Mostrando postagens com marcador Grécia Antiga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Grécia Antiga. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Grécia Antiga: a nova revolução - conclusão

Aristóteles

Platão e Aristóteles - pintura de Rafael (clique para ampliar)

Aristóteles (384 a 322 aC) deu um passo além, dentro da história da filosofia grega. Ele foi o primeiro a apreciar a importância do raciocínio lógico, base de toda a ciência, e estava convencido de que era possível chegar a uma compreensão do Universo pela aplicação desse método. Além de tentar uma compreensão teórica da verdade nos catorze tratados conhecidos como “A Metafísica” (esse termo foi cunhado por seu editor, que intitulou esses tratados ‘depois da física’: ‘meta ta physika’), ele também estudou a física teórica e a biologia empírica.

Contudo, Aristóteles tinha uma profunda humildade intelectual, insistindo em que ninguém podia atingir uma concepção adequada da verdade, mas todos podiam dar uma pequena contribuição à nossa compreensão coletiva. Há muita controvérsia sobre sua avaliação da obra de Platão. Ele parece ter se oposto, por temperamento, à visão transcendente das formas de Platão, rejeitando a idéia de que elas tivessem uma existência anterior e independente. Aristóteles afirmava que as formas só tinham realidade na medida em que existiam objetos concretos, materiais, de nosso mundo.

Apesar dessa visão terrena e de sua preocupação com o fato científico, Aristóteles tinha uma aguda compreensão da natureza e da importância da religião e da mitologia. Observou que, à sua época (assim como ainda ocorre hoje) não se exigia às pessoas que se haviam iniciado em várias religiões de mistério que aprendessem qualquer fato, “mas que experimentassem certas emoções e fossem postas em certa disposição”. Daí sua famosa teoria literária de que a tragédia efetuava uma purificação (khatarsis) das emoções de terror e piedade que equivalia a uma experiência de renascimento. As tragédias gregas, que em sua origem faziam parte de uma festa religiosa, não apresentavam necessariamente uma versão factual, para ser entendida ao pé da letra, de acontecimentos históricos, mas tentavam revelar uma verdade mais profunda. Para ele, a História era mais trivial do que a poesia e o mito: “A História descreve o que aconteceu; a poesia e o mito, o que poderia ter acontecido. Daí a poesia ser um tanto mais filosófica e importante que a própria História; pois a poesia fala do universal, e a História, do particular”.

Pode ter havido ou não um Aquiles ou um Édipo históricos, mas os fatos das suas vidas eram irrelevantes para os personagens que experimentamos em “Homero” e “Sófocles”, que expressam uma verdade diferente, porém mais profunda, sobre a condição humana. A versão aristotélica da katharsis da tragédia era a apresentação filosófica de uma verdade que o “homo religiosus” sempre compreendeu intuitivamente: uma apresentação simbólica, mítica ou ritual de fatos que seriam insuportáveis na vida diária pode redimi-los e transformá-los numa coisa mas fácil, bela e/ou agradável.

Aristóteles

A idéia de Deus de Aristóteles

Esta teve imensa influência sobre os monoteístas posteriores, sobretudo cristãos do mundo ocidental. Em sua “Física”, ele examinou a natureza da Realidade e a estrutura e substância do Universo. Desenvolveu o que equivalia a uma versão filosófica das antigas versões emanacionistas da criação: havia uma hierarquia de existências, cada uma das quais transmitia forma e mudança para a outra abaixo dela; mas, ao contrário dos velhos mitos, na teoria de Aristóteles as emanações iam se tornando mais fracas quanto mais longe estivessem de sua fonte. No topo dessa hierarquia estava o “Motor Imóvel”, que Aristóteles identificava como Deus.

Esse Deus era puro Ser e, como tal, Eterno, Imóvel e Espiritual. Deus era puro pensamento, ao mesmo tempo Pensador e Pensamento, empenhado num eterno momento de contemplação de si mesmo, o mais elevado objeto de conhecimento. Como a matéria é falha e mortal, não há elemento material em Deus e nem nas formas elevadas de ser. O Motor Imóvel causa todo movimento e atividade no Universo, pois todo o movimento deve ter uma causa que possa ser retraçada a uma causa única. Ele ativa o mundo por um processo de atração, pois todos os seres são atraídos para o próprio Ser.

O homem está em posição privilegiada: sua alma humana tem o dom divino do intelecto, o que o torna semelhante a Deus e participante da natureza divina. Essa capacidade divina de raciocinar o põe acima das plantas e de todos os animais. Como corpo e alma, porém, o homem é um microcosmo de todo o Universo, contendo em si os mais baixos materiais, além do divino atributo (da razão). É seu dever tornar-se imortal e divino, purificando-se pelo intelecto. A sabedoria (sophia) era a mais elevada das virtudes humanas; expressava-se na contemplação (theoria) da verdade filosófica que, como em Platão, nos torna divinos pela imitação da atividade do próprio Deus. A theoria não era alcançada apenas pela lógica, mas era uma intuição disciplinada, que resultava numa extática autotranscendência. Muito poucas pessoas são capazes dessa sabedoria, porém, e a maioria só pode chegar à “phronesis”, o exercício da previsão e inteligência na vida diária.

Apesar da importante posição do Motor Imóvel em seu sistema, o Deus de Aristóteles tinha pouca relevância no sentido religioso prático. Ele não criou o mundo, pois isso teria envolvido mudança imprópria e atividade temporal. Embora tudo anseie por ele, esse Deus permanece bastante indiferente à existência do Universo, pois não pode contemplar nada inferior a ele. Certamente não dirige nem orienta o mundo, e acaba por não fazer diferença em nossas vidas, de uma maneira ou de outra. É uma questão em aberto se Deus ao menos sabe da existência do cosmo, que emanou dele como um efeito necessário da sua existência. A questão da existência de um Deus, segundo Aristóteles, talvez seja inteiramente secundária, periférica. O próprio Aristóteles pode ter abandonado sua teologia mais tarde.

Como homens da Era Axial (próximo assunto), ele e Platão preocuparam-se com a consciência individual, a vida correta e a questão da justiça na sociedade. Mas o pensamento deles era elitista. O mundo puro das formas de Platão ou o remoto Deus de Aristóteles pouco impacto teriam na vida dos mortais comuns, um fato que depois admiradores judeus e muçulmanos foram obrigados a admitir.

Nas novas ideologias da Era Axial, portanto, houve uma concordância geral em que a vida humana continha um elemento transcendente essencial. Os vários sábios que examinamos interpretaram essa transcendência de maneiras diferentes, mas uniam-se no vê-la como crucial para o desenvolvimento de homens e mulheres como seres humanos completos. Não descartaram de modo algum as velhas ideologias, mas reinterpretaram-nas e ajudaram as velhas ideologias daquele momento. Enquanto isso, os profetas que surgiram em Israel também desenvolveram suas próprias relações para enfrentar as mudanças, com o resultado de que Javé acabou se tornando o único Deus de todos os monoteístas. Mas como iria a idéia do Deus irado dos judeus se adaptar, em algum nível, com essas outras visões grandiloqüentes?


Fontes e bibliografia:
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong;
"Epistemology, Bunnin and others", 1996 - A C Grayling (Blackwell Publishers Ltd);
Dicionário Enciclopédico "Conhecer" (Abril Cultural).


( comentários

Grécia Antiga - a nova revolução #2

Ruínas do Parthenon (Acróple de Athenas) - berço da Filosofia


Platão e Pitágoras

Platão (428 ou 427 aC) tratou constantemente dos problemas da epistemologia (Teoria do Conhecimento - ramo da filosofia que investiga a natureza e as fontes e a validade do conhecimento). Grande parte de suas primeiras obras foi dedicada à defesa de Sócrates, que obrigara os homens a clarearem suas idéias com perguntas que os faziam pensar. De um modo talvez não tão diferente daquele dos pensadores da Índia, ele não mais se satisfizera com as velhas festas e mitos da religião, que achava degradantes e inapropriadas. Platão foi influenciado também pelo filósofo Pitágoras, do século VI aC, que pode ter sido, por sua vez, influenciado pelas idéias da Índia, transmitidas via Pérsia e Egito.

Pitágoras de Samos acreditava que a alma era uma divindade caída e maculada, encarcerada no corpo como num túmulo, e condenada a um perpétuo ciclo de renascimentos. Articulou a experiência humana corriqueira de sentir-se "um estranho num mundo que não parece ser o seu verdadeiro elemento". Ensinava que a alma podia ser libertada por purificações rituais, que lhe possibilitariam alcançar a harmonia com o universo ordenado. O homem que demonstrou que música e matemática são parentes (o comprimento e a tensão das cordas de uma lira podem ser convertidos em expressões matemáticas) era muito religioso, que acreditava na transmigração da alma: quando um homem morre, sua alma passa para outro corpo, de homem ou de animal. Só pela "vida pura" a alma poderia libertar-se do corpo e viver no Céu. E vida pura significava, para Pitágoras, austeridade, coragem, piedade, obediência, lealdade. Dizia a seus alunos: "Honra aos deuses sobre todas as coisas. Honra teu pai e tua mãe. Acostuma-te a dominar a fome, o sono, a preguiça e a cólera". Mas acreditava igualmente numa série de superstições: não comer carne por causa da reencarnação, não comer favas, não atiçar o fogo com ferro, não erguer algo caído do chão. O melhor meio de purificar a alma, sgundo o mesmo Pitágoras, era a música. O Universo, afirmava, era uma escala, ou um número musical, cuja própria existência se devia à sua harmonia. Como astrônomo, seu principal mérito foi conceber o Universo em movimento. Como teórico de medicina, achava que o corpo humano era constituído basicamente por uma harmonia: homem doente era sinal de harmonia rompida.

Platão também acreditava na existência de uma realidade divina imutável, além do mundo dos sentidos, e que a alma era uma divindade decaída, fora do seu elemento, aprisionada num corpo mas capaz de readquirir seu status divino pela purificação dos poderes racionais da mente.

No famoso mito da caverna, Platão descreveu as trevas e obscuridades da vida humana na Terra; ele percebe apenas sombras das Realidades Eternas, tremulando na parede da caverna. Mas aos poucos pode ser atraído e alcançar a iluminação e a libertação, acostumando sua mente à Luz divina.

Mais tarde, em sua vida, Platão parece ter recuado da doutrina das formas ou idéias eternas, mas elas se tornariam cruciais para muitos monoteístas que tentaram expressar suas concepções de Deus. Essas idéias eram realidades estáveis, constantes, que podiam ser apreendidas pelas capacidades racionais da mente. São realidades mais completas, permanentes e efetivas que os fenômenos materiais mutáveis e falhos que encontramos com nossos sentidos físicos. As coisas deste mundo apenas ecoam, participam de, ou imitam as formas eternas do domínio divino. Há uma idéia correspondente a cada conceito geral que temos, como Amor, Justiça e Beleza. A mais alta de todas as formas, porém, é a idéia de Deus.

Platão

Platão deu forma filosófica ao antigo mito do arquétipo. Suas idéias eternas podem ser vistas como uma versão racional do mundo divino mítico, do qual as coisas mundanas são apenas a sombra. Ele não discutiu a Natureza de Deus, mas limitou-se ao mundo divino das formas, embora de vez em quando pareça que a Beleza ou o Bem ideais representavam uma realidade suprema. Platão estava convencido de que o Mundo Divino era extático e imutável. Os gregos viam o movimento e a mudança como sinais de uma realidade inferior; uma coisa que tivesse uma verdadeira identidade permaneceria sempre a mesma. O movimento perfeito, portanto, seria o círculo, porque vivia girando e retornando perpetuamente ao seu ponto de partida. As esferas celestes imitariam o Mundo Divino o melhor que podem. Essa imagem absolutamente estática da divindade teria imensa influência sobre judeus, cristãos e muçulmanos, embora pouco tivesse em comum com o Deus da revelação bíblico, constantemente ativo, dinâmico, inovador, que na Bíblia encerra antigas e recomeça novas Eras. O círculo, como símbolo perfeito da transcendência, porém, seria mais tarde contestado por pensadores cristãos como G. K. Chesterton:

"Mas a cruz, embora tenha no centro uma colisão e uma contradição, pode estender os seus quatro braços para a eternidade, sem alterar sua forma. Por ter um paradoxo em seu centro, pode crescer sem mudar. O círculo gira sobre si mesmo - é limitado; a cruz abre seus braços aos quatro ventos e é como um indicador para os viajantes livres"

Mas havia um aspecto místico de Platão que os monoteístas achariam muito conveniente. Suas formas divinas não eram realidades “lá fora”, mas podiam ser encontradas dentro do eu. Em sua obra “O Banquete”, um diálogo dramático, Platão procura demonstrar que o amor por um corpo belo poderia ser purificado e transformado numa contemplação extática (theoria) da Beleza ideal. Ali, Diotima, mentora de Sócrates, explica que essa Beleza é única, eterna e absoluta, inteiramente diferente de qualquer coisa que podemos experimentar no mundo:

”Essa Beleza é antes de mais nada eterna; não nasce nem morre; não aumenta nem diminui; depois não é bela em parte e feia em parte, nem bela num momento e feia em outro, nem bela numa relação e feia em outra, nem bonita aqui e feia ali, variando segundo quem a vê. Tampouco aparece essa Beleza à imaginação como a beleza de um rosto, ou mãos, ou qualquer outra coisa corpórea, ou como a beleza de uma idéia ou ciência, ou como a beleza contida em outra coisa que não ela mesma, seja numa coisa viva, na Terra, no Céu ou em qualquer outra coisa. Ele a verá como absoluta, existindo apenas dentro de si mesma, única, eterna.”

Em suma, uma idéia como a Beleza tem muito em comum com o que muitos possivelmente chamariam “Deus”. Contudo, apesar de sua transcendência, as idéias se encontravam dentro da mente humana. Nós, modernos, experimentamos o pensamento como uma atividade, como uma coisa que fazemos. Platão a via como uma coisa que ocorre à mente: os objetos de pensamento eram realidades ativas e independentes no intelecto do homem que as contemplava. Como Sócrates, ele via o pensamento como um processo de lembrança; a apreensão de uma coisa que sempre soubéramos mas esquecêramos. Se os seres humanos eram “divindades caídas”, as formas divinas estavam dentro deles e poderiam ser tocadas pela razão, que, importa dizer, para ele não era apenas uma atividade racional dentro do cérebro, mas uma compreensão intuitiva da realidade eterna dentro de nós. Essa idéia, em maior ou menor grau, iria influenciar místicos das três religiões do monoteísmo histórico.

Platão acreditava que o universo era essencialmente racional. Um outro mito ou concepção imaginária da Realidade.


Fontes:
"A History of God, the 4000 year quest of Judaísm, Cristianity and Islam", 1993 - Karen Armstrong;
“The Symposium”, 1951 – W Hamilton (tradução de);
"Epistemology, Bunnin and others", 1996 - A C Grayling (Blackwell Publishers Ltd);
Dicionário Enciclopédico "Conhecer" (Abril Cultural).


( comentários