quinta-feira, 31 de julho de 2008

Cristianismo: fontes documentais #3

As fontes documentais primárias do Cristianismo dividem-se em:
1) Manuscritos Gregos,
2) Antigas Versões,
3) Citações Patrísticas, feitas por autores cristãos antigos.


"Patristic Testimony" - arte medieval


Manuscritos gregos

São aproximadamente 5500, classificados de acordo com o material e o estilo da escrita: papiros, unciais e minúsculos.

Papiros

São conhecidos 96 papiros, escritos em uncial até o século IV. A maioria são fragmentos de códices. São os manuscritos mais antigos conhecidos do Novo Testamento.

Unciais

São os manuscritos feitos em pergaminho quando o papiro caiu em desuso, no século IV, e utilizados até o século XI, ou seja, durante sete séculos. A escrita manteve o mesmo padrão dos papiros, tornando-se apenas um pouco maior.

Minúsculos

São manuscritos que carecem de valor crítico; são importantes apenas como testemunhas da história medieval do texto do Novo Testamento. Foram documentos preparados em escrita minúscula, entre os séculos IX e XVI, quando começaram a surgir textos gregos impressos.

Lecionários

Os cristãos herdaram uma prática comum entre os judeus: ler textos bíblicos nas reuniões de culto em unidades adequadas ao calendário anual ou à ordem eclesiástica. Nesta prática eles usavam (e ainda usam) os chamados lecionários. Alguns apresentavam lições completas para cada dia da semana, outros só para sábados, domingos e/ou dias santificados. Provavelmente os lecionários surgiram no fim do século III ou início do século IV.

Óstracos

Na Antiguidade, ainda podemos encontrar um outro tipo de material, o óstraco: fragmentos de jarro quebrado ou louça contendo frases curtas, escritas com objetos pontiagudos. Representam a literatura de uma classe que não podia comprar o papiro ou que não considerava tal escrita importante o suficiente para justificar a sua compra.

Talismãs

São fontes preparadas como talismãs ou amuletos, em madeira, cerâmica, papiro ou pergaminho. Contêm partes do Texto Sagrado. - Mas este parecia não ser um costume comum, pois são conhecidos apenas nove talismãs do Novo Testamento.


Antigas versões

A segunda fonte mais importante para chegarmos à verdade última dos autores do Novo Testamento são as antigas versões. Surgidas em decorrência do crescimento do Cristianismo, que se espalhava pelo mundo grego, as versões surgem para aqueles que não dominavam a língua grega. Os manuscritos mais antigos não ultrapassem o início do século IV ou, quando muito, o final do III. O texto que evidenciam representa um estágio de desenvolvimento provavelmente anterior ao final do século II, daí o grande valor dessas versões para a crítica textual, - elas proporcionam incicações importantes a respeito do texto grego de que foram traduzidas.

Siríaca

Provavelmente, as primeiras traduções do Novo Testamento foram feitas em siríaco, língua falada na Mesopotâmia, na Síria e em partes da Palestina, com algumas diferenças dialetais, por volta do ano 150. A tradução surgiu da necessidade de leitura de pessoas que tinham dificuldade com o grego.

Latina

São conhecidas duas versões: a Antiga Latina, traduções feitas até o século IV, e a Vulgata Latina, feita por São Jerônimo no final do século IV e início do V. Presume-se que as traduções latinas começaram no norte da África, em Cartago, que era um dos centros da cultura romana, provavelmente no final do século II. Outras traduções começaram a surgir em países europeus em que o grego estava em declínio, sendo superado pelo latim. Portanto, a Antiga Latina está dividida em duas famílias ou grupos de traduções: a africana, mais antiga e mais livre em relação à original, e a européia. Ambas se consistem em uma nova tradução. Alguns têm pensado numa terceira família, a italiana, provavelmente surgida no século IV para amenizar as diferenças entre as outras duas traduções. Todavia, a maioria dos críticos não aceita essa tríplice divisão, eles argumentam que a "terceira família" representa apenas uma forma da Vulgata.

Com tantas traduções é inevitável um maior número de divergências textuais. Agostinho já falava nas dúvidas que as inúmeras traduções provocavam. Jerônimo foi designado pelo Papa Damaso, em 383, a rever toda a Bíblia Latina. No ano seguinte, a revisão dos Evangelhos ficou pronta, onde as variações eram maiores. Jerônimo procurou eliminar as adições e harmonizações presentes nas versões latinas e fez alterações em 3.500 lugares. Em 405, toda a Bíblia ficou pronta e só muito lentamente foi conquistando prioridade, até que nos séculos VIII e IX impôs-se de modo quase universal, embora a Antiga Latina continuasse sendo copiada e usada até por volta do século XIII. O título honorífico de “Vulgata” ('comum' ou 'de uso público') foi dado pela primeira vez no final da Idade Média. Ela acabou se oficializando como a Bíblia cristã oficial no Concílio de Trento, em 1546.

Copta

O copta significa o último estágio da língua egípcia antiga. No início do Cristianismo ela consistia em meia dúzia de dialetos e era escrita em unciais gregos com outras letras. O Cristianismo entra com facilidade nessa região graças às colônias judaicas ali existentes, principalmente em Alexandria. Portanto, foi ali, longe da influência do grego, que se fez necessária a primeira tradução copta do Novo Testamento, no início do século III.

Outras versões

Há um número grande de outras versões antigas, como a Gótica, a Armênia, a Etíope, a Geórgica, a Nubiana, a Arábica e a Eslava, mas de menor importância para a crítica textual, por não haverem sido traduzidas diretamente do texto grego. A Armênia, conhecida como “a rainha das versões”, por sua beleza e exatidão, é que preserva o maior número delas: cerca de 1300!


Citações patrísticas

As citações patrísticas ou dos "Pais da Igreja" (antigos escritores cristãos) representam o terceiro grupo de fontes documentais para o estudo crítico do Novo Testamento: citações encontradas nos comentários, sermões, cartas e outros trabalhos dos antigos cristãos, especialmente os situados até os séculos IV ou V. É importante perceber que são tantas as citações que poderíamos reconstituir quase todo o Novo Testamento através delas, mesmo sem os manuscritos gregos e versões. Somente com Orígenes, por exemplo, isso quase já seria possível.

O problema das citações é que a maioria delas foi feita de memória; são inexatas, portanto. Contudo, são importantes por evidenciarem o texto antigo, do qual pouco testemunho de manuscrito existe, e também por demonstrar as primeiras tendências que influenciaram o desenvolvimento histórico do texto neotestamentário. Em quase todos os casos podem ser datadas e localizadas geograficamente, permitindo também que se verifique a data e a procedência geográfica dos manuscritos. As citações dos Pais da Igreja representam um auxílio valioso para a reconstituição da história primitiva do texto do Novo Testamento e, por conseguinte, de sua mais antiga forma textual acessível.



Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973;
McDOWELL, Josh. Evidência que exige um veredicto. Volume 2. São Paulo : Candeia, 1992;
Novo Testamento: nova versão internacional. São Paulo : Sociedade Bíblica Internacional, 2000;
Novum testamentum graece et latine. Aparatu critico instuctum edidit Augustinus Merk. Editio octava. Roma : Sumptibus Pontificii Instituti Biblici, 1957.



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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Cristianismo: fontes documentais #2

Conforme vimos no post anterior, até o século XV os textos do Novo Testamento da Bíblia eram transmitidos a partir de cópias manuais, usando-se material rústico. O próximo passo em nosso estudo é conhecer esses tipos de materiais, as tintas usadas, a maneira como eram organizados e preservados os escritos e que forma tinham esses escritos. - Esta é uma matéria de importância fundamental para todos aqueles que se interessem por ciências da religião...


Materiais

Uma parte do papiro "Rhind" (1650 aC, aprox.), com problemas matemáticos (Museu Britânico, Londres).

Papiro - O papiro foi utilizado nas primeiras cópias do Novo Testamento, já que era o principal material de escrita da Antigüidade. Trata-se de um tipo de junco, com caule triangular, com a grossura de um braço, altura que variava entre 2 e 4 metros, que crescia nas margens do Lago Huleh (Fenícia), no vale do Jordão e junto ao Nilo (onde foram encontrados os mais antigos fragmentos de papiro conhecidos, que constam de 2.850 aC!). A folha era feita com a medula do caule, cortada em tiras estreitas e postas em duas camadas transversais sobre uma superfície plana. Depois eram batidas com um objeto de madeira e se colocadas para secar ao sol e alisadas, assim estavam prontas para receber a escrita. O tamanho médio de uma folha era de 18 x 25cm, mas essa medida podia variar de acordo com a finalidade. Várias podiam ser coladas pela borda para formar um rolo, que geralmente não tinha mais do que 10 metros de comprimento. O texto normalmente aparecia em colunas de 7 cm de altura, com intervalo de 1,5 cm ou 2 cm, com um pequeno espaço para correções e anotações. As margens superiores e inferiores eram maiores. A margem do começo do rolo era ainda maior. Nos rolos utilizados com maior freqüência, usava-se um bastão roliço, cujas pontas sobressaiam acima e abaixo.

Como regra só se escrevia sobre um lado, exceto em caso de escassez, quando se utilizava também o verso. A tinta era feita com fuligem, goma e água, e a escrita era feita com uma cana de 15 a 40 cm de comprimento, de uma planta vinda também do Egito.

O papiro foi utilizado como material para escrita até a conquista do Egito pelos árabes, em 641, quando ficou impossível importar o material.


Pergaminho - Outro material utilizado era o pergaminho, mais durável que o papiro, feito de pele de carneiro ou ovelha, submetida a um banho de cal e em seguida raspada e polida com pedra-pomes. Depois era lavada, novamente raspada e colocada para secar em molduras de madeira, a fim de evitar pregas ou rugas. No final do processo recebiam uma ou mais demãos de alvaidade. A origem do nome vem da cidade de Pérgamo, onde processo foi desenvolvido por volta do século II aC.

É interessante perceber que o seu uso já era conhecido desde o século XVIII a.C., só que bem menos utilizado do que o papiro, por causa do custo elevado. O pergaminho só conseguiu superar o papiro no século IV dC. - No final da Idade Média foi substituído pelo papel, inventado na China no começo do século I e introduzido na Europa no século XII, por comerciantes árabes.

Em princípio escrevia-se sobre os pergaminhos com penas de bronze ou cobre, mas as penas naturais de ganso acabaram substituindo as peças metálicas. A tinta era feita a partir de substâncias vegetais ou minerais. As linhas eram marcadas por um estilete, podendo ser horizontais ou verticais.

Há um tipo de pergaminho conhecido como “palimpsesto”, aquele cuja obra havia sido raspada para receber um texto novo, já que o material era caríssimo. Mas o uso de pergaminhos bíblicos para outros propósitos foi condenado no ano de 692, pelo Concílio de Trullo.

Códice - Adotou-se o preguear dos manuscritos nas suas bordas e juntar uma série, formando uma espécie de caderno. Em obras maiores, faziam-se esses cadernos com um número menor de folhas, mas dobradas, como nos livros modernos. Os cadernos variavam de oito, dez ou doze folhas, todavia já foram encontrados até com cem. Surgiram os chamados códices.

Os estudiosos têm afirmado que os códices surgiram primeiramente em Roma, no início do Cristianismo. Os cristãos, por questões de praticidade, foram os responsáveis pela popularização deste sistema: porque permitia que os textos bíblicos estivessem num único livro, propiciando maior rapidez na localização de passagens; porque eram mais baratos (escritos dos dois lados da folha).

Em segundo lugar, os gentios convertidos ao cristianismo parece que optaram pelo códice para diferenciar a sua Bíblia dos livros usados pelos judeus e pelos pagãos.

Eusébio, Bispo de Cesaréia na Palestina (314/339)


Escrita

A escrita mais comum nos manuscritos mais antigos do Novo Testamento era a uncial ou maiúscula. No texto sagrado ela era caracterizada por ser mais arredondada do que nos documentos literários, sem espaço entre palavras, sem pontuação e com abreviações bem definidas. - A outra forma de escrita era com letras menores ligadas, chamadas de cursivas, usada principalmente em cartas familiares, recibos, testamentos etc. Normalmente os termos ‘cursivo’ e ‘minúsculo’ são empregados sem distinção.

No século IX ocorreu uma reforma na escrita. Letras pequenas, chamadas de minúsculas, passaram a ser utilizadas na produção de livros. Mais fluidas e rápidas, demandavam menos tempo e reduziam o preço dos manuscritos, apesar da difícil leitura. A mudança foi gradual. - A partir do século XI, somente as minúsculas passaram a ser utilizadas. Muitos manuscritos, no período intermediário, foram produzidos numa forma de combinação de uncial com minúscula.

Abreviações - O uso de abreviações já aparece nas cópias mais antigas do Novo Testamento, provavelmente com objetivo de poupar espaço. Elas eram do tipo contração, suspensão, ligaturas ou símbolos. É importante salientar que as contrações, diferentemente das outras abreviações, são utilizadas como forma de reverência ao Nome de Deus, principalmente no texto hebraico. É notório que essa prática é limitada ao texto bíblico e outras fontes cristãs, mas quando essas palavras estão sendo utilizadas em outro sentido, elas não são contraídas.

Formato - Os manuscritos eram variados em relação ao formato ou tamanho. Os menores eram de uso privado, os maiores utilizados na liturgia, costume que permanece até hoje. O menor conhecido é um do Apocalipse, do século IV, de apenas uma página, que mede 7,7 x 9,3 cm. O maior é chamado “Códice Gigante”, é do século XIII, com 49 x 89,5 cm.

O texto não seguia nenhuma forma muito rígida na página. Os papiros possuíam dezenas de colunas, os códices eram limitados ao tamanho das páginas.

Orientações para o leitor - Mesmo nos manuscritos mais antigos, encontramos freqüentemente o uso de informações auxiliares para o leitor. Exceto o Apocalipse, todos os textos do Novo Testamento trazem notas introdutórias, tratando do autor, do conteúdo e da origem do texto. Os prólogos foram preparados durante períodos de controvérsias na Igreja.

Capítulos - Eusébio preparou uma divisão em seções, para fins sinópticos, mas na maioria dos manuscritos encontramos outro tipo de divisão, ordenando os textos em relação ao conteúdo. Cada seção é identificada como um capítulo, levando uma inscrição. A divisão em capítulos, utilizada nas edições modernas, foi criada bem no início do século XIII, pelo arcebispo de Cantuária, Estevão Langton. Já a divisão em versículos surgiu com o editor parisiense Roberto Estáfano: o Novo Testamento em 1551 e o Antigo em 1555.


Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
LÄPPLE, Alfred, "As origens da Bíblia". Tradução de Belchior Cornélio da Silva. Petrópolis : Vozes, 1973; .
PAROSCHI, Wilson, "Crítica Textual do Novo Testamento". São Paulo : Vida Nova, 1993.



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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Cristianismo: fontes documentais


Para falar de Cristianismo também é preciso começar do começo, e já conhecemos aqui e aqui um rápido esboço a respeito de como eram o lugar e a época em que Jesus veio ao mundo. O próximo passo é uma análise das principais fontes que temos a respeito de sua vida e obra. Não haveria como começar de outra maneira que não pelos Evangelhos e as cartas do Novo Testamento...

"Se um autor, vindo de uma província distante perdida no meio de um continente desconhecido chegasse a um editor com um manuscrito redigido em uma língua misteriosa e anunciasse que sua obra seria traduzida em 1435 línguas e dialetos; que seria lida durante dois milênios por centenas de milhões de leitores de todos os continentes, entre todas as nações da Terra; que ela inspiraria a fundação de três religiões universais, de milhares de confissões e seitas; que provocaria revoluções e guerras, e ao mesmo tempo suscitaria, com semelhante intensidade, entregas místicas e heroísmos nunca antes vistos; que, dois ou três milênios após ter sido escrita, ela continuaria a ser vendida em todo o mercado editorial do mundo com edições de milhões de exemplares por ano; e que, enfim, uma enorme parte da humanidade veria nela um último recurso e sua única esperança de salvação, é preciso dizer como ele seria recebido?

É, no entanto, esta impossível aposta que a Bíblia realiza no campo do pensamento e de sua transmissão que, de fato, superou todos os limites de espaço e venceu o tempo todo. Este livro de Israel escrito em hebraico e em aramaico e, em grego - Novo Testamento, não surpreende apenas pela universidade e pela longevidade de sua carreira: o que faz mais ainda, talvez, ao falar ao homem de todas as idades, em todas as línguas, em todos os seus níveis de consciência e de cultura.

Se um milagre é o que torna real o impossível, estamos diante de um "milagre" no campo da comunicação universal. Ora, em plena era atômica é possível ler sob uma nova luz este documento único, escrito nas idades do bronze e do ferro."


André Chouraqui


Estamos falando do livro que é considerado sagrado para judeus, cristãos, muçulmanos e para uma infinidade de seitas ao redor do nosso planeta. Para os cristãos, o centro absoluto deste livro sagrado é um homem, que para muitos foi bem mais do que uma homem. – Entre seus títulos bíblicos, citarei alguns:

O Messias, o Cristo, Filho de Deus, Filho do Homem, Príncipe da Paz, Filho de Davi, Leão de Judá, Cordeiro de Deus, Bom Pastor, o Alfa e o Ômega, Princípio e Fim, o Vivo, o Braço do Senhor, Autor e Consumador da Fé, Autor da Salvação, o Filho Amado, Consolador de Israel, Pedra Angular, o Conselheiro, Sol Nascente, o Libertador, A Porta, o Eleito de Deus, o Primogênito, Glória do Senhor, o Guia, o Sumo-Sacerdote, o Herdeiro, o Santo Servo, o Santo de Deus, Salvação dos Homens, o Eu Sou, Imagem de Deus, Emanuel, o Justo, o Rei dos Séculos, o Rei dos Reis, Cordeiro de Deus, Caminho, Verdade, Vida, Luz do Mundo, o Mensageiro da Aliança, o Messias, a Estrela da Manhã, o Príncipe da Vida, o Profeta, a Ressurreição e a Vida, a Rocha, Palavra de Deus, Salvador, Filho do Altíssimo, Filho da Justiça, Verdadeira Luz, a Videira Verdadeira, o Verbo, o Pão da Vida...


Filologia: a história manuscrita do Novo Testamento

Copista medieval

Num período de quase 1500 anos o Novo Testamento foi copiado à mão em papiro e pergaminho. Temos notícia de uns 5500 manuscritos espalhados em museus e bibliotecas pelo mundo afora. Os documentos vão desde fragmentos de papiro até Bíblias inteiras em grego, produzidas a partir da invenção da imprensa. Na idade média os livros eram escritos pelos copistas, à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um 'm' ou um 'n') que nasalizava a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a letra, pode olhar.

É notório que nem todos os manuscritos concordam. Pequenas variações requerem uma avaliação cuidadosa para determinar o que o autor realmente escreveu. Não existindo mais nenhum manuscrito original, vamos depender tão somente de cópias dos textos-fontes de autores apostólicos. Por isso precisamos da crítica textual.

A quase totalidade dos pesquisadores acredita que a Bíblia é plena e verbalmente inspirada no seu original, já que, para os copistas, deturpar o sentido original da mensagem que eles consideravam sagrada seria um pecado mortal. A intenção do filólogos é a de procurar dar a maior segurança possível ao leitor quanto à fidedignidade da fonte grega de todas versões que temos hoje.

O apóstolo Paulo diz em sua carta aos gálatas: “Vede com que letras grande vos escrevi de meu próprio punho” (6.11). Imaginemos como seria impressionante poder ver a epístola no original, ou ver como o apóstolo assinava seus textos. Infelizmente, porém, os originais desaparecem e o confronto da cópia de um manuscrito com o original, para verificar a correspondência entre os respectivos textos e assim analisar a maior ou menor autoridade para escolha do texto exato é impossível.

É importante percebermos que uma das razões para o fim prematuro dos autógrafos (originais) do Novo Testamento foi a pouca durabilidade do papiro, que não durava muito mais que o nosso papel atual. É bem possível que os cristãos primitivos tenham lido e relido os originais até que se desfizeram por completo. Mas antes que os textos desaparecessem, eles foram copiados.

Até a invenção da imprensa, muitos erros foram cometidos, resultado natural da fragilidade dos copistas. E obviamente, à medida que aumentavam as cópias, mais cresciam as divergências entre elas. Afinal, cada copista acrescentava os próprios erros àqueles já cometidos pelo anterior. O objetivo da Crítica Textual tem sido o de avaliar as fontes e reconstruir o texto com a maior probabilidade possível de ser idêntico ao original.

O texto sagrado já estava completo por volta do ano 100, sendo que a grande maioria dos livros que o compõem já exista há pelo menos 20 anos antes dessa data, alguns até 50 anos antes, e de todas as cópias manuscritas que chegaram até nós, as melhores e mais importantes são as do século IV. Isso faz com que o Novo Testamento seja a obra mais bem documentada de toda a Antigüidade.

Fragmento de um texto bíblico neo-testamentário de mais de 1.00 anos

Só para ilustrar a afirmação acima, podemos dizer que os clássicos gregos e latinos, cuja autenticidade poucas pessoas questionam, possuem um espaço muito maior entre os autógrafos e as cópias. Por exemplo, a cópia mais antiga que se conhece de Platão foi escrita 1300 anos depois de sua morte! O único clássico que se aproxima do Novo Testamento é Virgílio, falecido no ano 8 aC, de quem encontramos um manuscrito completo de suas obras no século IV dC.

Nesse aspecto, a situação do Novo Testamento é bem diferente. Temos manuscritos do século IV, em pergaminho, e um número considerável de fragmentos em papiro de praticamente todos os livros que compõem o Novo Testamento, que nos levam até o século III, e alguns até o século II. - Há também uma outra prova documental que remontaria até a época da vida do próprio Jesus Cristo, que, embora polêmica, não deve ser descartada. - Você pode adquirir o documentário a respeito aqui.

Há um grande número de documentos disponíveis. Conforme dito no início, existem cerca de 5500 manuscritos gregos (língua do Novo Testamento) completos ou fragmentados, e aproximadamente 1300 manuscritos das versões e milhares de citações dos Pais da Igreja. Ou seja, o problema não está na falta de evidências textuais, mas no excesso. Este é, porém, um problema que resulta em vantagem, afinal temos uma multiplicação de manuscritos que oferecem ensejo para a correção dos pequenos erros e muito mais elementos de comparação. Isso faz com que o texto tenha muito mais apoio crítico do que qualquer outro livro do período histórico antigo.

O processo filológico envolve também um número assustador de variantes. Num processo natural de multiplicação de manuscritos, por um período de mais ou menos 1400 anos, foram surgindo inúmeras variações textuais. Variações que são de pouca importância doutrinária; por exemplo, variações na ordem de palavras, no uso de diferentes preposições e outras, o que na prática seria impossível de se representar na língua portuguesa.


Fontes e bibliografia:
Profº Nataniel dos Santos Gomes (UNESA);
ALLEN, Clifton J. Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento 1-5. Vols. 8-12. Rio de Janeiro: JUERP, 1983-1985;
BALLARINI, Teodorico (dir). Introdução à Bíblia. Tradução Frei Simão Voigt. Petrópolis: Vozes, 1968;
Bíblia de Jerusalém, (A). Nova edição revista. São Paulo: Paulinas, 1986;
Bíblia online: a maior biblioteca da Bíblia em CD-ROM no Brasil: Barueri, Sociedade Bíblica do Brasil, 1998.


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