cada qual versando sobre um assunto independente dos demais. Não. Os princípios essenciais da Cabala são uma coleção de máximas "fechadas" em si, que se complementam e estão unidas umas às outras, visando levar à compreensão de uma Realidade maior e transcendente. São de certa forma interdependentes e complementares.

O próximo conceito afirma algo que eu aprendi muitos anos antes de saber que existia uma coisa chamada Cabala, porque sempre me pareceu meio óbvio, evidente. - O Princípio essencial da Cabala de número 9 (confirmando, são 14 princípios ao todo), afirma que:

"Obstáculos são oportunidades para nos conectarmos com a Luz."

Imagino que este seja dos princípios cabalísticos de compreensão mais fácil, porque fala de uma noção perfeitamente lógica e razoável. - Nem sempre a religião ou a espiritualidade precisam contrariar a lógica e a razão. Ao contrário, no momento em que a fé encontra a razão e ambas se dão as mãos, é justamente nessa hora que a paz mais perfeita e duradoura pode ser encontrada. É nesse momento que os conflitos interiores cessam e podemos nos aquietar na escolha de vida que fizemos.

Que acontecem obstáculos em nossas vidas é um fato incontestável. - Quem nunca teve que superar nenhum obstáculo na vida, que atire a primeira pedra! - Sob certo ponto de vista, poderíamos mesmo afirmar que a própria vida neste plano de realidade é um grande e único obstáculo: Desde os nossos primeiros instantes neste mundo, tudo que encontramos diante de nós são obstáculos! Já nascemos apanhando, para que possamos “abrir” os nossos pulmões e respirar; esta é a primeira nova tarefa que precisaremos aprender se quisermos sobreviver! Parece incrível, mas assim que vemos a luz deste mundo, a primeiríssima coisa que temos que fazer, queiramos ou não, é enfrentar um obstáculo: respirar não é natural para um feto, que foi gerado e viveu até então imerso no líquido amniótico, envolto pelo calor e pelo conforto do ventre materno.

Depois precisamos nos adaptar à dureza e ao contato com as superfícies duras e frias do nosso novo habitat – o mundo. Precisamos aprender a mamar. Precisamos aprender a nos manifestar quando sentimos fome ou desconforto – chamar a atenção da mamãe quando algo está errado é prática importantíssima para um bebê...

E logo que crescer um pouco, esta nova criatura vai precisar aprender coisas novas: a se locomover; primeiro engatinhando, depois caminhando devagar, passo a passo... Qualquer objeto à frente de uma criança de um ano é um grande obstáculo a ser transposto... Depois que crescer mais um pouco, terá que freqüentar a escola, se adaptar à uma nova realidade, novas pessoas, conviver em um grupo que não é mais constituído exclusivamente de pessoas do seu círculo familiar, que a amam e sempre fazem tudo por ela... Talvez a criança encontre neste novo grupo alguém que a enfrente, uma outra criança que queira dominá-la, submetê-la aos seus caprichos... Nesse caso, será preciso tomar uma decisão: submeter-se ou resistir? Eis a questão... Submeter-se poderá significar humilhação, poderá representar o início de um círculo vicioso que pode se prolongar por toda uma vida, chegando até a fase adulta e comprometendo suas futuras relações pessoais, profissionais... Por outro lado, resistência implica coragem, dor, superação... Principalmente se a outra criança, a dominadora, for maior e mais forte (geralmente, é o caso)... Obstáculos, obstáculos...

Eu poderia continuar com essa narração indefinidamente. Obstáculos e mais obstáculos a serem superados... Assim prossegue a vida do ser humano, até a sua conclusão final neste planeta chamado Terra.

Mas a Cabala, em seu nono princípio essencial se propõe a responder uma questão primordial: por quê existem e ocorrem tantos obstáculos em nossas vidas? Bem, para começar, se eu acredito em Deus, e se eu acredito que Deus é perfeito, então eu forçosamente tenho que crer também que os obstáculos precisam ter uma boa e perfeita razão de ser. E que razão poderia ser essa, a não ser o nosso aprendizado? Coerente e lógico. E é exatamente isto o que a sabedoria milenar dos rabinos místicos ensina. Foi por isso que eu disse que nem sempre espiritualidade contraria a razão, embora isso muitas vezes aconteça.

Este sem dúvida é o princípio cabalístico mais facilmente observável em nossas vidas, em nosso dia a dia, independente de você ser uma pessoa espiritualizada ou não. O rabino Yehuda Berg, diretor espiritual de um dos maiores centros de estudo da Cabala do mundo, o Kabbalah Centre, vai mais longe:

“Os que atingiram a Verdade não vivem num mundo à parte, alheios às dificuldades desta vida, sem ter que superar obstáculos como qualquer um de nós. Tenha muito cuidado com doutrinas que ensinam coisas assim, porque estão a serviço de Satan, aquele que traz a ilusão, e são como um mal contagioso! (...) Todos nós estamos aqui justamente para aprender a superar obstáculos! Esta é a finalidade desta vida, e é somente isso que nos possibilitará enxergar a Luz. - O caminho de todos nós é salpicado de testes e tribulações. Esses desafios surgem para nos acordar, mostrar nossas fragilidades e nos habilitar para receber a Luz do Criador.” - Apostila do Centro de Estudos da Cabala, sob a direção dos rabinos Yehuda e Rav Berg.

Seja rico ou pobre, religioso ou não, seja alguém que encontrou seu caminho espiritual ou não, seja uma pessoa caridosa e que pratica o bem ou uma pessoa egoísta e materialista... Todos enfrentamos dificuldades. E quais foram os seres humanos mais virtuosos da História, em todos os tempos? Sem dúvida nenhuma, foram aqueles que mais enfrentaram obstáculos e aprenderam a superá-los! Quanto maiores e mais abundantes os obstáculos, maior o espírito humano: se você se interessa por História, procure conhecer mais sobre as vidas de Henry Ford, C. G. Jung, Martin Luther King, Albert Einstein, Charles Chaplin, L. V. Beethoven, Walt Disney, Napoleon Hill, Machado de Assis... - A lista seria infinita! - Todos sofreram grandes dificuldades, todos tiveram que superar enormes e numerosos obstáculos em suas épocas. E foi exatamente aí que se destacaram em suas áreas de atuação. No campo da religião e espiritualidade, que concerne a este blog, a realidade é exatamente a mesma: basta uma breve análise da história da vida dos santos ou sábios de qualquer tradição: Moisés, Zarathustra, Jesus, Buda, Confúcio, Ramana, Ramakrishna, Ghandi, J. Krishnamurti, etc, etc... Todos enfrentaram imensas dificuldades, todos tiveram que encarar grandes obstáculos em suas trajetórias.

O budismo fala da necessidade da superação dos “Cinco Obstáculos”, que a tradição Theravada chama de “Niravana”, para que possamos alcançar o Nirvana, e nos dá a seguinte dica:

“O esforço para superar os obstáculos deve ser feito da seguinte maneira: primeiro suprima-os temporariamente, com o objetivo de experimentar a profunda absorção de Jhana, o estado meditativo de profunda sensibilidade e quietude da mente, e o Insight; depois, supere-os permanentemente através do completo desenvolvimento do Nobre Caminho Óctuplo.” - Buddhist Society of Western Australia Newsletter

A esse respeito também a tradição do Yoga atribui importância fundamental. A raiz de praticamente todos os ensinamentos contidos nos Vedantas e nas Upanishads se referem a superação dos obstáculos que incessantemente a atuação de "Mara" nos impõe neste mundo ilusório. Todo o conteúdo dos sutras do hinduísmo enfatiza repetidamente a necessidade de se superar os obstáculos neste mundo e nesta existência.

"O yogue precisa superar os kleshas: dificuldades, corrupção e paixão. - Toda e quaisquer das propriedades que embotam a mente e são a base de todos os atos prejudiciais. - Os obstáculos a serem superados pelo caminhante da senda do Yoga são: a ignorância, o egoísmo, a exaltação das paixões, a aversão e o apego à vida." – Yoga Sutra II

Ou como disse o profº José Hermógenes, o maior yogue brasileiro, autor de 19 obras reconhecidas internacionalmente e considerado um dos grandes mestres Hatha do mundo: "Se eu fosse uma planta, gostaria de viver num meio favorável que me fizesse crescer. Mas como ser humano, prefiro um meio adverso que me desafie a crescer”...

A Cabala é um sistema que se propõe como uma ferramenta útil para a compreensão da essência da própria Vida. O seu nono princípio essencial nos lembra a maneira como aprendemos tudo aquilo que precisamos, desde a mais tenra infância: caindo aprendemos a nos levantar, tropeçando aprendemos a evitar as pedras, queimando-nos aprendemos a respeitar o fogo, e, avançando um pouco mais nessa linha de raciocínio, ficando doentes é que nossos corpos aprendem a criar anticorpos e se tornam fortes. No Pain, No Gain, e o que não me mata me faz mais forte: aí está o nono princípio refletido na sabedoria popular ancestral.

Como é que um atleta treina e desenvolve o seu físico, tornando-se mais forte, mais rápido e mais resistente? Ficando sentado o dia inteiro no sofá, assistindo TV e tomando um suco, pensando no quanto a vida é maravilhosa? Não! Ficamos mais fortes e nos tornamos mais e mais competentes quanto mais nos impomos obstáculos e aprendemos a superá-los. E quanto maiores eles forem, maiores serão nossos progressos.

Óbvio que nesse contexto existe a necessidade da proporcionalidade. Não convém tentarmos carregar um peso maior do que possamos suportar e nós não poderíamos esperar de alguém que nunca subiu um pequeno monte que se aventurasse a escalar o Everest. Sobre isso falou Paulo apóstolo:

“Não vieram sobre vocês dificuldades, senão humanas; mas fiel é Deus, que não nos dará dificuldades maiores do que podemos suportar. Antes, com as dificuldades dará também a possibilidade de superação, para que possamos suportar." - I Coríntios 10 : 13


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Segundo a Cabala, obstáculos são bênçãos, oportunidades para nos conectarmos com a Luz; devemos dar graças por eles, e jamais maldizê-los. Uma linha de pensamento plenamente compartilhada pelo anônimo autor deste antológico poema que se tornou ecumênico:

“Eu pedi forças... E Deus me deu dificuldades para me fortalecer.
Eu pedi sabedoria... E Deus me deu problemas para resolver.
Eu pedi prosperidade... E Deus me deu cérebro e músculos para trabalhar.
Eu pedi coragem... E Deus me deu obstáculos para superar.
Eu pedi amor... E Deus me deu pessoas com problemas para ajudar.
Eu pedi favores... E Deus me deu oportunidades.

Nem sempre recebo o que peço... Mas Deus me dá sempre o que eu preciso!”


A sabedoria parece transparecer dessas palavras. Sabedoria que é judaica, cabalista, budista, cristã... e ao mesmo tempo não é de propriedade de nenhuma tradição humana, porque é dádiva de Deus à humanidade, antes de tudo.


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Princípio essencial da Kabbalah #8

Nesta postagem abordaremos o próximo princípio essencial da Cabala, o oitavo, que pode ser entendido como uma espécie de confirmação ou uma validação do sétimo e do quarto princípios. Este oitavo princípio afirma que:

O comportamento reativo cria faíscas intensas de luz, mas deixa em seu rastro, por fim, a escuridão.

O que significa isso? Apenas aquilo que todos nós muito provavelmente já tivemos a oportunidade de confirmar pelo menos uma vez em nossas vidas: que quando damos vazão ao ímpeto de algum instinto baixo que nos toma de assalto, como a raiva, a sede de vingança, a inveja ou a luxúria, o resultado é que num primeiro momento até nos sentimos gratificados, como se estivéssemos "fazendo a coisa certa". Mas se ouvimos a nossa consciência, logo em seguida sentiremos um grande vazio, uma sensação de escuridão. Abaixo, dois exemplos de casos reais extraídos da revista de psicologia “Catharsis”, que ilustram à perfeição o significado deste oitavo princípio (os grifos são meus):


Exemplo 1:

“Entrou uma nova estagiária no escritório, uma loura estonteante. Ela é sensual e provocante, e o pior de tudo é que começou a me ‘dar bola’. Todos os meus amigos estão percebendo isso, e eu, que tenho sangue nas veias, comecei a me sentir tentado. Mesmo sendo casado e apaixonado pela minha esposa, mesmo ela me completando em tudo, eu sinto muita atração física pela nova estagiária. É só atração física e nada mais, mas é muito forte. Numa sexta feira os colegas do escritório marcaram um chope para depois do trabalho. A loura também estava nessa, e ela pessoalmente veio me convidar para ir também; eu não resisti e topei. Eu dizia para mim mesmo que nada aconteceria, que seria apenas um bate-papo inocente... Mas eu sabia muito bem que algo de errado poderia acontecer. E aconteceu (...).

Quando chegamos no bar, eu e a loura nos sentamos lado a lado; logo começamos a conversar, nos identificamos bastante, as nossas idéias eram parecidas e ficou claro que a atração física era recíproca. Bebemos talvez mais chopes do que o ideal. Num certo momento, ela pediu uma caipirinha e nós bebemos juntos. Eu comecei a me sentir muito leve e relaxado, era um momento muito gostoso... Resolvi pedir mais outra caipirinha...

Uma coisa leva a outra, e o resultado foi que, depois da happy hour, eu e a estagiária acabamos num motel... Cheguei em casa de madrugada, já arrependido. Eu tinha desligado o celular e minha esposa me esperava acordada e com os olhos inchados de chorar, ela estava muito preocupada (...). Eu dei uma desculpa e fomos dormir brigados.

Agora estou sentindo muito remorso. Na hora em que tudo acontecia, entre eu e a estagiária, de vez em quando a imagem da minha esposa me vinha à mente, mas eu a afastava sempre, porque estava indo tudo tão bem para mim... E naquele momento alguma coisa me dizia que eu merecia me divertir um pouco. Embora eu estivesse consciente o tempo todo que a minha esposa confiava em mim e que ela não merecia aquilo, na hora eu achei que seria preferível me arrepender de algo que eu fiz do que de algo que não fiz.

O que está feito está feito eu não consigo fugir da minha culpa. Depois fiquei me sentindo muito mal por isso, sentindo um grande vazio dentro de mim, como se eu tivesse matado algo muito bonito que existia entre mim e minha esposa. Depois daquela noite eu chegava em casa toda noite e olhava para o rosto dela, que sempre tinha sido tão maravilhosa comigo, e me sentia culpado. O pior é que depois desse dia ela começou a se sentir deprimida sem nenhuma razão. Antes ela me esperava sempre com um grande sorriso no rosto, às vezes com um jantar especial ou alguma surpresa para me fazer quando eu chegasse em casa, algum pequeno presente ou coisa assim. E depois do que aconteceu ela estava sempre triste e falava pouco... É como se estivesse intuindo alguma coisa... O pior é que a tal estagiária gostosa têm se demonstrado disposta a repetir a dose daquela noite. Mas eu não tenho vocação pra canalha e disse a ela que era casado... Ela não sabia disso da primeira vez.

Por fim, acabei contando tudo também à minha esposa, porque o peso na consciência estava me matando. Agora estamos separados e eu me encontro numa depressão profunda...”



Desse primeiro exemplo, gostaria de comentar um trechinho que achei muito interessante: "Achei que seria preferível me arrepender de algo que eu fiz do que de algo que eu não fiz". - Ô frasezinha feita maldita, essa! Quantas burradas são cometidas em nome dela... Uma amiga minha acabou grávida e depois se submetendo a um aborto por pensar assim! No processo todo, ela perdeu o cara que amava (a frase foi usada para justificar uma traição ao marido, igualzinho ao exemplo acima), perdeu um bom emprego e a confiança da sua família. E tudo começou com essa maldita frase feita. Eu estava lá, pessoalmente, no dia em que tudo começou e sou testemunha: ela mesma me falou essa frase, textualmente: "Prefiro me arrepender do que eu fiz do que pelo que não fiz"... Bem, ela sem dúvida se arrependeu por ter feito, e isso literalmente acabou com a vida dela, que até hoje sofre com uma depressão que os remédios não curam. Já tentei ajudá-la de diversas maneiras, mas ela nunca mais foi a mesma...


Exemplo 2:

“Meu filho de 15 anos arranjou uma briga na escola. Chegou em casa com o rosto machucado, lábios inchados e um corte no queixo. Quando ele me disse quem tinha feito aquilo, fiquei louco de ódio, porque eu conheço o garoto, que mora no mesmo bairro que nós, e ele é bem maior do que meu filho. Na mesma hora fui até a sua casa e o chamei, aos berros. Logo que o garoto saiu no portão, eu pulei em cima dele, joguei-o no chão e lhe dei uma bela surra. Só quando a mãe dele apareceu na porta e começou a gritar foi que eu saí de cima. Eu sou um cara bem grande (...) e deixei um menino de 16 anos lá, jogado no chão, sangrando e chorando...

Quando cheguei em casa já estava profundamente arrependido, e foi só então que me dei conta que o garoto era na verdade do mesmo tamanho do meu filho. E que ele também já estava com um olho roxo quando eu cheguei lá. Ou seja, o que aconteceu entre os dois meninos foi uma luta justa entre dois adolescentes, que haviam se acertado e na hora que eu resolvi intervir, na verdade já estava tudo bem entre eles. O meu filho até tentou me explicar isso, mas eu quis bancar o pai protetor, e talvez também me afirmar como macho, e fiz algo terrível. Naquela mesma noite a polícia veio até a minha casa e eu fui conduzido até o distrito policial para prestar depoimento... O garoto estava lá, ao lado dos pais dele, e só então eu percebi o quanto o havia machucado. Seu rosto estava praticamente desfigurado. Seu pai, que era meu conhecido, me olhava com uma expressão de pasmo, como quem diz: ‘O que deu em você?’(...).

Naquele momento eu vi o meu próprio filho nos olhos daquele garoto arrebentado, e um remorso enorme tomou conta de mim. Senti vontade de abraçar o menino que eu havia surrado, de lhe pedir perdão e recompensá-lo de algum modo. Lágrimas brotaram nos meus olhos, e o delegado nesse momento me disse: ‘Todo machão igual a você chora quando chega na minha frente. Você não passa de um covarde!’ – O pior é que, naquele momento, eu percebi que ele tinha toda razão. Eu tinha me comportado como um covarde completo, e agora era tarde para desfazer a minha estupidez. Teria que pagar pelo que fiz, mas nada era pior do que o peso da culpa...”



Não há dúvida nenhuma de que poderíamos citar milhares de outros exemplos muito parecidos com esses dois, mas acho que já é o suficiente para ilustrar a validade do oitavo princípio essencial da Cabala:

O marido infiel sentia uma grande atração pela "loura fatal". Ela correspondeu ao interesse. Ambos fizeram a ocasião acontecer e ele entrou de cara no que a Cabala chama de “comportamento reativo”. Quando se atirou nos braços da bela loura e saciou os seus desejos até o fim, naquele momento tudo foi muito bom para o rapaz. - Foi empolgante, foi incrível! - Tanto que, mesmo pensando na esposa ele seguiu em frente! Isso é exatamente o que o oitavo princípio chama de uma “faísca intensa de luz”: A sensação de que estamos fazendo o que é certo, ou de que estamos vivendo uma experiência pura e maravilhosa.

Precisamente a mesma coisa acontece no segundo exemplo. Quem de nós nunca foi dominado por uma raiva irracional e, ainda que por poucos instantes, desejou encher aquele chefe idiota de pancada? Quando o pai do rapaz agrediu o colega do seu filho, por um segundo ele deve ter sentido um grande prazer, uma sensação de alívio. Na sua mente, naquele momento distorcida pelo ódio, ele estava fazendo justiça, estava "vingando o coitadinho" do seu filho!

O que o princípio número oito está nos dizendo é exatamente isto: que quando você pára de resistir às tentações desta vida, e resolve reagir a elas, isto é, ceder aos seus instintos, por um momento tudo parece lhe dizer que você está fazendo o certo! Parece haver luz! Mas o que fica depois, é, "por fim, a escuridão". Pode demorar mais ou menos, mas a consequência é sempre a escuridão.

E para me manter em harmonia com a minha consciência, eu não poderia deixar de lembrar a todos os buscadores que isto é exatamente o contrário do que ensinam os “mestres” e “gurus” da nova: praticamente todos eles dizem que você deve se entregar, que você não deve resistir; que se você tem algum desejo, deve se entregar sem se reprimir. E que assim, naturalmente, no tempo devido tudo se resolverá por si mesmo. Ocorre que, nessa levada, milhares de vidas foram e continuam sendo perdidas, vidas de jovens que se entregam aos mais diversos tipos de vício e nunca mais conseguem se libertar. Nada se resolve quando nos entregamos ao comportamento reativo, porque não é isso o que acontece quando largamos mão e abandonamos o bom Caminho. A Verdade nos ensina o oposto disso. Quando deixamos de "resistir", nos tornamos como que barcos à deriva, e embora seja romântico imaginar que seremos levados, sem nenhum esforço de nossa parte, a um porto seguro, o que sempre acontece na prática é que as ondas da vida nos atiram às rochas e nos arrebentamos! - É justamente por isso que viemos a este mundo dotados de um "leme" (que é a nossa consciência) e de um "motor de popa" (que é o nosso poder de escolha, nosso livre arbítrio). Observação: ainda que você acredite em reencarnação e ache que, mesmo que botar tudo a perder nesta vida vai poder recomeçar tudo na próxima... Ainda assim, não se esqueça que a idéia é evolução, e ninguém "evolui" jogando sua vida fora. De qualquer jeito é preciso esforço. Nenhuma hipótese, absolutamente nenhuma, justifica o comportamento reativo. As religiões confirmam esta afirmação.

Além de tudo isso, para compreender este princípio é preciso ter em mente que "Religião" (re-ligare) significa "Religação com o Divino": re-ligação, isto é, voltar a ligar (unir) o que estava desligado (separado). Sem esta base primordial não há religião. E é exatamente por isso que não existe religião sem Deus: o "religar" remete à religação com Deus, o retorno à Fonte. Se o termo "Deus" não parece bom, você pode chamar de "Ser", "Infinito", "Radiante", "Fonte", "Criador", "Eterno", "Pai", "Energia Cósmica"... Mas o sentido será o mesmo, e o fato permanece: se não há Deus, podemos estar falando de filosofia, de psicologia ou alguma outra coisa. Pode ser algo bom, sim, mas não é religião. Assim, todas as religiões autênticas concordam neste oitavo princípio essencial da Cabala.


( comentàrios

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Princípio essencial da Kabbalah #7

Apresentando agora o sétimo princípio essencial da Cabala:

"Resistir aos nossos impulsos reativos cria Luz permanente."


Ao meu ver, este é o tipo de princípio espiritualista que funciona na prática, que traz em si um imenso potencial, porque se posto em prática pode se revelar útil a todos, aos que têm e também aos que não têm fé.

Apesar de as desarmonias próximas afetarem a nossa vida doméstica, a desarmonia e as violências mundiais também acabam afetando o Todo, e assim refletindo-se em nossas vidas individuais. A muitos místicos, o Todo parece estar doente, muito doente. A Terra, com a sua fauna e a sua flora e com todos os seus habitantes, está doente, e no mais profundo de nossas consciências nós todos sabemos o por quê. A Mãe Terra adoece nas mesmas proporções em que perdemos os nossos valores éticos e morais e deixamos de observar as nossas ações. E assim praticamos ou admitimos que se pratiquem (o que em termos práticos é a mesma coisa) violências contra nossas florestas, nossos rios, lagos e mares, e contra diversas espécies animais e vegetais e também contra os grupos de seres humanos mais humildes, nações inteiras que se encontram ainda num estágio de desenvolvimento longe do ideal...

E se a desarmonia e a violência, em nível mundial, fazem adoecer a Mãe Terra, será que a nossa desarmonia particular igualmente nos adoece?

Quando alguém perde a paciência, grita e esbraveja, é comum alguém dizer: “Acalme-se, senão você acaba doente!”. Nós todos já dissemos ou ouvimos algo parecido com isso alguma vez na vida. - Este é um exemplo de expressões que demonstram o nosso entendimento instintivo de que há conexões profundas entre o nosso estado mental e o estado de nossos corpos físicos. Afinal, cabeça e corpo fazem parte de um todo que é influenciado principalmente por nossas emoções, isto já comprovado e demonstrado clinicamente. E as nossas emoções negativas, especialmente a raiva, a frustração, o ódio e todas as respostas reativas do nosso ego, são capazes de causar desequilíbrios que podem provocar doenças em nossos corpos e principalmente em nossa psique.

A raiva, ou seja, a ação manifestada de nossas fúrias interiores, age como uma descarga energética excessiva e pode se manifestar de várias maneiras: pode ser verbal e pode resultar em agressões e violência direta. Ou podemos tentar "esfriar" a raiva, mantendo-a no baú do inconsciente, esperando um momento adequado para manifestá-la. Muitos fazem isso repetidamente, de maneira fria, calculada e mordaz. Existem dor e frustração envolvidas nesta raiva contida, que acabará por causar doenças de manifestação lenta e interna.

O “esfriamento” da raiva provoca ressentimento. Pessoas que agem assim procurarão analisar de maneira lógica as razões da raiva, achando que, com uma análise fria e racional poderão esconjurar a sua reação animal e instintiva. Mas o esfriamento excessivo pode acabar explodindo num sentido oposto, ou seja, virar ódio e se tornar incontrolável e mais destrutivo do que nunca quando for finalmente manifestado!

O indivíduo também pode querer negar, num primeiro momento, a sensação de frustração e raiva que sente por dentro. Tudo fica bem guardado no subconsciente, e vai se afundando nas profundezas da psique. A pessoa torna-se acabrunhada e depressiva. Mas a raiva vai e volta, como as ondas do mar, e poderá vir à tona como um furacão para destruir tudo o que encontrar pelo caminho, dentro e fora do ser.

O importante nesse caso é entender que somos nós mesmos os responsáveis por "disparar o gatilho" que dá origem à raiva: quando agimos de forma egocêntrica, ou seja, comandados pelo ego (que é influenciado entre outras coisas pelo meio social em que vivemos), estamos apertando o gatilho. Nosso ego representa em parte o aspecto físico e em parte o aspecto psicológico de nossa personalidade. Ele se conecta diretamente com nossos instintos animais, expressando as necessidades e instintos de sobrevivência do nosso corpo físico. Formamos o nosso ego logo na primeira parte da nossa vida, influenciados pelo ambiente em que formos criados. Os pais, (principalmente a mãe), a família, o ambiente doméstico e posteriormente o ambiente social, - a sociedade na qual formamos nossas primeiras noções sociais, - todos são formadores do ego, a nossa auto-imagem. Estamos sempre sob essa influência, nossas vidas inteiras, e ela acabará norteando muitas das nossas escolhas. Somente quando conseguirmos descobrir e desenvolver toda a potencialidade da nossa essência real, dando ouvidos ao que muitos místicos chamaram de “Eu Interior”, é que poderemos fugir dessa influência negativa.

Os cabalistas preconizam que, quando pudermos tomar as rédeas de nossas vidas, escolhendo nossas ações de forma consciente, poderemos escolher puxar ou não o gatilho daquela arma mortal desencadeadora de tantos males físicos e espirituais. Se despejarmos a nossa raiva nos outros somente porque não podemos admitir nossos erros, se precisarmos de um “bode expiatório” para ser objeto da nossa ira e da nossa frustração, então estaremos espalhando negatividade ao nosso redor e influenciando negativamente nosso “campo energético” - o que significa contribuir para a piora do estado geral do Todo.

Mas é fundamental compreender que o fato de "explodirmos" ou nos contermos, exteriorizar ou interiorizar a nossa raiva não irá modificar a nossa essência interior primordial, que continuará negativa. Mesmo a negação pode ser uma arma do medo e abrir certos mecanismos de defesa psíquicos/orgânicos bastante perigosos. A contrapartida é que despejar a raiva em outra pessoa também não recompõe o nosso equilibro, como muitos parecem acreditar.

Segundo a Cabala, para vivermos de forma harmoniosa é necessário estarmos sempre atentos às nossas “formas-pensamento”. Se conseguirmos transmutar o negativo em positivo, dentro de nós mesmos, estaremos no real caminho da autocura. O sentido é: o auto controle que vai nos permitir passarmos de uma condição puramente reativa (na qual apenas reagimos aos acontecimentos) para a liberdade da condição humana proativa (onde somos nós que decidimos as nossas ações – fazemos as nossas escolhas independente de fatores externos) vai depender principalmente da forma como conseguirmos resistir aos nossos impulsos egocêntricos e reativos, para "desengatilhar" essas armas mortais.

Seria muito interessante se nos lembrássemos disso a cada vez que estivéssemos a um passo de perdermos a paciência com o nosso próximo. Fazendo desse exercício um ato de Amor universal, ajudaremos também a curar o TODO.


Resumo: resistir aos nossos impulsos reativos com cada vez mais freqüência fatalmente vai nos conduzir a um novo patamar de consciência. A dedicação firme e constante a essa prática, diariamente, leva a uma evolução gradual e constante em direção à proatividade. Reatividade ou proatividade tem muito a ver com hábito. Alguém que costuma gritar (reação) toda vez que é contrariado, vai continuar gritando sempre, até que decida que gritar não é uma atitude muito madura. Se ele começar a se esforçar em contra-argumentar ao invés de gritar, e se a cada nova situação de contrariedade ele se lembrar disso, aos poucos o antigo hábito de gritar será substituído pelo novo hábito de contra-argumentar. Isto é proatividade - a diferença entre apenas reagir a acontecimentos que fogem do nosso controle e agir segundo uma escolha pessoal, determinada pela opção por algo que se escolheu como adequado e bom. Não é engolir a raiva. Não se trata de se reprimir, mas sim de saber observar-se e não sair do seu nível vibracional normal (de serenidade, por exemplo) por conta de circunstâncias externas. O clássico conto zen-budista do lendário espadachim idoso é um exemplo perfeito de comportamento proativo:

Perto de Edo (antigo nome da cidade de Tóquio) vivia um grande samurai, já idoso, que amava ensinar sua filosofia para os jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ele ainda era capaz de derrotar qualquer adversário com a espada. Certa tarde, um jovem guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de grande habilidade para contra-atacar em qualquer pequena brecha da investida do oponente, agia com velocidade fulminante. Esta sua técnica nunca havia falhado até então, tornando-o um espadachim imbatível.

Este impaciente guerreiro, conhecendo a reputação do velho samurai, procurou-o para derrotá-lo, e aumentar assim a sua fama de ronim (guerreiro errante) invencível. Todos os estudantes do velho samurai manifestaram-se contra a idéia, mas o honrado sensei aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e logo que os dois se puseram frente a frente, o jovem espadachim rapidamente começou a insultar o ancião. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seus trajes, gritou-lhe todos os insultos conhecidos - ofendeu inclusive seus ancestrais. Durante horas fez de tudo para provocá-lo, mas o velho samurai permaneceu impassível. E assim continuaram por toda a tarde...

Ao final do dia e com o sol já se pondo, o impetuoso guerreiro retirou-se, sentindo-se exausto e humilhado. Mas alguns alunos, desapontados pelo fato de o seu mestre ter aceito tantos insultos e provocações, perguntaram: "Como o senhor pôde suportar tanta indignidade ? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar covardia diante de todos nós?

Então o velho espadachim perguntou a eles:
"Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - "A quem tentou entregá-lo" - responderam eles. "O mesmo vale para a inveja, a raiva e os insultos - concluiu o ancião - "Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carrega consigo".


Ainda que a abordagem que eu tenha escolhido neste post tenha sido pragmática, sem dúvida alguma existiriam infinitas outras maneiras de abordar a importância deste princípio e o significado de se criar Luz permanente em nossas vidas, inclusive sob uma perspectiva mais mística. No entanto, sabemos que o nosso comportamento objetivo e a nossa via concreta de conduta, incluindo o nosso modo de pensar e a nossa postura mental, a longo prazo se tornam a própria “imagem” do espírito.

Não reaja. Resista e crie Luz! Eis o sentido final do sétimo princípio essencial da Cabala.


Sobre reatividade e proatividade eu falei anteriormente aqui.

Fontes:
Kabbalah Centre;
Rabino Yehuda Berg;
Profª Graziella Marraccini.


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Princípio essencial da Kabbalh #6

"Nunca coloque a culpa do que lhe acontece em outra pessoa ou em eventos externos."

Este é básico. É um daqueles princípios essenciais tão essenciais que poderíamos ter a impressão de que todo mundo já o conhece, que todos já sabem disso. E talvez até muita gente já saiba, mesmo. Mas tem sempre aquela história da enorme diferença que existe entre o “saber” intelectual e a profunda e real compreensão a respeito de qualquer assunto... E essa realidade é ainda mais inevitável quando se tratam das questões espirituais. Exemplo: todo mundo até “sabe” que é preciso amar o próximo. Mas entender a necessidade do Amor e querer aprender a amar verdadeiramente, bem, isso não é assim tão comum, certo? Todo mundo também até “sabe” que deste mundo não levaremos nada, que o dinheiro não compra nossa saúde, e que por isso deveríamos nos cuidar melhor e dar valor às coisas simples da vida. No entanto, na prática, o que vemos é o ser humano cada vez mais escravo do dinheiro num mundo dominado pelo capitalismo selvagem e mais pessoas adoecendo por conta de preocupações exageradas com luxos materiais desnecessários. Por que isso acontece? Porque “saber” alguma coisa apenas no intelecto é diferente de saber integralmente, saber de fato.

Mas eu resolvi que a abordagem do princípio de hoje será diferente. Até porque este sexto princípio da Cabala é um dos mais polêmicos que vamos estudar nessa série. - O assunto envolve toda uma gama de questões bem mais profundas do que possamos enxergar à primeira vista.


"Nunca coloque a culpa do que lhe acontece em outra pessoa ou em eventos externos"... - Provavelmente todos concordariam que somos responsáveis pela maioria das coisas que nos acontecem. Isto é, se eu me atiro da janela do nono andar, é quase certo que vou me estatelar no piso lá embaixo. E se eu enfio o meu dedo na tomada... Mas, até que ponto nós somos sempre responsáveis por tudo aquilo que nos acontece? Onde começa a influência do ambiente e das pessoas/circunstâncias que nos cercam sobre o que somos e fazemos, e assim, direta ou indiretamente, sobre o que nos acontece?

Visualização reflexiva: Uma mulher sai de casa para o trabalho. No caminho, o pneu do seu carro fura. Ela então tem que descer do automóvel, para trocar o pneu ou tentar pedir ajuda. Acontece que o pneu furou quando ela passava por uma área pouco movimentada e perigosa, e assim, acabou sendo assaltada. A mulher foi culpada pelo que aconteceu? Ou ela foi uma vítima? Segundo o princípio que estamos estudando, tudo o que nos acontece e de nossa responsabilidade, foi causado por nós mesmos. Então poderíamos especular muitas questões a respeito desse exemplo hipotético.

1) Por que os pneus do carro furaram? Estavam gastos? Bem, então ela deveria ter sido mais atenta; se tivesse tomado mais cuidado, isso não teria acontecido. = Nesse caso, a responsabilidade pelo infortúnio foi da mulher.

2) Mas suponhamos que o pneu tenha furado por ela ter passado em cima de um prego jogado na pista, o que teria sido impossível à mulher ver ou prever. Assim ela não teria como evitar o que aconteceu. = Então ela não foi culpada.

3) Indo um pouco mais fundo no nosso exercício de reflexão, ainda poderíamos argumentar que se ela tivesse tomado um caminho mais seguro para o trabalho, ainda que mais longo, ao invés de ficar passando numa área erma, o assalto não teria acontecido, ainda que o pneu tivesse furado. = Culpa da mulher.

4) Por outro lado, assaltos acontecem em qualquer lugar, hoje em dia, muitas vezes até mesmo diante de delegacias de polícia, o que implica dizer que, ter feito outro caminho não necessariamente significaria segurança. = Culpa da mulher ou das circunstâncias?

Aplicar essas duas linhas de raciocínio opostas, assim nesse caso como em infinitas outras possibilidades, poderia nos levar muito longe, e para cabeças diferentes, haveriam sem dúvida sentenças diferentes. Por isso mesmo, vou apelar para um outro exemplo mais radical:

Visualização reflexiva 2: Manhã de 31 de outubro de 1996. O Sr. Roberto, um pacato morador do bairro do Jabaquara, em São Paulo, cuida tranqüilamente das flores do jardim da sua casa, quando, simplesmente, um enorme avião de passageiros “Fokker 100” da companhia aérea TAM, cai a poucos metros da sua residência, matando instantaneamente três dos seus vizinhos, além dos 96 passageiros. O terrível acidente ocorreu devido a um problema no reverso da turbina, e a gigantesca aeronave caiu em cima das casas do bairro logo após decolar. Sr. Roberto foi atingido por estilhaços em chamas que arremessaram seu corpo a muitos metros de distância. Ele sofreu fratura exposta no tornozelo esquerdo, além de escoriações por todo o corpo. Passou quatorze dias hospitalizado e saiu com seqüelas que até hoje impedem que ele caminhe com a mesma desenvoltura de antes, sem contar o grave trauma psicológico.

Qual a culpa do Sr. Roberto por ter sido atingido por um avião que caiu do céu sem nenhum “aviso prévio”?? Ele poderia ter adivinhado o acidente antes que acontecesse? Que medidas de precaução ele poderia ter tomado para que não precisasse ter que passar por todo esse infortúnio?

As respostas são suas. Até que ponto o sexto princípio essencial da Cabala é válido? Até que ponto pode ser contestado?

Há muito a ser dito sobre este assunto, sem nenhuma dúvida, muitas perguntas a serem feitas e respostas a serem encontradas. Mas são perguntas que só você, leitor, pode fazer, e respostas que só você pode encontrar. Eu tenho as minhas próprias, que por hora prefiro não publicar, por entender que ser tratam de especulações iguais a quaisquer outras. Se você quiser compartilhar as suas próprias especulações comigo, esteja à vontade. Quem sabe assim possamos aprender coisas novas juntos, eu e você? A sua partilha será bem vinda. Este é o máximo que eu posso fazer para explicar o sexto princípio essencial da Cabala.


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