quinta-feira, 20 de março de 2008

O Buda

Esta é uma doutrina que eu conheço bem, porque estudei de dentro. Conheci ótimos mestres e fui instruído nas linhas Zen e Terra Pura, além de ter estudado budismo tibetano no Centro Dharma da Paz, o mesmo do célebre Lama Michel.

Mas acho meio sem sentido começar a falar sobre o budismo, enquanto religião, antes de falar do seu fundador, o Buda Sakyamuni (ou Shakyamuni), o Buda histórico, aquele que (formalmente) deu início a tudo. Serei o mais breve possível, porém, porque essa história já foi muito bem contada, em muitos lugares, muitas e muitas vezes, e penso que a maioria dos que vêm aqui já a conheça bem. É importante saber, antes de mais nada, que a vida real do Buda encontra-se cercada de mistério, mitificação e simbologias - hoje, muito pouco se sabe do que é fato histórico e o que é alegoria na história da vida de Sakyamuni. Segue um resumo muito simplificado da vida do príncipe Sidarta (ou ‘Siddhartha’) Gautama, chamado "o Desperto" e "o Iluminado", isto é, o Buda, segundo a tradição budista:


Naquele tempo, a Índia estava dividida em pequenos estados e a sua sociedade era dividida em castas. E desde aquela época, já havia por lá uma grande diversidade de práticas religiosas.

Certa vez, a rainha Maya do clã dos Shakyas sonhou com um elefante branco que trazia uma flor de lótus em sua tromba. Ela contou o sonho ao seu marido, o rei Shuddhodana, mas ele não soube interpretá-lo. Chamaram então os mais sábios da casta dos brâmanes, que esclareceram que o sonho era o prenúncio do nascimento de um filho prodigioso: ele se tornaria um monarca universal ou um grande monge. O nascimento do menino, cercado de eventos auspiciosos, aconteceu no jardim de Lumbini.

Ele foi chamado de Sarvarthasiddha Gautama — "aquele da família Gautama que realiza as suas metas" — logo simplificado para Sidarta Gautama. Sidarta nasceu no ano de 560 aC, filho de um rei do povo Sakhya que habitava a região da fronteira entre a Índia e o Nepal. Ele viveu durante o período áureo dos filósofos e um dos períodos espirituais mais importantes da história; conhecido nos meios acadêmicos como Era Axial: ele foi contemporâneo de Heráclito, Pitágoras, Zoroastro, Mahavira e Lao-Tsé, entre outros.

Durante sua infância, Sidarta foi educado pelos melhores professores do seu tempo e atingiu a excelência em todos os campos do conhecimento humano. Ele também desenvolveu grandes habilidades marciais e venceu um torneio de artes militares, obtendo o direito de se casar com sua bela prima Yashodhara.

Na tentativa de entreter Sidarta, temendo que o prenúncio dos sábios se cumprisse e o seu filho abandonasse o reino, o rei Shuddhodana deu a ele três grandes palácios, onde desfrutava das melhores comidas, bebidas, vestimentas e prazeres. A vida de Gautama era muito agradável, repleta de confortos. Ele por fim se casou e teve um filho, mas vivia totalmente protegido de qualquer contato com os sofrimentos do mundo exterior, por ordem de seu pai. Mas ele desejava saber o que havia fora dos muros dos palácios, e o que acontecia no mundo, além da sua vida fútil. Assim, numa tarde, o jovem Gautama fugiu e transpôs os portões do palácio...

Não sabia ele, ainda, que esse seria o incício da sua grande jornada espiritual: fora do seu mundo de beleza e prazeres, viu as três coisas que mudariam a sua vida para sempre: um ancião que, encurvado, mal conseguia andar e se apoiava num bastão; um homem que agonizava com terríveis dores, devido à doença; um cadáver envolvido num lençol de linho branco...

Essas três visões o puseram em contato com a velhice, a doença e a morte, os elementos que mais tarde seriam conhecidos como “as Três Marcas da Impermanência", que o deixaram profundamente abalado. Voltando para o palácio, ele encontrou um “Sadhu”, um eremita errante cujo rosto irradiava paz profunda e dignidade; essa foi a sua quarta visão. Profundamente angustiado por ter descoberto as dores e o sofrimento da vida e impressionado pela visão do eremita, Gautama renunciou à sua vida de comodidades e fugiu para a floresta, a fim de se dedicar à prática espiritual e encontrar o fim do sofrimento. Resolveu naquele momento dedicar o resto da sua vida à busca da Verdade. Seu único filho, Rahula, tinha nascido na noite em que ele decidiu partir. Apesar do coração repleto de afeição pela esposa e pelo filho, Sidarta não hesitou em deixar seus palácios para buscar o caminho da prática espiritual. Como símbolo de sua renúncia, ele cortou seus longos cabelos com uma espada.

Abandonando o palácio, Sidarta seguiu para a floresta, onde começou a praticar pesadas austeridades, acompanhado por outros cinco ascetas. Permaneceu nessa dura vida ascética, praticando rigorosas penitências e jejuando constantemente, por seis anos, até se convencer de que esse estilo de vida não traria o fim do sofrimento. Convencido da inutilidade de buscar suas respostas nas práticas extremas, percebeu que devia mudar seu rumo.

“Se esticar demais a corda, ela arrebentará; se deixá-la muito frouxa, não poderá produzir música.”

De súbito, ele compreendeu que tanto a entrega aos prazeres mundanos quanto o ascetismo rigoroso são extremos; o ideal é seguir um caminho intermediário: ele descobriu “O Caminho do Meio”.

Uma jovem pastora chamada Sujata havia decidido fazer uma oferenda de leite e arroz aos seres divinos da floresta. Aquele era um gesto de agradecimento por ela ter conseguido um filho. Ao ver Sidarta meditando na floresta, Sujata pensou que ele fosse uma divindade e lhe entregou a oferenda. Sidarta se alimentou e logo recuperou a saúde. Os outros ascetas pensaram que ele tinha abandonado sua busca pelo despertar e o abandonaram.

Depois disso, durante sete anos Sidarta estudou com os filósofos da região, mas continuava insatisfeito. Por fim, depois de muitas viagens, chegou a Bodhi Gaya (ou Bodigaya), onde encontrou uma grande figueira de bodhi. Diante dessa bela árvore ele tomou a resolução de sentar-se às suas raízes e não sair dali até ter alcançado a iluminação...

E assim fez. Mara, o demônio, que insufla o ego dos seres humanos, tentou distrair Sidarta. Suas três filhas — Cobiça, Raiva e Ignorância — tentaram seduzi-lo, mas não tiveram sucesso. Hordas de demônios tentaram atacá-lo, mas suas flechas, pedras e bolas de fogo transformaram-se em pétalas e faíscas. Sidarta tocou a terra, tomando-a como sua testemunha e continuou a meditar. Durante 49 dias permaneceu sentado à sobra da figueira, em profunda meditação. Então ele contemplou o karma — o modo como as ações e seus frutos condicionam todos os seres - e o sofrimento, sua causa, sua cessação e o caminho que leva à cessação. Num amanhecer, Sidarta finalmente atingiu o “Bodhi” — a iluminação, o despertar — transcendeu todos os estágios da mente e chegou ao estado superior chamado Nirvana. Então exclamou:

"Maravilha das maravilhas, todos os seres são completos e perfeitos, dotados de virtude e sabedoria, mas os pensamentos ilusórios impedem que percebam isso!"

Inicialmente, ele pensou que os seres humanos seriam incapazes de compreender o Caminho que leva à iluminação. Entretanto, um ser luminoso surgiu e lhe pediu que dividisse com todos a sua dádiva. Cheio de amor e compaixão pelos seres, o Buda decidiu transmitir o Dharma. Ele tinha então 35 anos de idade.

A partir de então, ele passou a ser conhecido como Buda — o Iluminado, o Desperto — e como Sakyamuni — o Sábio dos Shakyas.

Seus ensinamentos são conhecidos como o Caminho do Meio, ou simplesmente o Dharma (a Lei). Ele procurou os ascetas que tinham sido seus companheiros e lhes concedeu os primeiros ensinamentos. Eles se tornaram os primeiros monges e assim surgiu a “Sangha”, a comunidade budista. O Buda passou a viajar constantemente para expor o Dharma, atraindo muitos discípulos. Em três meses, sessenta discípulos já tinham atingido o estado que os budistas chamam de “santidade”. Eles foram enviados a várias direções como mensageiros do Dharma, "para o benefício de muitos, para a felicidade de muitos, por compaixão pelo mundo".

O Buda Sakyamuni visitou o seu reino, dando ensinamentos a seus amigos e parentes, incluindo seu pai, seus tios e seus primos. Muitos deles tornaram-se monges e entraram para a ordem monástica budista. Seu filho Rahula também foi ordenado como monge noviço e mais tarde atingiu a santidade. Seu pai, Shuddhodana, atingiu a santidade em seu leito de morte. O próprio Buda cuidou de seus funerais. Após a morte do pai, sua tia Prajapati e sua esposa Yashodhara tornaram-se as primeiras monjas budistas. Seu primo e atendente, o famoso monge Ananda, foi muito importante para o estabelecimento da ordem monástica feminina.

Conta-se que um temido assassino chamado Angulimala tinha matado 999 pessoas e carregava no pescoço uma guirlanda com dedos de suas vítimas. Estava ansioso por matar o Buda Sakyamuni, que seria a sua milésima vítima perfeita, um homem ilustre. Mas depois de conhecê-lo, Angulimala tornou-se monge. Com seu amor e compaixão, o Buda viu que Angulimala tinha capacidade de cultivar a amizade e a bondade. Tempos depois, até mesmo Angulimala atingiu a iluminação e se tornou um Buda solitário.

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O Buda provocou uma verdadeira revolução na mente espiritual da Índia e chocou a nação ao ensinar o Dharma para todos que o buscassem, independente de sexo, idade ou origem, e principalmente sem distinção de casta social. Ele lutou contra esse terrível flagelo, que desde a sua época e até os nossos dias (apesar das novas legislações) oprime milhões de indianos. A justificativa para a eterna escravidão dos nascidos nas “castas inferiores” era (e ainda é) a de que na próxima encarnação haveriam novas oportunidades de renascimento melhores... A situação mais desumana era a dos "párias", nascidos à margem do sistema de castas, chamados "intocáveis", pois nenhum membro da sociedade deveria sequer tocá-los, sob o risco de se tornarem impuros e acumular sobre si karma ruim. Por essa razão, Sakiamuni ensinou em seu próprio idioma, um dialeto do nordeste da Índia, evitando o sânscrito empregado pelos hinduístas e eruditos, o símbolo de uma casta que na sua visão não significava necessariamente sabedoria, justamente porque os brâmanes tinham cargos hereditários. O Buda costumava também recomendar a seus discípulos que ensinassem em suas próprias línguas, de forma que a doutrina pudesse ser conhecida em outros países.

Ao contrário do que popularmente se imagina, devido a interpretações incorretas ou informações em publicações tendenciosas, o Buda histórico nada ensinou a respeito de vida pós morte ou reencarnação. Para ele, a vida depois da morte é um problema sobre o qual nada pode ser dito. Ele não negou nem afirmou esses princípios, deixando sempre essa questão em aberto. - Mais informações sobre esse assunto aqui e aqui. - No entanto, por ter essa doutrina se desenvolvido no seio do hinduísmo, muitos elementos das duas religiões se mesclaram no decorrer da História, dando origem a diversas linhas de interpretação, como é o caso do budismo tibetano. Atualmente, porém, o Dalai Lama (líder máximo do budismo tibetano) não ensina a reencarnação como verdade absoluta, mas afirma que esse tema pode ser revisto de acordo com as novas descobertas científicas (leia mais aqui e aqui).

Aos 80 anos de idade, o Buda Sakyamuni proferiu seus últimos ensinamentos e atingiu a liberação final, ou "Parinirvana", em um bosque da cidade de Kushinagara. Sua morte foi decorrente de e uma grave intoxicação alimentar e fortes diarréias. Uma semana depois, seu corpo foi cremado e suas relíquias foram divididas, sendo preservadas em muitos relicários (chamados ‘dagobas’) em diversos países.

As últimas palavras do Buda foram:

“A decadência é inerente a todas as coisas compostas. Vivei fazendo de vós mesmos a vossa ilha, convertendo-vos no vosso refúgio. Trabalhai com diligência para alcançar a vossa Iluminação”.


Fontes e bibliografia:
Profº Frederico Saraiva;
Profª Bárbara Elias;
DharmaNet;
Voyage Extrema;
Seleções em Folha.



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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A Era Axial


Renascimento da humanidade

Uma sensação de mal estar, um sentido de estar incompleto, inacabado, parece ter tomado conta do mundo, afligindo pessoas em regiões bastante distantes umas das outras, em todo o mundo civilizado. Um crescente número de pensadores passara a achar que as práticas espirituais de seus ancestrais não mais funcionavam para as pessoas, e um impressionante batalhão de gênios proféticos e filosóficos fazia esforços supremos para encontrar uma solução. Alguns historiadores chamam esse período, que se estendeu de cerca de 800 a 200 aC, de "Era Axial" - termo cunhado pelo filósofo alemão Karl Jaspers, e que tem a ver com “eixo” - porque se revelou fundamental para a humanidade: era como se a mente do mundo passasse a “entrar nos eixos”, por algum motivo que não podemos explicar, ao mesmo tempo em todas as partes do mundo. Princípios forjados e compreensões adquiridas nessa era continuam a alimentar homens e mulheres até hoje.

Sidarta Gautama iria se tornar um dos mais importantes e típicos luminares da Era Axial, junto com os grandes profetas hebraicos dos séculos VIII, VII, VI; Confúcio e Lao-tsé, que reformaram as tradições religiosas da China nos séculos VI e V; o sábio iraniano Zarathustra, do século VI; e Sócrates e Platão, que exortaram os gregos a questionarem até mesmo as verdades que pareciam evidentes por si mesmas. As pessoas que participaram dessa grande transformação estavam convencidas de que se achavam no limiar de uma nova era, e que nada jamais voltaria a ser a mesma coisa de antes.

A era Axial assinala o início da humanidade como hoje a conhecemos. Durante esse período, homens e mulheres tomaram consciência, de uma forma (até onde sabemos) sem precedentes, de sua existência, natureza e limitações. A sensação de absoluta impotência num mundo cruel levou-os a buscarem as mais altas metas e uma realidade absoluta nas profundezas de seu próprio ser. Os grandes sábios dessa época ensinaram os seres humanos a enfrentar a miséria da vida, transcender suas fraquezas e viver em paz no meio deste mundo imperfeito. Os novos sistemas religiosos que surgiram nesse período - taoísmo e confucionismo na China, budismo e hinduísmo na Índia, monoteísmo no Irã e Oriente Médio, e racionalismo grego na Europa - partilhavam, todos, características fundamentais sob suas óbvias diferenças. Só participando dessa transformação em massa foi que os vários povos do mundo puderam progredir e entrar na marcha da história. Contudo, apesar de sua grande importância, a Era Axial permanece misteriosa. Não sabemos o que a causou, nem por que deitou raízes principalmente em certas áreas nucleares: China, Índia, Irã e Mediterrâneo oriental. O que levou chineses, iranianos, indianos, judeus e gregos a sentirem esses novos horizontes e embarcarem numa busca sem precedentes por Luz e Salvação? Antes disso, babilônios e egípcios haviam criado grandes civilizações, mas não desenvolveram uma ideologia axial nessa altura, e só depois participaram do novo etos universal (conjunto das coisas que distinguem os povos, nomeadamente no que diz respeito às suas atitudes, hábitos e crenças) – principalmente no islã e no cristianismo, sob certo ponto de vista reafirmações do impulso axial original.

Mas nos países axiais, uns poucos homens sentiram novas possibilidades e desligaram-se das antigas tradições. Buscaram a mudança no recesso de seus seres, na maior interioridade em suas vidas espirituais, e tentaram fundir-se com uma Realidade que transcendia as condições e categorias mundanas normais. Após essa era fundamental, sentiu-se que só indo além de seus limites podiam os seres humanos tornar-se plenamente eles mesmos.


A História humana registrada só começa por volta de 3000 aC. Até essa época, temos pouca prova documental da maneira como os seres humanos viviam e organizavam suas sociedades. Mas sempre se tentou imaginar como foram os 20 mil anos de pré-história, e enraizar nela sua própria experiência. Em todo o mundo, em toda cultura, esses dias antigos foram descritos na mitologia, que não tem fundamento histórico, mas fala de paraísos perdidos e catástrofes primais. Também é extremamente curioso observar que todas as mitologias antigas narram histórias perfeitamente similares a respeito das origens: todas falam na glória original da humanidade, um período de total bem aventurança e depois uma queda para o nosso atual estado de coisas. Na “Era de Ouro”, dizem, os deuses andavam na terra junto com os seres humanos. A história do Jardim do Éden, contada no Gênesis, o paraíso perdido do Ocidente, era típica: um dia, não havia divisão entre a humanidade e o divino: Deus passeava no jardim, na brisa do entardecer. Tampouco eram os seres humanos divididos uns dos outros. Adão e Eva viviam em harmonia, ignorando sua diferença sexual e a distinção entre bem e mal. Trata-se de uma unidade impossível de se imaginar em nossa existência mais fragmentada, mas em quase toda cultura o mito dessa Concórdia ou Comunhão primal mostrava que os seres humanos continuavam a ansiar por uma paz e inteireza que julgavam ser o estado perfeito da humanidade. Eles sentiram o alvorecer como uma dolorosa perda da Graça divina. A Bíblia hebraica chama esse estado de inteireza e completude de Shalom; Gautama falava em Nirvana e deixou sua casa para encontrá-lo. Todos as grandes tradições acreditavam que os seres humanos haviam vivido nessa paz e plenitude antes, mas tinham esquecido o Caminho que a elas reconduziria. Nascia o conceito do que hoje chamamos “Religião” – era preciso religar-se à nossa condição de unos com a Fonte.


Fontes e bibliografia:
Profº Miguel Castelo Branco;
"Buda", 2002 - Karen Armstrong (Editora Objetiva).


A seguir: Budismo.



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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O Mahavira

Templo jaina - Índia

O termo "Mahavira"* é um título dado a Nataputra Vardhamana, o reformador do jainismo e o último dos vinte e quatro "Tirthankaras" ('Construtores do Caminho'). Mahavira é também conhecido com os nomes de Vardhamana (o que sempre avança), e Sanmati. Segundo a tradição jaina ele nasceu em 599 aC em Kshatriyakundagrama ou Kundapura, perto de Vaishali, na Índia, e viveu até o ano de 527 aC, em Pavapuri.

Mahavira pertencia à casta guerreira (kshatriya), sendo o seu pai o rei Siddharta, líder de um grande clã, e a sua mãe Devananda, que pertenceria à casta dos brâmanes - outras tradições apresentam outros nomes para a sua mãe, como Trishala, Videhadinna ou Priyakarini, e colocam-na na casta guerreira. - Seus pais eram ambos seguidores do grande Parshva. Devananda era a irmã do rei Chetaka de Vaishali, a capital de uma federação onde o Jainismo de Parshva era popular.

Com a prosperidade do reino do seu pai, Mahavira cresceu num ambiente de luxo, entre riquezas e fartura principescas. Pela sua coragem e auto controle nas circunstâncias mais difíceis, foi-lhe dado o título de Mahavira, que significa "grande herói". Ele mostrou a sua coragem logo em criança, realizando ainda pequeno feitos como montar um elefante pelo dorso e agarrar uma imensa serpente e atirá-la para longe. Recebeu, provavelmente, a educação de um aristocrata em filosofia, literatura, ciências militares e administrativas, bem como nas artes.

Mahavira casou com a princesa Yasoda e tiveram uma filha, Anojja. Quando ele tinha por volta de 28 anos, morreram os seus pais. Quis renunciar ao mundo; mas, para agradar ao irmão mais velho, concordou em viver em casa durante mais dois anos, durante os quais, praticou rigorosa auto disciplina. No último ano de sua estada em sua casa, distribuiu todos os seus bens e praticou a caridade todos os dias.

Aproximadamente aos 30 anos de idade, abandonou de vez todas as suas posses para partir em busca da Verdade. Renunciou a toda sua riqueza, propriedades, mulher, filho, parentes e prazeres. No jardim da cidade de Kundapura, aos pés de uma árvore ashoka, sem mais ninguém estar presente, e depois de permanecer dois dias sem água, tirou todas as roupas, cortou seu cabelo e colocou uma simples peça de tecido sobre o ombro. Como se percebe, desde o nome do seu pai, tudo em sua história se assemelha aos acontecimentos da vida do Buda histórico, Sidarta Gautama (o Buda Sakiamuni), e o mais impressionante é que os dois foram contemporâneos: viveram ambos numa época em que as práticas religiosas tradicionais começavam a entrar em crise. Em particular, o sacrifício de animais e o sistema de castas eram postos em cheque, e tanto Mahavira quanto o Buda os rejeitaram.

Logo após deixar a sua vida confortável para trás, o Mahavira se entregou à rigorosas práticas ascéticas na esperança de alcançar a iluminação. Durante um ano usou roupa, mas depois passou a andar nú, como sinal de absoulta renúncia dos valores mundanos. Deixou que insetos o atacassem; sofreu ataques físicos e verbais; dormiu em locais inóspitos; praticou jejuns extremos; num período total de doze anos. Teve também particular cuidado em não fazer mal a qualquer forma de vida, desenvolvendo assim a teoria de "Ahimsa" ('Não-Violência'). É por isso que até hoje alguns monjes jainas (os da ordem svetambra) usam uma máscara de tecido usada sobre a boca ('mukhavastrika'), para não ingerirem, involuntariamente, pequenos insetos. Isso seria causar a morte de um ser vivo, o que geraria karma ruim.

Mahavira fez votos de negligenciar o seu corpo e sofrer sem resistência a todas as dificuldades, tanto as espirituais quanto as mundanas. Já antes de se casar, havia obtido os três primeiros níveis do conhecimento - conhecimento dos sentidos, conhecimento dos estudos e conhecimento da intuição - e diz-se que atingiu também o quarto nível do conhecimento, o qual inclui os movimentos psicológicos de todos os seres senscientes (que dispõe de consciência).

Mahavira tornou-se um sem-teto. Em certa ocasião, um pedinte brâmane, pediu-lhe uma esmola; ele, que já não tinha mais nada, deu-lhe metade da vestimenta do seu ombro. Treze meses depois, tinha oferecido tudo o que restava da sua roupa.

Após alguns meses de contemplação, Mahavira foi para um ashram em Moraga, onde foi convidado pelo abade, que fora amigo do seu pai, a permanecer ali durante os quatro meses da estação das chuvas. Ficou numa cabana com uma cobertura de palha. O verão tinha sido tão quente que a erva da floresta tinha desaparecido, e o gado começou a comer as cabanas de palha dos ascetas. Os outros ascetas espantaram o gado, mas Mahavira deixou os animais comerem a cobertura da sua cabana. Os ascetas então queixaram-se ao abade e Mahavira decidiu abandonar o ashram, passando a estação das chuvas na vila de Ashtika. Refletindo nessa experiência, resolveu seguir a rígida disciplina de nunca viver na casa de pessoas desagradáveis, mantendo o silêncio, comendo na sua mão como se fosse um prato e não mostrando delicadeza ou prestando honra aos donos das casas.

Mahavira permanecia habitualmente com o corpo rígido como uma estátua (kayostarga). Simultaneamente, praticava a meditação e austeridades severas. No verão meditava ao sol ou caminhava nos campos ardentes pelo calor extremo, enquanto no inverno meditava nu ao ar livre. Caminhava devagar, mantendo cuidadosamente os olhos no chão, para evitar pisar qualquer inseto. Vivia em casas abandonadas, crematórios, jardins ou qualquer lugar isolado.

A pouca comida, conseguia-a mendigando. Se via outro pedinte, animal ou ave esperando pela comida de uma casa, seguia silenciosamente para a casa seguinte. Em determinada ocasião, jejuou por 30 dias consecutivos. Durante longo período, sua vida foi cheia de aventuras, e o sofrimento era uma constante, mas ele manteve sua postura firme e meditativa.

Após o décimo segundo ano procurando a mais alta iluminação, Mahavira meditou durante seis meses sentado em quietude, mas falhou. Fazia penitência num cemitério, quando Rudra e a sua mulher o interromperam. Finalmente, no décimo terceiro ano de uma vida ascética, enquanto meditava e após dois dias e meio de jejum de água, Mahavira obteve o nirvana e a mais alta consciência, chamada "Kevala", ou "Sabedoria Absoluta". Diz a tradição que a primeira mensagem de Mahavira após a sua iluminação está registada no texto "Majjhima Nikaya":

"Eu sou toda a Sabedoria e todo o visível,
possuidor de um conhecimento infinito.
Tanto esteja a caminhar ou quieto,
tanto esteja a dormir, como acordado,
o supremo conhecimento e a intuição
estão presentes em mim – constante e continuamente.

Existem, oh Nirgranthas, alguns atos pecaminosos
vividos no vosso passado
os quais devem agora abandonar,
por esta forma extrema de austeridade.
Agora e aqui, vão viver reduzidos
a observar os vossos atos, discursos e pensamentos.
Isso irá trabalhar como não produção de karma para o futuro.

Então, pela exaustão da força dos atos passados
através da penitência e da não acumulação de novos atos,
podem estar certos da paragem da maldição futura
e do renascer a partir de tal parar,
da destruição dos efeitos kármicos,
daí, da destruição da dor,
daí, da destruição dos sentimentos mentais,
e daí, da completa libertação
de todos os tipos de dor."


Um dia apareceram dois monarcas e nove escolásticos, e argumentaram com Mahavira - acabaram convertidos. A tradição Jaina diz que estes 11 trouxeram 4.400 discípulos para a nova fé. Aos poucos, Mahavira começou a converter toda a população com os seus discursos, incluindo os nobres daquela vasta região.

Depois disso, o Mahavira dedicou todos os anos restantes da sua vida a ensinar sua doutrina.


Doutrina

"Ahimsa" - Não Violência - não causar mal ou sofrimento a qualquer ser (mesmo vermes ou insetos);

"Satya" - Verdade - evitar a mentira;

"Asteya" - Honradez, Honestidade - não se apropriar do que não foi dado;

"Brahmacharya" - Castidade - abster-se das relações sexuais;

"Aparigraha" - Desapego - não se apegar às posses materiais, não ter apego pelas coisas mundanas.

Mahavira viveu toda sua vida imerso na autocontemplação. Ele soube que os prazeres do mundo são transitórios, e que eles reforçam as letras do karma. Ele soube que a renúncia conduziria ao alcance da eterna bem-aventurança. Mahavira faleceu aos 72 anos. O seu primeiro discípulo, Indrabhuti Gautama, morreu ao amanhecer do dia seguinte. Seus seguidores posteriormente organizado a religião jaina nos seus moldes actuais. - "Jaina" vem de "jina", que significa vitorioso ou conquistador.

As idéias metafísicas essenciais do Jainismo, estabelecidas por Mahavira, são consituídas por nove princípios cardinais:

# O Universo está dividido no que é vivo e consciente (jiva) e na matéria inerte (ajiva).

# As Jivas (almas) são tanto apanhadas pelo karma (ação) na roda de renascimentos (samsara) ou libertadas (mukta) e aperfeiçoadas (siddha). Apesar do seu número ser infinito, as jivas são individuais e cada uma contêm um potencial infinito de consciência, poder e benção.

# "Ajiva", a matéria, é feita de partículas eternas em tempo e espaço que podem ser alterados e parados.

# "Ashrava" - "jiva", a alma, é atraída para os objetos dos sentidos pelo princípio de Ashrava, que leva ao sofrimento (bandha) da alma pela ação do karma.

# "Punya", a virtude;

# "Papa", o vício;

# "Samvara', a alma evita "ashrava" (o 'influxo kármico') pela contemplação e a auto disciplina da mente, fala e corpo. Isto leva, eventualmente, a

# "Nirjara", a eliminação do karma;

# "Moksha", a libertação, é obtida. Na morte da última vida, o "Nirvana" (literalmente “ser extinto”) explica o fim da existência mundana da alma, a qual, então, se eleva ao mais alto Céu.


“Todos os objetos do mundo são passageiros como o mundo. Onde pode alguém conseguir a felicidade neste mundo, o qual é a morada da doença, do sofrimento, da dor e da morte?” - O Mahavira


*Nota: todos os termos em língua estrangeira deste post provém do sânscrito.


Fontes e bibliografia:
"Lord Mahavir and Jain Religion" - Pravin K. Shah
Profº Vinay Lal;
Grupo Shunya;
Dharmanet.Com;
Wikipedia revisado.


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