quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Yoga - conclusão

Pensa que é fácil?

Segundo a filosofia do Yoga, nós não vemos a realidade como ela é, mas como nós mesmos somos. E o que é a realidade? O célebre psicólogo-espiritualista hindu Richard Alpress, mais conhecido como "Ram Dass" diz que:

“Crescemos em um plano de existência que denominamos 'o real'. Identificamo-nos por inteiro com essa realidade, tida por absoluta, e descartamos as experiências não compatíveis com ela, como sonhos, alucinações, insanidade ou fantasia. O que Einstein demonstrou na física aplica-se também aos outros aspectos do cosmos: toda realidade é relativa. Cada realidade é verdadeira apenas dentro de certos limites; é apenas uma versão possível do modo de ser das coisas. Sempre há múltiplas versões da realidade. Despertar de uma realidade relativa é reconhecer-lhe a natureza relativa. A meditação é um instrumento para fazer precisamente isso.”

Os últimos três estágios do Yoga de Patânjali, - concentração, meditação e iluminação, - constituem a técnica tríplice chamada "samyama" e são conhecidos como "antaranga" (membros internos), em oposição aos anteriores "bahiranga" (externos), que regem a vida exterior. Isto porque no samyama não se precisa de nenhuma técnica fisiológica nova. A partir daqui, tudo acontece em nosso interior.

O Yoga tem como fundamento metafísico o Sankhya, filosofia dualista que concebe o Universo composto de dois princípios distintos: o princípio espiritual ('purusha', com múltiplas individualidades ou mônadas); e o princípio material (prakriti). Como toda escola derivada do hinduísmo, O Yoga ensina que o purusha está ligado à matéria e submetido a uma interminável roda de transmigração (sansara). A libertação (moksha) do espírito da matéria é a meta a ser alcançada.

O Sankhya e o Yoga são considerados dois aspectos de uma única disciplina. O Sankhya é a teoria; Yoga, a metodologia da libertação.


Patânjali: o codificador do Yoga

Praticamente nada se sabe sobre Patânjali, e alguns historiadores acreditam que seja uma figura totalmente ficcional. Um comentário de Vyasa (Krishna Dvapayana Vyasa, considerado autor do famoso poema épico hindu 'Mahabharata') o define como descendente de Santanu, mas existem diversas lendas sobre ele, como por exemplo que seria a encarnação do deus serpente Ananta, ou um ser meio homem meio serpente, ou ainda uma serpente que desejou ensinar o Yoga ao mundo e caiu dos céus nas palmas das mãos abertas de uma mulher, que por sua vez o chamou de "Patânjali": no sânscrito, "PAT" significa "cair" e "ÂNJALI", "mãos abertas" ou "oferenda"...

Tudo sobre esse personagem enigmático está envolto em mistério. Para começar, como já visto, a data em que ele teria vivido é fonte de grandes discussões. Há autores que afirmam que viveu no século IV aC e outros que pensam que tenha vivido entre os séculos II e VI dC. Tamanha discrepância se deve, em parte, ao costume que os autores daquela época tinham de atribuir a autoria dos seus próprios trabalhos a outros escritores já consagrados, para homenageá-los ou então para dar relevância à própria obra.

Considerando que ele escreveu em forma de sutras ou aforismos, pode se considerar (embora não com certeza) que tenha vivido entre os séculos IV e II aC, pois foi nesse período que esse estilo literário conheceu o seu auge. - O "Yoga Sutras" é considerado um dos exemplos mais perfeitos do estilo aforístico.

Uma das lendas populares da Índia sobre o nascimento do sábio conta que:

Vishnu estava descansando deitado na serpente de mil cabeças, Ádishesha, quando viu o deus Shiva dançando e ficou extasiado. Imediatamente seu corpo começou a vibrar tanto no ritmo da dança que acabou por provocar um enorme desconforto na serpente. No final da dança, Ádishesha perguntou ao deus o que tinha acontecido. Ao ouvir sobre a dança, o deus serpente ficou interessado em aprendê-la, para dançar para Vishnu. O deus ficou impressionado com a devoção da serpente e disse-lhe que Shiva iria abençoa-lo e que nasceria na Terra como alguém que iria abençoar a humanidade com sua sabedoria.

Ádishesha começou imediatamente a especular sobre quem seria sua mãe. Ao mesmo tempo, uma yoginí muito virtuosa, chamada Goñiká, estava procurando um filho a quem pudesse transmitir a sabedoria que o Yoga tinha lhe dado. Assim, ela se prostrou diante de Súrya, o deus sol, fazendo-lhe a única oferenda que conseguiu, um pouco de água, e lhe pedindo um filho. Vendo a cena, Ádishesha soube que aquela era a mãe que ele estava procurando. Quando Goñiká estava oferecendo a água ao sol, ficou maravilhada ao ver uma pequena serpente que se materializou em suas mãos e começou, momentos depois, a adquirir forma humana. Ádishesha se prostrou então diante da sua mãe e suplicou-lhe para que o aceitasse como filho. Aceitando-o, ela o chamou Pátañjali, que significa “aquele que caiu do céu durante a oferenda”.


Como encarnação de Ádishesha, Patânjali é representado com forma de naja, um ser metade homem, metade serpente, com quatro braços cujas mãos seguram os atributos de Vishnu: a concha e o disco e fazem o gesto da oferenda, "añjali mudrá", abençoando aqueles que se aproximam dele procurando as verdades do Yoga.

Sobre a obra de Patânjali existem tantas dúvidas quanto em relação à sua vida. Dançarinos fazem-lhe oferendas antes das apresentações, pois é tido como o patrono de algumas danças indianas. Alguns autores o identificam com o autor de um famoso tratado sobre Ayurveda, o célebre sistema de saúde indiano. Outros, o chamam "Patânjali o gramático", autor também do Mahábháshya, o grande comentário da gramática de Pánini, em uso ainda hoje. Essa obra redefiniu as regras do sânscrito, aumentando o vocabulário e transformando esta língua num instrumento mais preciso e efetivo, e ao mesmo tempo mais sutil e poético, capaz de expressar muitíssimos aspectos do pensamento humano.

Entretanto, as evidências apontam para o fato de que os autores destas obras sobre filosofia, medicina e gramática seriam pessoas diferentes, pois a distância no tempo entre elas é de vários séculos. Comparando o Mahábháshya com o Yoga Sútra se chega à conclusão de que ambas as obras são excelentes na argumentação e as estruturas lógicas que propõem em seus respectivos temas, mas isso não torna seus autores a mesma pessoa.

Todas as formas de Yoga que se praticam hoje em dia têm em Patânjali uma referência obrigatória. Assim sendo, outras três perguntas surgem neste quadro: foi Patânjali de fato o autor do Yoga Sútra? Em caso afirmativo, ele fez alguma contribuição original ao Yoga ou foi apenas o compilador e o sistematizador das técnicas que se usavam em seu tempo? E teria ele feito parte de um "sampradaya", uma linhagem tradicional, ou teria sido um reformador?

Quanto a ver este autor como um compilador, temos as duas seguintes situações: por um lado, o "Nirodha Samhitá," shástra atribuído a Hiranyagarbha, tido como patrono do Yoga, é chamado com freqüência "Yogánushasanam" ou o "Ensinamento do Yoga", exatamente as palavras com as quais Patânjali inicia sua obra.

Segundo uma obra chamada Ahirbudhnya, Hiranyagarbha revelou o Yoga em duas escrituras: o "Nirodha Samhitá" e o "Karma Samhitá". E Patânjali usa o mesmo termo, ‘nirodha’, para definir o Yoga no seu segundo aforismo.

Se ele fez alguma contribuição original ao Yoga não sabemos, mas com certeza podemos afirmar que citou fontes anteriores a ele. Fontes essas hoje em dia perdidas.

A maior controvérsia diz respeito ao quarto capítulo dos Sútras. - O estilo, o conteúdo e a extensão deste páda são diferentes do resto da obra. - Nele se repetem assuntos já abordados nos capítulos anteriores. Nos três primeiros, o estilo em que se desenvolvem os temas é acessível e não dogmático. No quarto, entretanto, esse estilo muda. A voz que aqui fala, o faz desde o ponto de vista de alguém que viveu algo, a diferença do resto da obra, onde se ouve falar alguém que ainda está procurando.

Outro ponto obscuro é que o terceiro capítulo conclui com a palavra "iti", que significa ‘fim’ a maneira tradicional daquela época e lugar para se encerrar um texto. Aqueles que defendem a unidade dos sutras como eles estão hoje afirmam que o quarto capítulo é coerente com os outros três, enquanto que os críticos desta posição acham muito estranho ter uma obra com dois finais e consideram o último capítulo uma interpolação posterior.

Sobre as poucas certezas que temos, podemos dizer, por exemplo, que algo chamado Yoga existiu com certeza muito antes do tempo em que Patânjali viveu. Porém, as incertezas históricas em relação ao autor dos Yoga Sutras são de pouca importância para quem deseja alcançar aquilo sobre o que a obra fala: tranqüilidade da mente e realização do espírito. Embora possamos questionar a autoria e a origem desta obra, ela é coerente e, como guia prático para a realização pessoal, se sustenta totalmente por si própria.


"Yoga Sutras": Referência absoluta para o estudo do Yoga

Sutra significa literalmente "fio". "Yoga Sutras de Patânjali" é um livro com 195 frases concebidas para serem fáceis de se memorizar. Como visto, dentro das comunidades yogues, muitos crêem que Patânjali foi apenas um compilador, e que antes dele o trabalho já existia: os sutras seriam memorizados e transmitidos de professor para aluno.

Os sutras no texto estão divididos em quatro livros: o Samadhi Pada, o Sadhana Pada, o Vibhuti Pada, e o Kaivalya Pada.

O livro Samadhi Pada contém sutras que são considerados os mais fundamentais para o Yoga. Ele enfatiza que o Yoga é e a capacidade de se dominar os próprios sentimentos e pensamentos.

No Sadhana Pada há muito sobre prática, que é exatamento o que a palavra sadhana significa (prática). Este capítulo é onde Kriya Yoga e os oito membros do Yoga apareceram pela primeira vez na História conhecida.

Vibhuti Pada: vibhuti pode ser traduzido como "poder". Os deste livro são para descrever e ajudar o yogue a atingir a Plena Consciência.

Segundo Patânjali, uma das coisas que pode acontecer quando você começa a meditar com frequência é a aparição de certos "poderes" psíquicos chamados siddhis. Um estado mais elevado de consciência desencadearia os siddhis, que viriam sozinhos com a prática, mas não seriam importantes. - Importante é o desenvolvimento espiritual interior individual. - Então, o Yoga ensina que, se poderes específicos surgirem ao longo do caminho, não deveríamos nos importar muito ou dar atenção a isso. Patânjali adverte sobre o perigo que se esconde na tentação de usar os siddhis, pois quando alguém os obtém e começa a utilizá-los em proveito próprio, esquece o objetivo real do Yoga. É como se você pegasse uma chave de fenda para fazer algum conserto, mas, ao invés de trabalhar, ficasse olhando extasiado para a forma da chave em si e esquecesse para que a pegou.

Patânjali dedica um capítulo inteiro dos Yoga Sútras aos siddhis, porque você precisa saber o que é inútil também. Se ele não descrevesse os poderes, um a um, o praticante poderia se perder. Tudo o que você não entende lhe dá medo. Mas se você souber exatamente o que é um siddhi, quando ele se manifestar, você não entrará em pânico nem perderá o controle da situação.

Finalmente, o Kaivalya Pada, que significa "isolamento". Este livro trata da liberação final da alma, meta e finalidade última de todo yogue.


“O samádhi está próximo para os que o anseiam com intensidade. Os frutos desse anseio serão proporcionais à sua intensidade.” - Yoga Sutra de Patânjali I:21,22.


Fontes e bibliografia:
Profº Fred Peixoto
Yoga Sutras de Patânjali
Site Yoga.Pro
Vidya Yoga
Contém trechos extraídos do livro "Yoga Prático", de Pedro Kupfer



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O Yoga


A primeira coisa que eu gostaria de dizer é sobre como pronunciar o nome da arte corretamente. Evite sempre dizer "a Ióga", - no feminino e com "Ó" aberto. - Apesar do uso comum (que dicionários e até bons professores aceitam), a palavra deriva do sânscrito (que é como se fosse o latim dos indianos), de uma tradição que muito valoriza a correta entonação das palavras. Na sua origem, "Yoga" é uma palavra do gênero masculino que se pronuncia com "Ô" fechado; portanto, o correto é dizer: o Yôga. Pode parecer exagero, mas certos estudantes que possuem algum conhecimento prévio acabam se utilizando desse parâmetro para escolher onde praticar: se o professor fala "a Ióga", preferem procurar uma outra escola. - Este pode ser um sinal de que ali não se conhece a matéria a fundo. - Complicado confiar em alguém que nem sabe pronunciar o nome da arte que ensina...

Polêmicas à parte, fato é que a palavra Yoga deriva da raíz sânscrita “YUJ”, que significa unir ou juntar, além de possuir inúmeras outras conotações, como dominar, subjugar, sujeitar, união, método, restrição, empenho e outras. Yoga indica o ato de dirigir e concentrar a atenção em algo, com o objetivo de aplicação e uso. Da mesma forma, significa união ou comunhão, e alude, na sua tradição, à verdadeira união de nossa vontade com a Vontade de Deus, o Absoluto; a sujeição de todos os poderes do corpo, pensamento e alma. Significa a disciplina da inteligência, da mente, da emoção e da vontade; um equilíbrio da alma que nos permite olhar da mesma forma todos os aspectos da vida. Outra concepção diria que o Yoga pode ser definido como "um método para se atingir uma meta". E o Yoga também é concebido como uma tentativa de explicação e solução para o enigma da vida.

Essa era a proposta original; um caminho de salvação ou liberação. Hoje, o Yoga está sendo adaptado para os costumes ocidentais: enquanto alguns grupos ainda se sentem atraídos por sua filosofia e espiritualidade, outros procuram apenas suas técnicas. - Há uma modalidade chamada Hatha Yoga, um método de cultura física e disciplina mental de inegável eficiência, que inclui em sua prática exercícios físicos vigorosos, respiração, meditação e relaxamento. O objetivo é a preservação da saúde e uma melhor qualidade de vida. Se você pretende conhecer melhor seu corpo, desenvolver força, flexibilidade, resistência física e serenidade mental, este sem dúvida é um ótimo caminho. - não há profissional de medicina ocidental que o desaconselhe.

Para o estudo mais aprofundado, interessa saber que o Yoga é um dos Seis Sistemas Ortodoxos da filosofia da Índia. Segundo a tradição, foi organizado em sua forma clássica por um sábio mítico conhecido como Patânjali (ou Patandjáli), que viveu, segundo diferentes especialistas, num período que varia entre IV aC e VI dC (veremos mais adiante o porquê de tamanha discrepância na datação histórica).

A saber, os Seis Sistemas Ortodoxos são:

1) Sankhya: Elaborada por Kapila no século VI aC, é uma filosofia dualista que considera o espírito distinto da matéria. Segundo ela, a salvação ou libertação (moksha) só é alcançada com a separação do Eu espiritual do mundo material;

2) Nyaya: em sua origem uma escola de retórica. Ensina que o instrumento para a obtenção do conhecimento é o raciocínio lógico;

3) Vaiseshika: fundada pelo lendário Kananda, que elaborou uma teoria atomista da matéria e considerava que a via da salvação era a compreensão das leis da natureza. Posteriormente, Nyaya e Vaiseshika acabaram se constituindo em uma única escola;

4) Purva Mimansa: significa “primeira investigação”. Baseada na autoridade dos Vedas, busca interpretar corretamente os mandamentos contidos nas suas partes mais antigas. Acentua a importância da correta ação (dharma);

5) Uttara Mimansa: significa “investigação posterior”. Mais conhecida como Vedanta, “fim dos Vedas”, baseia-se nos Upanishades, escritos místicos que buscam a compreensão do Absoluto;

6) O próprio Yoga: segundo a tradição, o sistema codificado por Patânjali, que reuniu o que considerava de melhor da tradição mística indiana em seus Yoga Sutras ('Aforismos do Yoga'), uma espécie de carta composta de 195 breves versos que servem de auxílio para transmissão oral de mestre a discípulo. - Em quatro capítulos Patânjali resume o processo e as ferramentas para a autoliberação.

Chamado "Yoga Clássico", "Raja Yoga" ('Yoga real') ou "Ashtánga Yoga" ('Yoga de Oito Membros'), o sistema organizado por Pátañjali se dividide, basicamente, em oito partes: yama, niyama, ásana, pránáyáma, pratyáhára, dháraná, dhyána e samádhi.

As duas primeiras partes, yama e niyama, são as restrições e prescrições éticas.

Yama significa controle ou domínio. - São as cinco restrições ou proscrições, - o "pontapé inicial" para os aspirantes:

Não usar nenhum tipo de violência (ahimsa); falar a verdade (satya); não roubar (asteya); não desvirtuar a sexualidade (brahmacharya); e não apegar-se (aparigraha). Esses refreamentos pretendem purificar o aspirante a yogue, aniquilar a subjetividade advinda do egocentrismo e prepará-lo para os estágios seguintes. Desempenham o controle dos impulsos naturais, que se manifestam através dos cinco órgãos de ação (karmendriyas): braços, pernas, boca, órgãos sexuais e excretores.

Niyama, as prescrições psicofísicas, compreendem também cinco disciplinas:

A purificação (shauchan); o contentamento (santosha); a austeridade ou esforço sobre si próprio (tapas); o estudo de si próprio e da metafísica do Yoga (swádhyáya); e a consagração a Íshwara, o arquétipo do yogin perfeito (Íshwara pranidhána). Estas atitudes cumprem a função de domínio sobre os cinco órgãos da percepção (jñánendriyas): olhos, ouvidos, nariz, língua e pele. Esse controle dos sentidos aponta à organização da vida pessoal do praticante.

Ásana, o terceiro estágio, compreende as posições físicas, firmes e confortáveis: “o ásana torna-se perfeito quando desaparece o esforço por realizá-lo, de forma que não haja mais movimentos no corpo”, segundo O Yoga Sútra de Pátañjali, que não é para iniciantes, mas para mestres. Daí a importância do estilo dos sútras. Cada palavra é significativa.

Por exemplo, a definição de ásana: "sthirasukham" (imóvel) e não "sukhamsthira" (confortável). Porque, primeiro, o corpo precisa ficar imóvel. Depois, vem sukham, o conforto. Su significa prazer. Kha refere-se aos indriyas, órgãos dos sentidos. O que significa que os sentidos ficarão automaticamente sob controle.

A posição sentada correta permite a prática de "pránáyáma" e "pratyáhára", os próximos passos. Mas isso só é possível quando há força, firmeza e flexibilidade no corpo. Para o yogue, o processo do ásana passa necessariamente pela construção de um corpo novo. Um corpo que não ofereça mais obstáculos para a circulação de energia.

Pránáyáma é o processo de expansão da energia vital através da respiração. A palavra é a combinação de dois termos: "prána", que significa alento, força vital, respiração, energia, vitalidade e "ayáma", que quer dizer expansão, controle, domínio, retenção, pausa. Segundo o Yoga Sútra, “pránáyáma consiste em controlar o processo de inspirar (shwása) e expirar (prashwása).” Na meditação, aumentamos o caudal de energia dentro do organismo. Mas, se o corpo não estiver preparado, haverá conflito.

Embora ásana e pránáyáma possam ser praticados para melhorar a saúde, aumentar força e flexibilidade, melhorar a disposição e outras coisas, a intenção original dessas técnicas é equilibrar o fluxo da energia no organismo, e prepará-lo para as técnicas que seguem. É impossível sentar para meditar se não estivermos acostumados a nos manter numa posição por um certo tempo, sem sentir o mínimo desconforto, sem que apareça nenhuma dor, nenhum movimento inconsciente, nenhuma dificuldade para respirar. Segundo o Yoga, estas técnicas fortalecem o sistema nervoso, regulam o metabolismo, melhoram a respiração, e ajudam a manter sob controle as emoções, atitudes e pensamentos.

Pratyáhára, a retração dos sentidos, é a faculdade de liberar a atividade sensorial do domínio das imagens exteriores. A mente é o maior obstáculo para meditar. Entretanto, antes de começar a trabalhar nela, precisamos colocar os sentidos sob controle. Desde o dia do nosso nascimento estamos sendo continuamente bombardeados por impressões, imagens, sons e sensações. Essas experiências alimentam o pensamento e nos arrastam para a experiência externa. Vivemos voltados para fora. O pratyáhára serve para desvincular-nos dessa invasão das coisas do mundo exterior. Sem ele, é impossível alcançar a meditação.

Ásana, pránáyáma e pratyáhára não são fins em si mesmos: objetivam unicamente dar ao praticante uma espécie de "infra-estrutura" física e mental firme para que possa suportar as transformações decorrentes do despertar da energia potencial que a tradição hindu chama de "kundaliní". Através destas técnicas preliminares, úteis também para superar os obstáculos iniciais (dúvida, preguiça, angústia, dispersão, etc.), o meditador se prepara para o Yoga em si, que começa com as técnicas de contemplação.

Dháraná, a concentração em um ponto só, se faz para limitar a atividade da consciência ao interior da imagem sobre a que se está meditando. Essa unidirecionalidade da consciência não se pode conseguir sem prática regular. Paradoxalmente, na prática de concentração não devemos forçar as coisas, não devemos entrar em conflito com a nossa mente. Uma concentração forçada não é real, pois só provocará mais tensão.

Dhyána, a meditação em si, consiste em parar o fluxo do pensamento. A meditação é o resultado espontâneo da concentração da consciência, e constitui a preparação necessária para atingir o objetivo do Yoga, o estado de iluminação. A meditação não pode se ensinar. A rigor, as instruções sobre como meditar terminam na concentração. Depois, o praticante deve continuar sozinho. Todas as técnicas levam você a esse estado, desde que praticadas com regularidade. Não há palavras para descrever dhyána. A única coisa que o Yoga afirma é que vale a pena o esforço. Para quem não experimentou esse estado, as palavras só irão provocar confusão e intelectualização. Ou seja, não há como se colocar alguém dentro da experiência real, apenas com descrições e explicações verbais. Quem tiver a experiência saberá que as palavras sobram, e que não podem ser usadas para descrevê-la.

Samádhi é a liberação final, o estado de iluminação em que o contemplador se absorve no "Purusha" ou Consciência Universal. No samádhi, o yogue se defronta face a face com experiências totalmente inacessíveis através do instinto ou da razão.




Fontes e bibliografia:
Profº Fred Peixoto;
Yoga Sutras de Patânjali;
Site Yoga.Pro;
Vidya Yoga.
Contém trechos extraídos do livro "Yoga Prático", de Pedro Kupfer.



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O último princípio essencial da Kabbalah


Marie Digby: "E se Deus fosse um de nós?"

Finalmente que finalmente atingimos o ponto de chegada nesta longa jornada em que corajosamente ingressamos, de investigar os princípios essenciais da Cabala. Meu sincero muito obrigado a todos os que vêm me acompanhando, desde o começo, e continuam junto comigo até aqui.

O décimo quarto princípio essencial da Cabala... Posso garantir que este é aquele que vai realmente trazer todas as explicações e toda a Luz que você estava esperando, desde o princípio.

Muitas pessoas procuram a Cabala esperando alcançar poderes mágicos ou desvendar de uma vez por todas os grandes Mistérios da vida. Pois eu digo que a partir da compreensão deste último princípio essencial, qualquer pessoa será capaz de atingir tudo isso. Todos os poderes especiais que são concedidos a nós, seres humanos; toda a compreensão de tudo que nos pode conduzir à Sabedoria Infinita, que por sua vez garantirá o nosso acesso ao poder ilimitado, e até mesmo à vida eterna... Sim, a chave para todas essas coisas está contida no décimo quarto e último princípio essencial da Cabala.

Você que chegou até aqui, nesta longa leitura, prepare-se; porque nesta postagem será revelado o segredo definitivo; a conclusão, o resumo de tudo, o conhecimento que encerra em si mesmo o potencial de levar o ser humano à capacidade de compreender a razão da sua existência, do princípio ao fim.

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Mas, exatamente por tudo que foi dito acima, antes de desvendarmos juntos esse último e maior segredo da Cabala, gostaria de registrar aqui um "resumo do resumo" das bases cabalísticas, o supra-sumo do que nos ensina a tradição dos antigos rabinos, ao final das contas:

Muitos encontram na Cabala uma profunda semelhança/similaridade com a doutrina cristã. Outros acham vários e importantes paralelos entre o que ela diz e os ensinos do Buda. E outros ainda encontram muitos pontos equivalentes entre os princípios de diversas outras grandes escolas filosófico/religiosas e a Cabala.

Todos estão certos. E isso não deveria nos surpreender, porque todo aquele que busca a Verdade acaba por encontrá-la, não importando as suas origens, a tradição a que pertence, a religião em que foi criado, etc... Se você procura a Verdade com determinação, com inquietude, com o coração aberto e a mente limpa e desimpedida, cedo ou tarde vai encontrá-la. Ou melhor, ela, a Verdade, é que vai achá-lo, mesmo que você esteja completamente perdido. E nessa hora o filho pródigo volta para casa...

Na realidade, a Cabala se tornou, através da História, uma tradição de grande importância no que tange à mecânica que serve como fundamento para muitas formas de busca espiritual. Como sabemos, sua origem é judaica. Ela se baseia nas escrituras judaicas e, sobretudo, nas suas letras hebraicas. O que basicamente se crê da Cabala de base judaica, é que Deus criou todas as coisas através do Verbo (que para os cristãos é o próprio Cristo), e como as Escrituras são em hebraico, Deus teria criado tudo através da linguagem hebraica; poderíamos dizer que Ele criou o hebraico e encerrou nas suas letras e seus significados toda a História da Criação. - Isto a tal ponto que cada letra, em si, corresponderia a uma criação ou criatura; e a soma delas, na forma das Escrituras, encerraria toda a História. - Assim, cada personagem bíblico corresponderia a uma ação divina (Abraão, por exemplo, seria a personificação da “compaixão”). Também cada lei levítica e cada ritual do Velho Testamento corresponderiam a uma descrição de algum Aspecto divino.

O auge dos estudos cabalísticos em Israel aconteceu pouco tempo após a morte de Jesus. Já na passagem do primeiro para o segundo século de nossa era, a Cabala assentou suas bases na Galiléia; - o que faz com que até hoje os cabalistas mais tradicionalistas creiam que o Messias virá da Galileia. - Embora para os cristãos e também para alguns grupos dos judeus (como por exemplo os ebionitas) ele já tenha vindo na pessoa de Jesus, que foi chamado "Galileu". Por volta de 1600 os cristãos europeus começaram a se interessar pela Cabala.

É importante sabermos também que a Cabala se desenvolveu em tempos de suposta "inatividade" de Deus, do ponto de vista dos judeus ortodoxos. É por isso que a Cabala pretende nos oferecer um caminho diferente: “Já que Deus não nos fala mais e nem vem mais a nós, descubramos meios e modos de irmos a Deus, nós mesmos. Descubramos também modos de fortalecer o Nome de Deus em nossas práticas do bem neste mundo.”

Foi dessa maneira que se desenvolveu o estudo dos Nomes Divinos (os 72 Nomes, sobre os quais já falamos aqui e aqui), bem como de nomes de anjos. Daí ser algo da natureza mecânica do elemento místico. Em todas as grandes épocas de crise e impotência humana a Cabala cresceu, pois em tempos de "silencio dos céus" poucos são os que continuam a andar firmes apenas pela força da fé.


Ao final de tudo, podemos dizer que a tradição da Cabala postula, basicamente, o seguinte:

# A razão da Criação é o Amor; isto é, o Universo e tudo que ele contém, nossas vidas inclusas, é o resultado da Vontade do Criador de compartilhar e ser compartilhado;

# O aumento de Amor e Justiça traz Deus ao mundo;

# De outro lado, a prevalência da maldade enfraquece o poder de Deus neste mundo e dá lugar ao crescimento do mal. Daí Deus requisitar os esforços humanos para vencer o mal no mundo, que a tradição cabalista denomina "Satan";

# É preciso quebrar a "Lei do Tikun": Quebrar o ciclo. Como visto em postagens anteriores, o tikun é a expressão judaica para o que comumente chamamos lei de ação e reação, e que algumas tradições chamam de “karma”, que significa que atos, pensamentos e atitudes ruins geram uma espécie de "dívida" espiritual, que necessariamente precisará ser resgatada, nesta vida ou depois dela. Tudo que acontece tem uma causa. Não há efeito sem causa, e para cada ação há uma reação em igual intensidade. "Karma", "tikun", ação e reação, movimento contínuo, pressão e resistência... tudo reflete esta Lei universal incontestável. Toda a Criação está submetida a Lei de Ação e Reação, e segundo a Cabala, quebrar o lei do Tikun em nossas vidas significa cessar este ciclo de reações em cadeia; o que só pode ser feito mudando-se o nosso modo de vida e cessando nossas reações passionais e automáticas, isto é, impensadas.

# Devemos aprender a resistir, ao invés de reagir. Sobre isto falamos no post sobre o princípio essencial nº 4. O segredo do nosso sucesso, em todos os níveis, passa por aprendermos a deixar de apenas reagir aos acontecimentos e nos tornarmos proativos, isto é, donos de nossas próprias decisões e dos nossos atos, e não marionetes que reagem inconscientemente a cada nova provocação do mundo, deixando que os estímulos externos sejam mais fortes que a nossa própria vontade.

# Assuma as responsabilidades. Profundamente relacionado com o item anterior, a Cabala nos exorta a deixarmos nossas posições de "vítimas" e tomarmos a iniciativa sempre que possível, em todas as situações, no sentido daquilo que queremos ser.

# Seja a causa. Seja pró-ativo. Mais uma vez, a mesma verdade: se quiser ser feliz, se quiser obter sucesso em sua vida, em qualquer área, busque deixar de ser uma conseqüência - daquilo que fizeram para você, daquilo que a vida fez com você, das injustiças que sofreu, dos revezes de que foi vítima... - E passe a causar você mesmo as conseqüências em sua vida. Torne-se a causa.

# A maior tentação em tempos difíceis é acreditar que podemos encontrar meios de "controlar" Deus e fazê-lo agir conforme as nossas necessidades, como ensinam diversas falsas tradições ditas esotéricas.

# Deus é Deus, mesmo que todos nós sejamos o que Ele não é! Em algum nível, é certo dizer que "somos Deus", mas entender isto ao pé da letra constitui o maior engano que seria possível a nós, seres humanos. Esta é exatamente a missão de Satan neste mundo, desde o começo: fazer-nos acreditar que somos iguais a Deus. Pois aceitar Deus como Deus é justamente o primeiro passo para transcendermos a nossa condição humana limitada e fraca.

# O chamado da Escritura para a prática da bondade não é para fortalecer a Deus, mas sim para curar o homem.

# Lembrarmos e meditarmos na forma como os santos e profetas viveram, dedicando seu tempo todo em função do próximo e da Vontade de Deus, faz com que nos conscientizemos do extremo egoísmo com que agimos a maior parte do tempo, só gastando as sobras de nosso tempo para servir a nossos propósitos egoístas.
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Mas por que estou reafirmando todas essas coisas antes de revelar, afinal, o décimo quarto e último princípio essencial da Cabala, aquele que encerra em si o Caminho da nossa Liberdade, o poder de alcançarmos a felicidade e a Vida plena? Bem, primeiro porque eu queria que ficasse muito claro que todo o esforço valeu a pena. Que os meus objetivos com essa série de postagens foi atingido. Que a essência por trás dos ensinos dos antigos rabinos foi compreendido, ao menos basicamente. E também porque o último princípio não necessita de nenhuma espécie de comentário ou complemento. - Ele precisa apenas ser aceito e praticado.

Aí vai o último princípio essencial da Cabala, aquele que resume todos os outros. A chave que abre todas as portas, neste e em outros mundos. Você com certeza já ouviu falar dele em algum momento; ele está bem diante dos nossos olhos, sempre, mas por algum motivo a maioria de nós parece não poder enxergá-lo, isto é, compreendê-lo. Persiga-o; descubra-o; encontre-o em si mesmo. E depois que encontrá-lo, medite nele noite e dia. Cultive-o dentro de si com todo cuidado, com toda a sua alma, e nunca mais o esqueça. E seja feliz para sempre. Leia-o abaixo:

Apresentando o décimo quarto e último princípio essencial da Cabala:

"AMA O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO, E ASSIM APRENDERÁS A AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS; TODO O RESTO É APENAS COMENTÁRIO. AGORA VAI E APRENDE A FAZER ISSO. QUANDO APRENDER, TUA MISSÃO ESTARÁ CONCLUÍDA!"





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